Era fim de tarde no pequeno porto, e o ar carregado do cheiro de peixe salgado e maresia misturava-se ao pó das ruas de terra batida. Abner encostou-se ao velho muro de pedra, os ossos doendo com um cansaço que ia além do físico. Seus olhos, marcados pelas incontáveis linhas de uma vida ao sol, seguiam absortos o vaivém dos barcos. Homens descarregavam a última pesca do dia, suas vozes ásperas ecoando ordens e brincadeiras. Mais adiante, perto da praia, ele via a silhueta magra do pescador Jair, carregando nos braços seu filho mais novo, que tossia de um modo fraco e preocupante. A esposa de Jair, Marta, caminhava ao lado, os ombros curvados sob um peso invisível.
Ele próprio conhecia aquele peso. Aos setenta anos, Abner tinha visto governadores e oficiais romanos chegarem cheios de promessas, erguendo estátuas e cobrando impostos, para depois desaparecerem, seja por uma transferência, uma doença ou simplesmente pelo esquecimento. Seus planos, tão grandiosos no início, desfaziam-se como a espuma na beira do mar. O atual procurador era um homem de fala mansa e olhos duros, que mandara ampliar o cais para “progresso”, sem se importar com as famílias desalojadas à força. Seu ajudante, um coletor de impostos local chamado Eli, enriquecera às custas dos outros, mas na semana passada fora encontrado morto em sua casa, vítima de uma febre repentina. Seus tesouros não puderam comprar um só dia a mais. Tudo era vaidade, um sopro que se esvaía.
Um vento súbito vindo do mar trouxe um frescor, e ergueu uma nuvem de poeira dourada pela luz do poente. Abner fechou os olhos por um momento, e um fragmento antigo, decorado na infância, veio aos seus lábios quase sem querer: *Não confieis em príncipes, nem em filho de homem, em quem não há salvação.* A frase ecoou dentro dele, não como uma reprimenda, mas como uma verdade profunda e serena. Respirou fundo.
Quando abriu os olhos, seu olhar não estava mais nos barcos ou nas construções dos poderosos. Estava no rosto de Ana, a viúva que morava perto do forno comunitário. Dia após dia, ela assava pães para outros, e sempre, sem falar muito, deixava um pão ainda quente na soleira da porta de Abner. Ele a viu agora, com suas mãos calejadas e rápidas, separando farinha. O SENHOR, pensou Abner com uma convicção que aquecia seu peito, é quem mantém a fidelidade para sempre. Ele não era como os homens. Sua aliança não expirava. Seu cuidado não dependia de humores ou interesses.
Seus passos, lentos, levaram-no para longe do cais, subindo a trilha estreita que levava ao alto da colina. De lá, se via o mar infinito e, ao longe, as luzes começando a acender na vila. Ele sentou-se em uma pedra lisa, usada por gerações como lugar de descanso. A noite caía, e as primeiras estrelas furaram o veludo escuro do céu. E então, como se estivesse ouvindo uma canção antiga e querida, o restante do cântico desdobrou-se em seu coração, não como versos isolados, mas como uma sinfonia de atos visíveis.
Lá estava Jair, o pescador, cujo filho definhava. O SENHOR é quem faz justiça aos oprimidos. Não uma justiça de tribunais romanos, mas uma justiça que vinha no sustento diário, na rede que, contra todas as expectativas, enchia-se mesmo em maré ruim, permitindo que ele comprasse o unguento caro para a criança. Ali estava o órfão Tiago, que trabalhava na olaria de Jonas. O homem, velho e rabugento, não era terno, mas dera um teto e ofício ao menino. O SENHOR… sustenta o órfão e a viúva. De modo torto, humano, mas real.
Abner olhou para o céu. O mesmo Deus que contava o número das estrelas, dando a cada uma o seu nome, era o Deus que via Ana, a viúwa. Ele inclinava-se sobre a humanidade ferida. Mas o caminho dos ímpios, daqueles como o coletor Eli, que confiavam apenas em sua própria astúcia, Ele o desfaria. Torceria como um emaranhado de cordas podres. Essa era uma justiça maior, que operava no tempo certo, não no tempo ansioso dos homens.
Um sorriso tranquilo, raro, apareceu no rosto enrugado de Abner. A verdade não era uma abstração. Ela se manifestava no pão de cada dia, no sopro nos pulmões doentios do filho de Jair – que, ele soubera pela manhã, mostrava ligeira melhora –, no direito do estrangeiro como Lucas, o barbeiro grego, que encontrara acolhida entre eles. O SENHOR guarda o peregrino. Tudo era graça. Tudo era cuidado ativo, contínuo.
Ele levantou-se, sentindo as juntas rangirem, mas com um coração estranhamente leve. A noite agora estava completa, fria e estrelada. Ao longe, ouviu o som suave de uma flauta. Era Samuel, o pastor, tocando para seu rebanho. O SENHOR ama os justos, pensou Abner. Não os perfeitos, mas os que, no meio de sua confusão, ainda estendem a mão, ainda confiam, ainda esperam por algo maior que o poder dos césares.
E os ímpios? Seu fim era certo. Mas essa não era a parte principal da canção. A canção era sobre o Reinado eterno. O reinado que começava agora, no pão compartilhado, no estrangeiro acolhido, no doente cuidado, e que nunca teria fim. Enquanto os impérios se levantavam e caíam como ondas, o trono daquele Deus permanecia, inabalável, sustentando todas as coisas.
Abner desceu a colina devagar. A vila estava quieta. Ao passar pela casa de Ana, viu o brilho frago de uma lamparina ainda acesa. E na soleira, como sempre, havia um pão pequeno, envolto em um pano limpo. Ele o pegou, ainda morno, e sentiu o cheiro reconfortante de centeio e casa. Não era apenas pão. Era um sinal. Um lembrete palpável, na escuridão da noite, de que havia um Deus em Sião, e seu reinado era de geração em geração.
Ele entrou em sua casa humilde, fechou a porta de madeira, e pôs o pão sobre a mesa. Antes de se deitar, sussurrou, não como uma oração formal, mas como uma conversa com um amigo antigo e fiel: “Louvado sejas. Ontem, hoje, e por todo o sempre.” E pela primeira vez em muitas semanas, o sono veio rápido e profundo, sem os fantasmas da ansiedade. Pois ele aprendera, não pela teoria, mas pelo testemunho silencioso da vida ao seu redor, que a verdadeira esperança, a única que não trai, é a que se deposita no SENHOR, o Deus de Jacó.




