Bíblia em Contos

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Bíblia

O Chamado nas Águas do Exílio

O sol da Babilônia era um disco de bronze fundido no céu, implacável. Não queimava como o sol de Judá, que acariciava as colinas de oliveiras e aquecia as pedras brancas de Jerusalém de um modo quase familiar. Este aqui era diferente. Um calor que pesava sobre os ombros, que fazia o ar tremer sobre os tijolos do dique do Eufrates, onde eu, Eliazar, estava sentado, com os pés descalços enterrados na lama fresca da margem. O rio, largo e indiferente, seguia seu curso, carregando barcos de junco e os detritos de um império.

Meus dedos, nodosos e manchados pelo tempo, traçavam círculos na água barrenta. Cinquenta anos. Cinquenta anos de sombra de palmeiras que não eram nossas, do cheiro de especiarias estrangeiras no mercado, do som áspero da língua caldeia que, contra toda vontade, tinha se tornado a língua dos meus sonhos. A saudade era uma pedra no peito, mais pesada a cada ano que passava. Lembro-me do dia em que os soldados vieram, do brilho cruel do bronze de suas armaduras sob o sol que, naquele dia, também parecia babilônico. Minha mulher, Raquel, segurando nosso filho pequeno, Ezequiel, com os olhos arregalados de terror. Agora, Raquel jazia num túmulo estrangeiro, e Ezequiel, um homem feito, falava mais de contratos de comércio do que da Torá.

Um suspiro saiu do meu peito, misturando-se ao zumbido dos insetos à beira do rio. Era fácil sentir-se… descartado. Um vaso quebrado, cujos cacos foram varridos para um canto distante do mundo. Onde estava, afinal, o Deus dos nossos pais? O Deus que fizera uma aliança com Abraão, que lutara por Jacó, que libertara Israel do Egito com mão forte e braço estendido? Parecia-nos agora um eco distante, uma história que contávamos às crianças para adormecer, mas que nós mesmos já não acreditávamos plenamente. Éramos fantamas, espectros de um povo que um dia existira.

Foi então que ouvi. Não uma voz audível, mas algo no silêncio entre os sons do rio. Algo como o sussurro do vento no deserto antes da chuva. E dentro de mim, um fragmento de palavras antigas, ensinadas por meu pai, veio à tona, como um tronco subindo à superfície de águas profundas. Palavras do profeta Isaías. Palavras que, naquele momento, deixaram de ser tinta em pergaminho e se tornaram carne e espírito.

“*Cale-se diante de mim, ó terras do mar! Renovem as forças os povos… Que se aproximem e então falem; vamos entrar juntos em juízo.*”

Um calafrio percorreu minha espinha, apesar do calor. Não eram palavras de consolo branda. Era um desafio. Um chamado ao tribunal cósmico. E no meu ouvido interno, a voz continuava, suave agora, mas inextinguível como a corrente do rio à minha frente:

“*Mas tu, Israel, servo meu, tu, Jacó, a quem escolhi, descendente de Abraão, meu amigo, tu a quem tomei desde os confins da terra, e chamei dos seus cantos mais remotos, e te disse: Tu és o meu servo, eu te escolhi e não te rejeitei…*”

Servo. A palavra ecoou. Não “esquecido”, não “abandonado”. *Servo*. Escolhido. Amigo de Abraão. Lágrimas quentes misturaram-se ao suor em meu rosto. Como pode? Olhei para minhas mãos calejadas, para as roupas simples e surradas. Um servo cativo, humilhado. E, no entanto, a voz não falava do nosso poder, mas da Sua escolha. Da promessa que era anterior a Babilônia, anterior a Nabucodonosor, anterior a tudo.

A revelação veio como um golpe de luz. Não era sobre o nosso mérito, mas sobre a Sua fidelidade. Ele nos tirou dos confins, sim, do pequeno pedaço de terra entre as nações que era Canaã. E aquele “não temas”, que se repetia como um refrão sagrado, não era uma negação da nossa dor, mas uma declaração de guerra contra o medo que nos paralisava.

“*Porque eu sou o SENHOR, o teu Deus, que te toma pela tua mão direita e te diz: Não temas; eu te ajudo. Não temas, ó vermezinho de Jacó, pobres mortais de Israel… Eis que farei de ti um andor novo, de lâminas duplas e afiadas…*”

Vermezinho. A imagem era perfeita. Frágeis, insignificantes aos olhos dos impérios. Mas Ele não nos via com os olhos da Babilônia. Ele via o instrumento que poderia forjar. Um instrumento de justiça, não de vingança cega. Um andor para debulhar, para separar o joio do trigo da história. Minha visão se turvou, não de tristeza, mas de um entendimento avassalador. Todo o nosso sofrimento, o desterro, a angústia… não era um fim. Era parte de um movimento maior, um processo de purificação. Ele estava conosco *no* exílio, não apenas prometendo um fim a ele.

Olhei novamente para o Eufrates. Suas águas já não pareciam tão estranhas. O mesmo Deus que governava os rios de Judá governava este. A promessa não estava ancorada numa geografia, mas numa pessoa. *Nele*. A esperança, então, não era uma nostalgia passiva, mas uma força viva. O “não temas” era um chamado à ação, à confiança no meio do caos.

Levantei-me, os músculos doloridos, a lama secando em meus pés e pernas. O sol começava sua descida, pintando o céu com tons de púrpura e ouro, cores que lembravam o véu do Santo dos Santos. Uma paz estranha, sólida como a pedra fundamental do Templo, assentou-se em meu espírito. A idolatria babilônica, os ídolos de ouro e prata que precisavam ser carregados e pregados para não cair – como o profeta dizia – pareciam agora o que sempre foram: fraude e vento. Nosso Deus não caía. Nosso Deus segurava.

Ao caminhar de volta para a humilde casa de tijolos de barro no quarteirão judaico, senti o peso da pedra da saudade se desfazer. No seu lugar, havia uma leveza solene, uma certeza silenciosa. A redenção não seria um simples retorno. Seria um renascimento. E nós, o “vermezinho de Jacó”, seríamos parte disso. Talvez meu filho Ezequiel, com seu conhecimento do mundo babilônico, tivesse um papel. Talvez eu, com minhas memórias de Sião, tivesse outro.

Entrei em casa. Ezequiel estava chegando do mercado, com ar cansado. Antes que ele pudesse falar de preços de cereais ou impostos, eu o olhei nos olhos e disse, com uma calma que o surpreendeu:

— Traz o rolo de Isaías. Vamos ler. Há uma palavra para nós. Hoje.

E na lamparina de óleo que tremulava, começando a vencer as sombras do crepúsculo babilônico, eu vi não apenas uma chama, mas um reflexo daquela que um dia, prometia a voz suave e forte, iluminaria toda a terra.

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