A memória do deserto é uma memória que se carrega no corpo. Não apenas na mente. São os pés calejados que lembram das pedras afiadas do ermo, os ombros que ainda curvam sob o peso invisível de anos errantes, e a garganta, ah, a garganta que nunca esquece o sabor do pó. Eu, Moisés, falo a vocês hoje não de um lugar de vitória fácil, mas da estrada empoeirada da obediência. Dos anos que se desfizeram como areia entre os dedos.
Lembrem-se de Cades-Barneia. O lugar do veredito. De onde partimos, finalmente, depois de uma geração inteira definhando naquela vastidão. A ordem do Senhor veio como um vento cortante, despertando-nos do nosso torpor: “Vocês já permaneceram tempo suficiente nestas montanhas. Virem-se para o norte.”
E viramos. O arraial que se desmontou naquele alvorecer tinha um som diferente. Não era o ruído de um povo fugindo, mas o gemido surdo de um povo sendo remoldado. As tendas, gastas pelo sol de trinta e oito anos, foram dobradas com uma mistura de alívio e de temor. Para onde iríamos? O norte. Mas o norte era uma ideia, não um mapa. E o Senhor começou a traçar, com palavras precisas, os limites que não devíamos cruzar.
“Vocês estão passando pelo território de seus irmãos, os descendentes de Esaú, que habitam em Seir”, Ele nos disse. E havia um cuidado profundo nessa instrução. Eles nos temeriam. É natural temer uma multidão que emerge do deserto, com histórias de pragas e de um mar aberto. Mas a ordem foi clara: “Não os provoquem. De vocês não comprarei nem um pé de terra sequer, porque Eu dei a Esaú a região montanhosa de Seir por herança.”
E assim marchamos. A borda leste de Seir é um lugar áspero, onde a terra parece se retorcer em rochas avermelhadas e cânions sombrios. Nós víamos, à distância, as fumaças das aldeias edomitas subindo no ar parado. E víamos também seus olhos, vigiando-nos do alto dos penhascos. Houve um silêncio tenso, pesado, durante aqueles dias de passagem. Nossos jovens, com a espada fácil na cintura, cochichavam. “Por que não tomamos? Estamos fortes.” Mas a palavra do Senhor era uma cerca ao nosso redor. Compramos deles comida com prata, água com prata. O tilintar das moedas era um som estranho no deserto, um som civilizado, um som de reconhecimento. Era Deus nos ensinando que a terra pertence a Ele, e Ele a distribui conforme seu propósito, não conforme nossa força.
Depois, o terreno mudou. A aridez deu lugar a uma planície vasta e melancólica, margeada por colinas baixas. A terra de Moabe. E novamente a voz: “Não perturbem os moabitas, nem os provoquem à guerra, porque não darei a vocês parte alguma da terra deles. Eu dei Ar aos descendentes de Ló por herança.”
E aqui, irmãos, a narrativa do Senhor se funde com uma memória mais antiga, quase lendária. Ele nos fez lembrar dos emins, um povo grande, numeroso e forte como os anaquins, que antes habitavam aquelas terras. Os moabitas os chamavam de emins, “os temíveis”. Mas foram desalojados. Por quem? Pelos filhos de Ló. Deus age nas eras, meus filhos. O que parece sólido e eterno para nós, é um capítulo na história que Ele escreve. E nós éramos apenas mais um povo em movimento, com um destino traçado por mãos que não são nossas.
A marcha continuou, monótona e cansativa. O sol era nosso companheiro constante e implacável. As sandálias se desfaziam. Mas havia uma nova consciência no ar. Cada passo para o norte era um passo para fora do castigo, um passo em direção à promessa. Até que alcançamos a fronteira dos amonitas. Outro povo irmão, por Ló. E o cerco protetor de Deus se fechou de novo: “Não os hostilizem nem os provoquem, porque não darei a vocês nenhuma posse da terra dos amonitas. Eu a dei por herança aos descendentes de Ló.”
E novamente, o Senhor pintou o passado para nós. A terra que os amonitas agora ocupavam também tinha gigantes outrora. Os zamzumins, um povo poderoso e numeroso, de estatura elevada. O Senhor os destruiu diante dos amonitas, que os expulsaram e se estabeleceram em seu lugar. Uma repetição de histórias. Era como se Deus estivesse dizendo: “Veem? Eu sou o Senhor das nações. O triunfo de um povo sobre outro não é obra do acaso ou do músculo apenas. É a minha permissão. E agora é a vez de vocês.”
Foi então que o tom da narrativa divina mudou. O caminho de contornar, de respeitar, de comprar, chegou ao fim. “Agora, levantem-se! Atravessem o ribeiro do Arnom.”
O Arnom. Não era mais uma fronteira de irmãos. Era um divisor de águas literal e espiritual. Do outro lado estava Seom, rei dos amorreus, de Hesbom. E sobre ele não havia nenhuma ordem de preservação, nenhum laço de parentesco, nenhuma herança divina reconhecida. A terra que ele ocupava era nossa porta de entrada. A terra que o Senhor nos daria.
Enviei emissários, como fizera com Edom. Palavras de paz, proposta de passagem pacífica, compra do que precisássemos. Mas Seom… Seom era um homem cujo coração o Senhor endurecera. A altivez dele brotava de uma vitória recente. Ele próprio havia tomado aquela terra dos moabitas, expulsando-os e ampliando seu reino. Sua resposta não foi apenas uma recusa; foi um exército. Todo o seu povo saiu ao nosso encontro, em Jahaz, com a fúria de quem acredita que sua força é o único deus.
E então, meus amigos, aconteceu. Depois de anos contornando, de décadas esperando, de uma geração inteira perecendo, o Senhor travou a nossa primeira batalha. “Vejam, Eu entreguei Seom, rei de Hesbom, o amorreu, e a sua terra em suas mãos. Comecem a ocupação! Conquistem o seu território!”
Não foi uma luta longa. Foi como um vendaval. O Senhor, o mesmo que nos ordenara delicadeza com Edom, Moabe e Amom, se revelou como um fogo consumidor contra Hesbom. De uma cidade orgulhosa, restou silêncio. De um exército confiante, restou memória. Tomamos todas as cidades, destruímos tudo que respirava, como ordenado. Só o gado e os despojos trouxemos para nós.
E agora, acampados nestas planícies de Moabe, olhando para o norte, entendemos. Os quarenta anos não foram um desvio. Foram um desenho. Um ensino lento e doloroso. Deus nos ensinou a obedecer ao “não” — não perturbem, não provoquem. Para que, quando viesse o “sim” — comecem a ocupação —, soubéssemos que a vitória não era do nosso braço, mas da nossa submissão. Ele nos guiou por um caminho estreito de respeito à herança alheia, para que, ao recebermos a nossa, soubéssemos que ela não veio de nós. Veio dEle.
A terra que pisamos agora, do Arnom até o Jaboque, era o primeiro fruto. Um sinal. E à nossa frente, do outro lado do Jordão, brilhava o resto da promessa. Mas isso… isso é uma história para amanhã. Por hoje, lembrem-se do pó de Seir, do prata paga pela água, do silêncio vigilante dos edomitas. Lembrem-se de que o Deus que dá a vitória é o mesmo que traça os limites. E a verdadeira conquista começa quando aprendemos a respeitar os limites que Ele estabelece.




