O sol da manhã ainda não havia queimado a cerração que pairava sobre o vale, mas o Portão Leste do Templo já rangia sobre seus gonzos de bronze, aberto apenas para aquele dia. A cidade, aos pés do monte, ainda respirava o sono profundo, mas aqui, no alto, o ar era límpido e cortante. Eliabe, um levita já com os cabelos entremeados de fios brancos como a própria neblina, apoiou-se na pá que usara para revolver as cinzas do altar do dia anterior. Seus olhos, acostumados a décadas de fumaça sagrada e brasas, fixaram-se na figura solitária que subia a rampa leste.
Era o Príncipe. Não vinha com pompa militar, nem com o burburho de cortesãos. Vestia um manto simples de linho, e seus passos eram medidos, quase graves. Dois sacerdotes, mais jovens, postaram-se silenciosamente ao lado de Eliabe. Um deles, Josias, respirou fundo, controlando o tremor nas mãos. Era seu primeiro dia de serviço no sacrifício mensal.
O Portão, eles sabiam, só se abria nos sábados e nas luas novas. E apenas para ele, o Príncipe. O povo se congregaria nos átrios laterais, adorando e observando, mas aquele corredor de pedra polida, banhado pela luz rasante da aurora, era um caminho reservado. O Príncipe parou sob o pórtico, de frente para o santuário interior. Seu semblante era sóbrio, mas não ausente; havia uma atenção plena em seus olhos, como se cada pedra, cada sombra do pátio, lhe falasse.
Eliabe sussurrou para Josias, a voz rouca pelo anos: “Vê? Ele oferecerá um novilho sem defeito. Ele próprio o trará.” E era verdade. O animal, de pelagem bruna e olhos tranquilos, seguia manso, conduzido por um servo do Príncipe até a soleira. Ali, o servo recuou. O Príncipe pôs as mãos sobre a cabeça do novilho, num gesto que era ao mesmo vez posse e transferência, um peso silencioso sendo assumido. Depois, passou o animal aos cuidados dos sacerdotes.
O ritual se desenrolou com a solenidade de um movimento celestial. O novilho, azeite e flor de farinha. A fumaça começou a subir, não como uma nuvem espessa, mas em finas espirais azuladas que se dissolviam no ar da manhã. O cheiro era diferente de qualquer outro — doce, penetrante, uma promessa de reconciliação que quase se podia tocar. Enquanto os sacerdotes cuidavam das porções sobre o altar — o novilho queimado completamente para o Senhor — o Príncipe permanecia de pé, observando. Não como um espectador, mas como um participante fundamental, a pedra angular visível daquele culto.
Josias, executando suas tarefas com mãos que aos poucos perdiam o tremor, notou um detalhe. O Príncipe não se virava para sair pelo mesmo portão. Após a oferta, ele atravessou o pátio interno e, por uma porta lateral, saiu para o átrio exterior. O Portão Leste foi fechado com um baque surdo que ecoou entre as colunas, e só seria reaberto no próximo dia designado. Havia uma lição naquilo, pensou Josias. Acesso, mas não familiaridade. Presença, mas preservação do Santo.
Mais tarde, já com o sol alto, veio a oferta diária. O cordeiro de um ano, sem mácula. Era um ritual mais simples, quase íntimo, mas realizado com a mesma precisão reverente. Eliabe, agora ajudando a dispor os pães sobre a mesa sagrada, via as sombras das nuvens passarem sobre o pátio de mármore. Tudo ali — os sacrifícios, os pães, as estações — falava de um ritmo dado por Deus. Um ritmo que não era escravidão, mas moldura para a liberdade. O Príncipe oferecia por si e pelo povo, mas também abria espaço, nos dias festivos, para ofertas voluntárias. A lei e a graça, entrelaçadas como as filigranas nas portas do Lugar Santíssimo.
Ao fim do dia, com o altar resfriado e o pátio lavado, Eliabe sentou-se num degrau de pedra, exausto mas em paz. Josias aproximou-se, ainda com o brilho do assombro nos olhos.
“Mestre Eliabe”, perguntou, hesitante. “Tudo é tão exato. A medida da oferta, a hora, o portão… Não é… rígido demais?”
O velho levita olhou para o céu que começava a cintilar com as primeiras estrelas. Lembrou-se de anos de exílio, de um povo disperso, sem altar, sem centro. Lembrou-se da profanação do templo antigo, quando cada um fazia o que parecia certo aos próprios olhos.
“Não, filho”, disse, a voz suave. “É um desenho. Como os braços de um pai que mostram onde é seguro ficar. O Príncipe entra pelo portão certo, na hora certa, com a oferta certa. E nós, aprendemos a segui-lo. Nesta exatidão há um espaço imenso. É o espaço da herança que ele recebeu e que nunca explorará, o espaço onde tu e tua família podeis viver em segurança. A lei do Santuário é a cerca que protege o jardim.”
Josias ficou em silêncio, contemplando as vastas dimensões do átrio exterior, onde o povo comum, incluindo sua própria família, poderia se reunir. Tudo estava interligado. O ato preciso do Príncipe no Portão Leste ecoava em cada lar, garantindo os limites da herança, evitando a opressão. A oblação santa sustentava a justiça cotidiana.
E quando a última luz do dia desapareceu atrás dos montes de Judá, o Templo não parecia um mausoléu de regras, mas uma cidadezinha adormecida, protegida. Cada pedra, cada altar, cada porta fechada, sussurrava a mesma verdade: o caminho para o Santo está aberto. Está marcado. E há um Príncipe que o percorre por nós, trazendo em seus passos medidos o cheiro doce da restauração, uma oferta que, no fim das contas, sara até as divisões mais profundas da terra.
Eliabe ergueu-se, os ossos rangendo. Amanhã não seria dia de portão aberto. Mas o cordeiro da manhã seria oferecido, e a ordem, que era outra face da misericórdia, continuaria. Era suficiente. Mais do que suficiente. Era o desenho do próprio coração de Deus, gravado em pedra, fogo e sombra, esperando o dia em que se tornaria carne e habitaria entre eles.



