O sol da tarde derramava um suor dourado sobre as ruas de terra batida de Canaã do Sul, um vilarejo que parecia ter sido esquecido pelo tempo e pelo asfalto. O calor abafado trazia consigo o cheiro de poeira, mato seco e, para aqueles que se aproximavam da praça central, o aroma amargo das discussões. Era ali, à sombra rasgada de um jatobá centenário, que os homens do lugar se reuniam para destrinchar a vida, os negócios e, sobretudo, os problemas do próximo.
Nesse dia, o assunto era Severino. Severino do Carmo, um homem de olhos profundos e mãos calejadas, cuja carpintaria ficava na esquina mais silenciosa da rua do Rosário. Ele era diferente. Enquanto a seca teimava em castigar a região e a cobiça por um pedaço de terra ou por um desconto no armazém parecia cegar a todos, Severino mantinha uma quietude que irritava alguns e intrigava outros. Trabalhava meticulosamente na madeira, recusava-se a sonegar os impostos sobre seu modesto lucro, e era conhecido por devolver troco a mais, mesmo que fosse um único centavo. “Burro”, murmuravam alguns. “Santarrão”, cuspia Otávio, o dono do maior armazém da vila.
Otávio era o oposto exato. Seu sucesso era visível na barriga que avançava sobre o cinto, no relógio de pulso que brilhava ostensivo, e na casa de reboco fino que dominava a colina. Seu armazém vendia de tudo, do feijão ao conserto de telhados, e ninguém sabia ao certo como suas contas fechavam tão redondas. Fechava acordos por debaixo dos panos com o prefeito, subornava o fiscal sanitário com uma garrafa de cachaça e um sorriso largo, e era mestre em esconder a real medida dos sacos de milho. A pobreza, para ele, era uma falha de caráter, uma prova de preguiça ou de estupidez. E a riqueza? A riqueza era um sinal de inteligência superior, uma bênção que ele acreditava ter conquistado sozinho.
Naquele ano, porém, algo mudou. A seca, mais cruel do que em outras estações, apertou o pescoço de Canaã do Sul. Os córregos viraram sulcos poeirentos, as plantações mirraram antes mesmo de florir, e um silêncio pesado, carregado de desespero, pairou sobre o lugar. No armazém de Otávio, os preços subiam como fumaça. Ele estocara grãos no ano anterior, prevendo a seca com a frieza de um general. Agora, vendia a preço de ouro. As famílias vendiam suas poucas possessões – uma cadeira, um rádio antigo, a prataria da avó – para comprar comida. Otávio via aquilo com um misto de desdém e satisfação. Ele estava enriquecendo em meio à desgraça alheia, e cada nota que entrava em seu cofre parecia sussurrar que ele estava certo, que a lei era para os fracos.
Severino, por sua vez, via sua pequena oficina ficar vazia. Quem tinha dinheiro para um conserto, uma cadeira nova? Mas ele não parou. Começou a fazer pequenos bancos, gamelas, cabos de enxada, e trocava por um pacote de farinha, por um pouco de feijão que uma velha senhora guardara, ou simplesmente dava, sem nada pedir em troca. Sua dispensa, nunca farta, definhava rapidamente. Certa noite, sentado à porta de sua casa de taipa, olhando para as estrelas implacavelmente límpidas no céu seco, ele sentiu o medo. Era um frio na boca do estômago. Ele orou, não com palavras rebuscadas, mas com o suspiro fundo de quem não entende, mas confia. “Senhor, tu és meu pastor. Nada me faltará. Nem mesmo nesta hora.” A promessa, feita a si mesmo, era um fio tênue no escuro.
O contraste entre os dois homens tornou-se uma parábola viva, andando pelas ruas. Os filhos de Otávio, vestidos com roupas da capital, riam alto e desdenhavam das outras crianças. O próprio Otávio, ao passar pela praça, enchia o peito, sua arrogância tão visível quanto seu relógio. Até que uma segunda calamidade chegou, silenciosa e burocrática: um auditor fiscal da capital, um homem magro e de olhos de águia, desceu do ônibus poeirento. Alguém, anonimamente, denunciara as práticas de Otávio.
Os dias que se seguiram foram de puro terror para o comerciante. O auditor não se impressionou com os sorrisos, nem se embriagou com as garrafas oferecidas. Revirou livros caixa, examinou notas fiscais amareladas, conversou com fornecedores assustados. A casa de cartas de Otávio começou a desmoronar. Multas astronômicas foram aplicadas. As dívidas ocultas vieram à tona. Para pagar ao fisco e evitar a prisão, ele teve de vender o armazém, a casa da colina, o carro, o relógio. Em poucas semanas, a riqueza que parecia uma montanha revelou-se um castelo de areia, derretido pela primeira onda da verdade.
Otávio, que nunca conhecera a humilhação, tornou-se um fantasma. Andava pelas ruas de cabeça baixa, evitando os olhos que agora o fitavam não mais com inveja, mas com um misto de pena e de justiça tardia. Uma noite, faminto e sem rumo, ele se viu diante da pequena oficina de Severino. A luz de um lampião ainda tremeluzia lá dentro. Ele bateu na porta, não por orgulho, mas por um instinto desesperado de sobrevivência.
Severino abriu a porta. Não havia triunfo em seu rosto, apenas uma cansada surpresa. “Entra, Otávio”, disse, simplesmente. Dentro, o cheiro de madeira serrada e cola era acolhedor. Havia um pão duro sobre a bancada e uma garrafa de água. Otávio, quebrado, contou-lhe fragmentos de sua desgraça. Severino ouviu em silêncio. Em vez de um sermão, ofereceu-lhe metade do pão. “A fome é uma professora cruel”, disse, calmamente. “Ela nos lembra que somos todos feitos do mesmo barro.”
Enquanto isso, um movimento lento, quase imperceptível, começou a acontecer em volta de Severino. As pessoas que ele ajudara no silêncio, com um banco ou uma gamela, lembravam-se. Um jovem que ele ensinara a entalhar trouxe-lhe um saco de mandioca. A velha senhora, cuja única galinha ele curara, começou a deixar-lhe um ouro ou dois ovos na soleira da porta. Não era riqueza. Era subsistência, um fio de gratidão que tecia uma rede frágil, mas real, sob seus pés. A oficina, lentamente, voltou a receber encomendas pequenas. A confiança que ele nunca vendeu tornou-se seu capital mais valioso.
Certa manhã, após as primeiras chuvas tímidas terem lavado a poeira do ar, os homens se reuniram novamente sob o jatobá. Otávio não estava mais entre eles. Severino passou por ali, a caminho de consertar uma porta na escola. Um dos homens mais velhos, vendo sua passagem tranquila, balançou a cabeça e murmurou para o colega ao lado, como se resumisse uma longa e dolorosa história: “O homem que se mantém íntegro, mesmo quando tudo vai mal… é como se caminhasse sobre rocha. Já o que enriquece rápido e por meios tortos… bem, aquele acaba descobrindo que construiu sua casa sobre a areia movediça do próprio orgulho. No fim, a justiça tem um ritmo próprio. Lenta, às vezes. Mas inexorável como as estações.”
A história não terminou com um banquete para Severino ou com a morte de Otávio. A vida seguiu, áspera e complexa. Otávio, humilhado, começou a trabalhar como ajudante de pedreiro, aprendendo a dureza do suor honesto. Severino continuou sua carpintaria, sua fé não um escudo contra a dificuldade, mas uma luz que a atravessava. E Canaã do Sul aprendeu, não através de um discurso, mas através da vida crua de dois de seus filhos, que a verdadeira prosperidade não brilha como ouro, mas tem a resistência quieta da madeira bem curada, e que o temor ao Senhor – aquele respeito profundo que afasta a maldade – era, no fim das contas, a única sabedoria que não desmorona quando a tempestade vem. E as tempestades, todos sabiam, sempre voltam.



