A pedra era fria contra meus joelhos. Não o frio úmido da cela em Éfeso, mas uma friagem antiga, mineral, que parecia subir do próprio coração da ilha. Patmos. O vento sibilava entre as fendas dos rochedos, trazendo o cheiro salgado do Egeu e um sabor de solidão que eu já conhecera bem. Era domingo. O *Dies Domini*. Mas ali, naquele ermo, o dia do Senhor parecia um eco distante de algo que já fora vibrante.
Rezei. Não com palavras elaboradas, mas com aquele murmúrio surdo do espírito esmagado. A memória do rosto do Mestre, já desbotada pelo tempo, lutava contra a imagem mais recente das faces endurecidas dos meus carcereiros. A perseguição não era mais uma ameaça; era o ar que Roma respirava. E eu, João, o último… o que sobrou… respirava a poeira de uma pedreira.
Foi então que ouvi por trás de mim uma voz.
Não uma voz qualquer. Era como se o som de todas as águas que já haviam corrido desde o Éden — os rios do paraíso, o dilúvio, o mar Vermelho aberto, o Jordão — se fundissem num único caudal sonoro. Uma voz que não feriu meus ouvidos, mas ressoou dentro do osso, dentro da medula. Era ao mesmo tempo um estrondo e uma claridade. Meu corpo inteiro se contraiu, um calafrio percorrendo-me a espinha como um relâmpago.
Virei-me, lento, cada movimento um esforço contra o pavor e a maravilha. E vi.
No meio de sete candeeiros de ouro, que não estavam fixos no chão mas pareciam flutuar como lírios de chama, estava Alguém.
A primeira impressão foi de uma forma humana, sim, mas transfigurada por uma glória que meu vocabulário falha em descrever. A túnica era longa, chegando aos pés, e o cinto ao redor do peito era de ouro puro, não como adorno, mas como a certeza de uma autoridade que sustenta o universo. Seus cabelos e Sua cabeça eram brancos. Não o branco da idade ou da neve, mas o branco ofuscante da lã tingida pura, o branco da luz incriada, tão intenso que doía os olhos. Era a antiga sabedoria de Deus, visível, a eternidade feita cabeleira.
Seus olhos… seus olhos eram como chama de fogo. Eles não piscavam. Viam. E ao ver, consumiam todo disfarce, toda mentira, toda sombra em minha alma. Era um olhar que atravessava séculos e penetrava o íntimo do coração, e sob ele eu me senti nu, frágil, desvendado por completo.
Os pés, reluzentes como bronze numa fornalha ardente, não tocavam exatamente o chão. Pairaram sobre um chão que agora parecia irrelevante, comum. E a Sua voz, aquela voz de muitas águas, agora saía com a força de uma espada afiada de dois gumes, cortando o ar, cortando o tempo, cortando até as minhas defesas mais íntimas.
Em Sua mão direita, segurava com naturalidade soberana sete estrelas. Não constelações distantes, mas sete pontos de luz viva, pulsantes, que pareciam bater em sintonia com um ritmo cósmico. E de Sua boca, sim, daquela boca de onde saía a espada da Palavra, eu juro que vi sair um clarão. Não uma espada física, mas o fio cortante da verdade absoluta, pronta para julgar, separar, anunciar.
Seu rosto… ah, Seu rosto. Brilhava como o sol na sua força máxima. Aquele sol de verão em Jerusalém, aquele que nos cegava no caminho de Emaús, multiplicado por mil. Era impossível fitar diretamente. Era uma claridade que aquece e queima, que revela e esconde. Era o rosto daquele que eu havia reclinado sobre durante a ceia. Era o rosto do carpinteiro de Nazaré. Era o rosto do Filho do Homem, agora investido de uma majestade que fazia tremer os fundamentos da ilha.
Eu caí. Não foi uma decisão. Meus joelhos, já dormentes da pedra, simplesmente se dobraram. Meu corpo se projetou para frente, como grão esmagado. Eu tombara como morto. Não havia medo comum em mim, mas um terror reverencial, aquele tipo de pavor que é o único reconhecimento adequado diante do Santo. A consciência da minha própria condição de criatura, pecadora, finita, desfez-me por completo diante d’Aquele que é o Princípio e o Fim.
Então, senti. Não um toque com peso, mas uma imposição. Foi Sua mão direita, aquela que segurava as estrelas, que pousou sobre meu ombro. E o contato não me vaporizou. Não me consumiu em fogo. Era firme, sólida, real. Uma mão que conhecia o trabalho da madeira, que tinha lavado meus pés, que fora cravada na cruz.
E a voz tornou a soar, mas agora com uma nuance que não notei antes. Por baixo do estrondo de águas caudalosas, havia um timbre familiar, uma cadência que falava diretamente à minha história.
“Não temas.”
As palavras entraram em mim como óleo numa ferida.
“Eu sou o Primeiro e o Último. E o que vive. Estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos. E tenho as chaves da morte e do Hades.”
A vida voltou a correr em meus membros. O coração, que parecera parado, despertou num ritmo forte e doloroso. Ergui o rosto, ainda não ousando levantar-me. A luz d’Ele agora não me cegava, mas me envolvia. Aqueceu os ossos gelados pela solidão de Patmos.
Então, Ele ordenou. “Escreve.” A palavra era uma comissão, um peso, um privilégio. “O que viste, o que é, e o que há de acontecer depois destas coisas.”
E Ele me explicou, com uma paciência que era filha da onisciência. O mistério das sete estrelas e dos sete candeeiros de ouro. As estrelas, anjos das sete comunidades. Os candeeiros, as próprias igrejas. E Ele, no meio delas. Caminhando. Vigilante. Conhecedor. Aquele cujos olhos são chama de fogo e cujos pés são de bronze incandescente.
A visão começou a se desfazer, ou melhor, a se recompor em meu entendimento. A glória não partiu, mas se recolheu em uma promessa. A voz das muitas águas ainda ecoava em meus ouvidos internos quando me vi novamente sozinho na gruta.
A escuridão voltou. Mas era uma escuridão diferente. Já não era o vazio do exílio. Era a sombra que faz contraste com a luz que se viu. Meus dedos, trêmulos, buscaram o estilo e os papiros. A pedra ainda era fria. O vento ainda uivava. Mas alguma coisa em mim, algo que tinha estado adormecido e amedrontado, estava agora desperto, ardente.
E eu escrevi. Comecei a escrever naquela mesma hora, com a mão que ainda tremia pelo toque d’Aquele que segura as estrelas. “Eu, João, vosso irmão e companheiro na tribulação… achei-me na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus. Em espírito, no dia do Senhor…”
E as palavras, agora, não eram mais minhas. Eram um rio. Eram um estrondo. Eram uma espada afiada. Eram, eu sabia, a primeira página do fim de todas as coisas.




