Bíblia em Contos

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A Última Visão de Moisés

O vento soprava cortante no cimo do Pisga, carregando consigo o pó fino e alaranjado do deserto de Moabe. Era um vento antigo, que havia moldado aquelas colinas por eras, e agora acariciava o rosto de um homem ainda mais antigo. Moisés fitou o horizonte ocidental, e seus olhos, embora não foscos, carregavam o peso de cento e vinte anos. Não era um peso de fraqueza, mas de memória viva. A pele enrugada em seu rosto era como um pergaminho onde se inscrevera o êxodo de uma nação.

Abaixo de si, estendia-se o vale do Jordão em toda a sua vastidão, uma colcha de retalhos em tons de verde-oliva e ocre sob o sol da tarde. Seu olhar percorreu a paisagem com uma lucidez que não era apenas dos olhos. Era uma visão concedida, um último e profundo presente. Jericó surgia à distância, suas muralhas parecendo pequenas e silenciosas daquela altura, como um brinquedo deixado na planície. Mas ele não via apenas pedra e argila. Via o clamor que em breve as derrubaria, o grito de vitória de um povo que finalmente chegava ao fim da jornada.

Um suspiro profundo, que parecia vir das profundezas de sua alma, saiu de seus lábios. Não era de amargura, mas de uma aceitação serena e solene. Lembrou-se das águas do Nilo, dos juncos, da filha de Faraó. Lembrou-se do deserto de Midiã, do fogo na sarça que ardia sem se consumir, da voz que ecoara da chama. “Tira as sandálias dos pés, porque o lugar onde estás é terra santa.” Todo o caminho desde então havia sido terra santa e árida, repleta de milagres e murmurações, de fidelidade divina e falhas humanas. A sua também.

Os dedos ossudos tocaram a pedra áspera onde se apoiava. Era real, sólida. A promessa diante de si era ainda mais sólida. O Senhor lhe dissera: “Esta é a terra que prometi sob juramento a Abraão, a Isaque e a Jacó. Eu a deixei ver com os seus olhos, mas você não atravessará para lá.” As palavras ecoavam dentro dele sem ferir. Havia uma estranha completude naquela despedida. Ele liderara, guiara, suplicara, e por um momento de ira ante a rocha, em Meribá, falhara em santificar o Santo no meio do povo. A consequência era clara, justa, e ele a abraçara. Não havia revolta no seu espírito, apenas um imenso, tranquilo entendimento.

Enquanto o sol começava a descer, pintando o céu com púrpura e ouro, sua visão pareceu se ampliar. Não era mais apenas a geografia que enxergava, mas o futuro. Viu tribos se estabelecendo nos vales férteis de Efraim e Manassés. Viu as colinas de Judá, onde pastores cantariam salmos ainda não escritos. Viu o mar Grande a oeste, cintilando ao longe. Era uma terra boa, terra de riachos e fontes, de trigo e cevada, de vinhas e figueiras. Terra que manava leite e mel. Um sorriso tênue, quase imperceptível, surgiu em seus lábios ressecados. Valera a pena. Toda a jornada, toda a luta, valera por aquele momento de vislumbre.

A força, então, começou a se retirar dele não como uma fuga, mas como uma maré que recua calmamente. Sentou-se na rocha, sem fragilidade, mas com a dignidade de um trabalho cumprido. O vento parecia sussurrar bênçãos antigas, as mesmas que ele pronunciara sobre as tribos. “Eterno é o seu refúgio, e para sempre estão os braços eternos por baixo…” A escuridão do vale subiu lentamente, mas no alto, onde ele estava, a luz do crepúsculo persistia, aureolando seus cabelos brancos.

Morreu ali, sozinho com Aquele que o conhecera face a face. Como um amigo é recolhido pelo sono após uma longa e árdua conversa, Moisés adormeceu. O Senhor mesmo o sepultou em um vale, na terra de Moabe, defronte de Bete-Peor. Até hoje ninguém sabe o lugar excreto da sua sepultura. Foi um ato de cuidado divino, para que aquele túmulo não se tornasse um santuário de idolatria, um lugar de peregrinação cega. Moisés pertencia à memória e ao coração do povo, não a um pedaço de terra que pudesse ser cultuado.

Embaixo, no acampamento, os israelitas choraram por Moisés por trinta dias. As lamentações encheram as planícies de Moabe. O pranto era genuíno, um som rouco e coletivo de orfandade. Josué, filho de Num, permanecia em silêncio, seu espírito já cheio da responsabilidade que lhe fora transferida. Mas não havia vazio de liderança. A unção estava sobre ele, e a promessa era a mesma. O povo lhe obedecia, mas sabiam que nunca mais se levantaria em Israel um profeta como Moisés, a quem o Senhor conhecera face a face, diante de quem operara tantos sinais e maravilhas, e com mão forte lhe entregara a lei.

A história seguiu seu curso. Josué atravessou o Jordão, e a terra foi conquistada. Mas sempre, nas narrativas ao redor das fogueiras, nas instruções dos anciãos, a figura de Moisés era evocada. Não como um fantasma, mas como uma presença fundadora. Sua lei era a coluna vertebral da nação, sua intercessão um paradigma de intimidade com Deus. E aquele último olhar, do alto do monte, sobre a terra da promessa, permaneceu como um testemunho silencioso: Deus é fiel. Mesmo quando os caminhos são longos e penosos, mesmo quando há consequências por nossos erros, Sua promessa não falha. Ela se cumpre, vista de perto ou de longe, nesta vida ou na que há de vir.

E o vento continua a soprar no monte Nebo, varrendo a poeira dos séculos, sobre um túmulo esquecido. Mas a memória daquele que ali repousou, mediador da antiga aliança, permanece viva. Não na pedra, mas no coração da fé que ele ajudou a plantar.

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