O ar sobre a planície de Uz carregava um peso seco, impregnado do pó que subia das fendas da terra. Eliú, ainda jovem, mas com os olhos já marcados pelo sol implacável, observava de um outeiro o vai e vem dos homens no vale abaixo. Eram como formigas, uma coluna persistente que desaparecia na boca escura da montanha. De lá, dia e noite, vinha um som surdo e constante: o tinir de picaretas contra a rocha, o rangido de cordas, o murmúrio abafado de vozes que ecoavam nas entranhas do mundo.
Seu tio, um dos capatazes, lhe dissera que buscavam prata. “Cavam até os confins das trevas”, explicara, com um gesto vago em direção ao horizonte pedregoso. “Solapam as raízes dos montes, fazem túneis que os olhos não veem. Lá embaixo, nas veias da terra, encontram o brilho pálido do metal.” Eliú imaginava aqueles homens, com lâmpadas fixadas na testa, rastejando por galerias úmidas onde o ar era um fôlego espesso. As mãos deles, calejadas e negras, separavam o cascalho inútil do minério precioso. Era um trabalho de persistência brutal, uma guerra silenciosa contra a pedra muda.
Mais adiante, outra atividade frenética atraía seu olhar. Junto ao leito seco de um riacho, homens acendiam fornalhas. Não era o ouro que ali se procurava, mas algo mais raro ainda. Trouxeram carroças carregadas de um minério escuro e pesado. Atiçavam o fogo até que as chamas ficassem brancas, insuportáveis de se olhar. O calor distorcia o ar, fazendo dançar a paisagem. Dentro daquelas entranhas incandescentes, a pedra comum se derretia, e dela escorria, pesado e líquido, o ferro. Depois, com golpes precisos de martelo, na bigorna, transformavam aquele metal em ferramentas, em armas, em arados. Domínio sobre os elementos, pensou Eliú. O homem subjugava a escuridão e o fogo para sua própria vontade.
Seu pai, um mercador que viajava até Tiro e Damasco, lhe falara de lugares ainda mais distantes. De minas de safira, onde as pedras azuis como o céu noturno eram arrancadas com cuidado reverente. De riachos nas montanhas do norte onde se peneirava a areia dourada, grão a grão, até juntar uma pepita que valia por uma vida de trabalho. “O homem põe termo às trevas”, resmungara o pai, examinando um pequeno diamante bruto. “Investiga até o último limite, na pedra do abismo e da sombra.”
Eliú sentou-se sobre uma pedra aquecida, deixando que a visão daquelas labutas humanas se fundisse em sua mente. Havia uma grandeza triste naquela imagem. Tanta engenhosidade, tanta coragem para arrancar riquezas do ventre da terra. Conheciam o caminho oculto das aves de rapina, observavam os falcões para encontrar penhascos inacessíveis. Desafiavam leões em seus covis se lá soubessem haver um veio de minério. Revolviam os fundamentos dos montes, faziam os rios mudar de curso para lavar seus achados. E com tudo isso, com todo esse domínio sobre o mundo visível, algo crucial lhes escapava.
A sabedoria.
Onde se achava a sabedoria? Onde estava o lugar do entendimento? O jovem fitou o horizonte, como se a resposta pudesse estar escondida atrás das montanhas violeta ao longe. O homem não a conhecia. Não estava na terra dos viventes. O abismo dizia: ‘Não está em mim’; e o mar acrescentava: ‘Nem tampouco comigo’. Não se podia trocar por ouro refinado de Ofir, nem por ônix precioso ou safira. O ouro e o cristal não se lhe podiam comparar, e nem se dá por ela joia de ouro puro. Coral e jaspe são insignificantes; a aquisição da sabedoria é melhor que a dos rubis. Não se iguala a ela o topázio da Etiópia, nem mesmo o ouro puro.
Um vento súbito levantou um redemoinho de poeira no vale, obscurecendo por um momento a boca da mina. Os homens pararam, encarapuçados, esperando passar. Eliú sentiu um frio na nuca, apesar do calor. A pergunta ecoava dentro dele, mais profunda que qualquer poço cavado por aquelas mãos. Se o homem é capaz de tantas proezas, de revelar os segredos mais bem guardados da criação, por que seu coração permanece tão frequentemente na escuridão? Por que a discórdia, a injustiça, a fala tola, brotam no mesmo peito que concebe tais maravilhas?
A resposta, quando veio à sua mente, não era uma descoberta sua, mas um eco das palavras solenes dos anciãos, da tradição murmurante de seu povo. Era um susurro que parecia vir não do vale, mas de cima, do céu aberto e imenso sobre sua cabeça.
Deus é quem conhece o seu caminho, e ele sabe o seu lugar. Pois ele vê as extremidades da terra e observa tudo o que há debaixo dos céus. Ele firmou o peso do vento e estabeleceu a medida das águas; quando traçou um limite para a chuva e um caminho para o raio e o trovão, então a viu e a relatou; preparou-a e também a examinou.
A sabedoria não era uma coisa a ser escavada, nem uma commodity a ser pesada em balanças. Era um atributo, um verbo divino impresso na ordem do mundo. O homem podia dominar a técnica, mas não a origem. Podia encontrar todas as riquezas, mas permanecia pobre de entendimento se buscasse apenas nos lugares errados.
E o sussurro ancestral concluía, simples e devastador como a quietude após a tempestade: “Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal é o entendimento.”
Eliú levantou-se. Lá embaixo, os homens retomavam seu trabalho, suas vidas pequenas e grandes gravitando em torno do brilho fugidio da prata e do ouro. Ele desceu do outeiro, os pés levantando nuvens de pó claro. A pergunta ainda estava lá, mas agora repousava sobre uma base diferente. Não era mais um enigma angustiante, mas um convite. A busca não terminava no fundo de um poço, mas na orientação do olhar, na postura do coração. O verdadeiro tesouro, entendia agora, não estava escondido nas trevas que os homens venciam, mas na luz que reconheciam não ter criado. E essa era uma mineração de toda uma vida, que começava com um único passo: o temor que era início, e não fim. O sol, inclinando-se a oeste, alongou sua sombra diante dele, como um dedo apontando não para a montanha perfurada, mas para o caminho de casa.




