Bíblia em Contos

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Bíblia

O Despertar da Criação

A noite no deserto tem um frio que entra nos ossos, um frio diferente do ar seco e abrasador do dia. Aqui, sentado sobre uma pedra lisa, velho demais para o cansaço significar algo além de uma companhia constante, eu deixo os olhos vagarem pela planície sob um manto de estrelas. Meus netos dormem, enrolados em mantas, e o silêncio é tão vasto que parece um ser vivo. E nessas horas de quietude absoluta, não é o futuro que me visita, mas o passado. E não um passado qualquer, mas aquele dia em que a própria criação pareceu conter a respiração.

Eu era apenas um garoto, de mãos calejadas já pela servidão, com o gosto de pó e cebola eterno na boca. O Egito era um peso nos ombros, um cheiro de lodo e suor, um rumor constante de temor. E então, a liberdade veio não como um grito, mas como um êxodo apressado e desconfiado. Carregamos a massa que não tinha fermentado, as crianças choramingavam, e para trás, na escuridão, ficava a terra que nos moldara com crueldade. Acreditávamos no profeta Moisés, sim, mas a fé daqueles primeiros dias era uma chama vacilante, soprada pelo vento do medo.

E foi numa dessas noites de marcha, com os pés inchados e o espírito ainda meio cativo, que aconteceu. Não havia templo então. Nosso santuário era uma tenda de panos, nossa arca, um baú de madeira coberto de ouro que carregávamos com terror e devoção. O sacerdote disse que estávamos perto de um mar — um mar diferente do Nilo, um mar de águas salgadas e impetuosas. O ar mudou; trazia um cheiro acre, vivo.

E então, sem nenhum ritual, sem nenhum canto ordenado, algo mudou no ar. Não era um vento. Era como se o espaço entre as coisas ficasse mais denso. Os animais de carga, placidamente mastigando o que encontravam, ergueram a cabeça de repente. As ovelhas se apertaram umas contra as outras, sem um balido. O silêncio caiu sobre nosso acampamento, um silênço pesado, opressivo. Alguém sussurrou: “É a arca. O SENHOR vai à nossa frente”.

E foi como se a terra, essa entidade muda e sólida sob nossos pés, *sentisse* algo que nós, criaturas de sangue e pensamento, mal podíamos conceber. Não houve terremoto. Não houve rachaduras. Foi uma consciência. Olhei para as colinas à distância, montes baixos e escuros contra o céu cor de púrpura. No crepúsculo, eles pareciam… não agitados, mas *alertas*. Como um cão de guarda que ergue as orelhas ao ouvir a voz do dono. Era uma impressão fugidia, quase louca, mas outros também olhavam, fixos. O Salmista, anos depois, cantaria isso com palavras exatas: “Os montes saltaram como carneiros, e os outeiros, como cordeiros”. Na hora, não vi saltos. Vi um estremecimento. Uma vibração na própria solidez deles, como se uma energia antiga, adormecida nas entranhas da rocha, tivesse sido despertada por uma Presença que a tudo precede.

Mas o mar… ah, o mar. No dia seguinte, alcançamos suas margens. E era um monstro. Uma extensão de água barrenta e furiosa, rugindo com uma voz que abafava todos os nossos temores. O exército de Faraó era uma nuvem de poeira atrás de nós; o mar, uma muralha intransponível à frente. O desespero era um gosto amargo na boca. E então Moisés estendeu o cajado.

O que se seguiu não foi um espetáculo vazio. Foi um *diálogo*. O mar, aquele leviatã indomável, viu aproximar-se a arca da aliança, carregada pelos sacerdotes de vestes brancas. E a água… retrocedeu. Não foi uma divisão limpa e instantânea. Foi como se as próprias correntes, as profundezas escuras, reconhecessem uma autoridade e se retraíssem, com relutância e temor. As ondas que batiam na praia se acalmaram de súbito, criando um silêncio sobrenatural. Depois, um caminho começou a se abrir, não como em um desenho infantil, mas como um vale sendo escavado por mãos invisíveis na própria água. As paredes laterais ergueram-se, espessas, verdes e negras, tremulando, mantendo-se de pé contra toda lei natural. “Que tens, ó mar, para fugires?” O salmo pergunta. Naquele momento, a pergunta ecoava em cada mente. O mar fugia de um terror santo. Ele se transformou, diante de nossos olhos, de senhor da criação em servo. E nós, um povo de escravos, atravessamos a seco, com o barro sob os pés sendo o chão mais firme que já pisamos, ladeados por aquelas muralhas líquidas que sussurravam e gemia, contendo sua fúria por obediência a uma Voz que não ouvimos, mas que toda a criação ouviu.

E o Jordão, mais tarde, repetiu a reverência. Outro rio, outra fronteira. A arca adentrou as águas turbulentas da época da colheita, e elas também se detiveram, se acumularam para longe, como um cachorro que se afasta para dar passagem ao seu rei. A terra de Canaã, essa terra de gigantes e cidades muradas, tremeu não sob nossos passos, mas sob os passos dAquele que nos precedia. As águas do rio, de fonte distante, viram e se retraíram.

Agora, velho, sob este céu infinito, eu entendo. O salmo não fala apenas de milagres. Fala de *reconhecimento*. A criação inteira — a terra montanhosa, as águas caóticas dos mares, as correntes dos rios — possui uma memória primordial. Ela conhece a voz do seu Criador. Nós, humanos, podemos duvidar, esquecer, murmurar. Mas a rocha, no seu silêncio milenar, estremece. O mar, na sua fúria aparentemente autônoma, recua. Eles não têm escolha. Eles *lembram*.

Minhas mãos trêmulas tocam a areia fria do deserto. Até esta areia, se a Glória se manifestasse, se agitaria como pipoca na panela. Tudo o que é, foi chamado à existência por um Fiat. E quando Aquele que É resplandece em sua santidade, mesmo que velado numa arca ou num propiciatório, o universo inteiro faz uma reverência involuntária. Não por espetáculo, mas por pura verdade ontológica. O milagre não estava no mar se abrir. O milagre, o tremor santo, estava em tudo ao redor *saber*, instantaneamente, quem era Aquele que passava.

O fogo da fogueira crepita baixo. Um neto vira-se, sonhando. Eu fecho os olhos e, em vez do deserto, vejo novamente aquelas muralhas de água, verdes e temerosas, e sinto, não no ouvido, mas no próprio osso, o eco daquela pergunta que o cosmos calou em resposta: “Que tens, ó terra, para tremeres?” E a resposta, não dita, mas sentida por montes, mares e por este coração idoso, é sempre a mesma: “A presença do Santo de Israel.”

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