Bíblia em Contos

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Bíblia

Ídolos no Coração

O sol da Mesopotâmia não era como o de Judá. Era um peso pesado e opressivo, uma lâmina de bronze incandescente caindo sobre as margens do rio Quebar. A poeira, fina e pálida, subia com o menor movimento e grudava na pele, misturando-se ao suor, lembrando-nos a cada instante de que estávamos longe da terra das colinas verdejantes e dos vales úmidos. Ali, naquela Babilônia estridente e cheia de deuses estranhos, éramos um povo desterrado, carregando no peito uma ferida aberta chamada saudade.

Naquele dia, como em muitos outros, sentei-me à sombra escassa de uma palmeira raquítica perto de minha casa de tijolos de barro. O ar pesava, carregado do cheiro de óleo de gergelim queimado e do distante murmúrio do rio. Meus olhos, porém, não viam o acampamento dos exilados; viam, em visões perturbadoras, os átrios do templo profanado e ouvia, em meio ao silêncio do desterro, o rugido do Senhor.

Foi então que os vi se aproximando. Eranias, filho de Azur, e Jaazanias, filho de Azalias, homens de respeito entre os exilados, líderes que mantinham um frágil verniz de ordem sobre nossa comunidade despedaçada. Seus rostos estavam sérios, compostos na expressão solene de quem busca uma palavra do profeta. Vestiam túnicas que, embora simples, eram mais bem cortadas que as dos demais, e em seus passos havia uma dignidade estudada. Aproximaram-se e ficaram de pé diante de mim, esperando. O pó dourado assentou sobre suas sandálias.

Mas antes que pudessem abrir a boca, uma comoção tomou conta do meu espírito. Não foi uma voz audível aos ouvidos da carne, mas uma pressão esmagadora no íntimo do meu ser, uma revelação que rasgou o véu das aparências. O Senhor pôs diante de meus olhos o que havia no profundo de seus corações. E não era o arrependimento, não era a busca sincera pelo Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Era uma floresta de ídolos.

Vi, como se olhasse para dentro de seus peitos, imagens toscas de madeira e pedra, não fisicamente, mas como sombras assentadas nos tronos de suas almas. Vi o deus Marduque, com sua coroa cilíndrica, ocupando o lugar da devoção. Vi os ídolos familiares, os deuses-lar, as superstições mescladas como ervas venenosas à fé que professavam. Eles haviam erguido altares secretos em suas casas, em seus pensamentos mais íntimos. A idolatria não era um ato isolado; eram raízes negras, profundas, que envenenavam toda a árvore de suas vidas. E agora vinham à minha presença, como se viessem consultar o Eterno, enquanto esses ídolos permaneciam plantados entre Mim e eles.

A palavra do Senhor veio a mim então, uma corrente de fogo e ferro no meu espírito.

“Filho do homem”, ecoou dentro de mim, “estes homens levantaram os seus ídolos no coração e puseram o tropeço da sua maldade diante da sua face. Devo eu, de alguma forma, deixar-me consultar por eles?”

O peso daquela pergunta divina me esmagou. A hipocrisia deles não era um segredo para Aquele que sonda rins e corações. Eles criaram uma barreira, um “tropeço” de sua própria iniqüidade. Uma parede invisível, mas mais sólida que os muros da Babilônia, separava-os do Santo de Israel.

Então, a voz interior continuou, clara e terrível em seu significado:

“Portanto, fala-lhes e dize-lhes: Assim diz o Senhor Deus: Qualquer homem da casa de Israel que levantar os seus ídolos no coração, e puser o tropeço da sua maldade diante do seu rosto, e vier ao profeta, eu, o Senhor, responderei a ele que vem, segundo a multidão dos seus ídolos.”

A resposta não seria de acordo com a pergunta dissimulada, mas de acordo com a realidade abominável que carregavam. Deus se manifestaria através do juízo correspondente à sua idolatria. Era uma lei espiritual tão inexorável quanto a da colheita e da semeadura.

E o propósito era claro, devastadoramente claro: “Para que eu possa apanhar a casa de Israel no seu próprio coração, porquanto todos se apartaram de mim por causa dos seus ídolos.”

Aquela consulta hipócrita seria o próprio mecanismo de seu julgamento. Deus usaria sua vinda, sua falsa piedade, para confrontá-los com a verdade de seus corações desviados. Era uma armadilha divina para a hipocrisia.

A instrução então se dirigiu a mim, pessoalmente, com uma severidade que me fez trever:

“Portanto, dize à casa de Israel: Assim diz o Senhor Deus: Convertei-vos, e desviai-vos dos vossos ídolos, e desviai os vossos rostos de todas as vossas abominações.”

Era um último chamado, um último fio de misericórdia estendido sobre o abismo do juízo. O arrependimento verdadeiro, a renúncia interior aos ídolos do coração, era a única escapatória.

A voz não parou ali. Seguiu-se um pronunciamento solene que gelou o sangue nas veias, mesmo sob o sol mesopotâmico. Era uma sentença universal, aplicável a qualquer pessoa, profeta ou leigo, que praticasse a idolatria no coração e ainda assim se atrevesse a buscar uma palavra divina.

“Porque, se qualquer homem… levantar os seus ídolos no seu coração… e vier ao profeta para me consultar por seu intermédio, eu, o Senhor, responderei a ele por mim mesmo. E porei o meu rosto contra aquele homem, e farei dele um sinal e um provérbio, e eliminá-lo-ei do meio do meu povo; e sabereis que eu sou o Senhor.”

As palavras ecoavam: “Porei o meu rosto contra aquele homem.” Não a face da graça, mas o rosto voltado em ira santa. Ser transformado em um “sinal e um provérbio” – uma história de advertência, um nome sinônimo de ruína, como os rebeldes de outrora. A eliminação do meio do povo. Era o *cherem*, o banimento total, a separação final.

E, como se a mensagem não pudesse ser mais grave, o Senhor acrescentou um aviso aos próprios profetas que poderiam ser tentados a dar uma resposta fácil, condescendente, para agradar tais consulentes. Se um profeta, seduzido ou enganado, desse uma resposta a um idólatra do coração, era porque o próprio Senhor o havia enganado – um ato de juízo divino – e estenderia sua mão para destruir tanto o profeta falso quanto o inquiridor hipórita. Ambos carregariam a pena de sua iniqüidade.

O silêncio que se seguiu à retirada da pressão divina foi quase tangível. Olhei para os homens à minha frente. Eranias e Jaazanias ainda estavam ali, suas faces expectantes, talvez um pouco impacientes pela minha demora. Eles viam um homem sentado, suando sob o sol, talvez parecendo hesitante. Não viam o turbilhão da visão, não sentiam o peso da palavra recebida.

Respirei fundo, o ar quente queimando meus pulmões. A mensagem não era minha. Era Dele. E era como entregar uma sentença de morte escrita em fogo.

“Ouvi a palavra do Senhor,” comecei, e minha voz soou rouca, estranha aos meus próprios ouvidos. E então, vertendo em palavras humanas o fogo divino, expus diante deles o que havia em seus corações. Falei dos ídolos erguidos nas câmaras secretas da alma. Falei do tropeço que eles mesmos criaram. Falei que o Senhor responderia não à pergunta de seus lábios, mas à multidão de seus ídolos. Falei do rosto do Senhor voltado contra o hipócrita, da transformação em um provérbio de horror, da eliminação.

Não usei rodeios. Não suavizei. A palavra era como um machado posto à raiz da árvore.

Vi a composição em seus rostos se desfazer. A dignidade deu lugar a um pálido espanto, que rapidamente se converteu em indignação contida e, por fim, em um temor profundo e incômodo. Eles não esperavam por isso. Esperavam por uma palavra de consolo, talvez uma promessa de breve retorno, uma orientação política. Receberam um espelho que lhes mostrava a podridão de sua própria devoção.

Quando terminei, não houve perguntas. Não houve discussão. Eles se viraram e se afastaram, seus passos agora mais lentos, pesados, como se carregassem a sentença que lhes fora anunciada. O pó que levantaram ao partir assentou-se devagar, misturando-se novamente ao ar pesado do exílio.

Fiquei ali, sob a palmeira, exausto. A visão do juízo se estendia além daqueles homens. O Senhor me mostrou que se quatro grandes juízos – espada, fome, feras e peste – fossem enviados sobre uma terra por causa de sua idolatria, e nela houvesse três homens justos, como Noé, Daniel e Jó, estes pela sua justiça salvariam apenas suas próprias vidas. Nem mesmo a presença de tais colunas da fé seria suficiente para deter a avalanche do juízo merecido por uma nação que ergueu ídolos no coração.

A mensagem era de uma solitariedade terrível da justiça. Cada coração seria julgado por seus próprios ídolos. Nem a justiça do pai salvaria o filho idólatra, nem a do filho salvaria o pai. Apenas suas próprias almas seriam poupadas.

Olhei ao redor, para o acampamento dos exilados. Quantos altares secretos haviam sido construídos ali, no coração do povo, enquanto eles lamentavam a perda do templo físico em Jerusalém? A idolatria do coração era um exílio mais profundo e perigoso do que a deportação para a Babilônia.

O sol começava a declinar, lançando sombras longas e distorcidas. A palavra tinha sido dada. Era um chamado ao arrependimento mais íntimo, mais radical: o desmonte dos altares interiores. E também era um aviso solene: Deus não é manipulado. Ele vê o que está plantado no solo secreto do coração. E responde de acordo.

O silêncio que ficou não era mais apenas o silêncio do calor da tarde. Era o silêncio pesado que segue uma verdade dura e necessária, ecoando no ar, esperando por uma resposta que só poderia vir do mais profundo de cada alma.

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