O sol do deserto era um peso opressivo, um manto de bronze derretido sobre os ombros de Agar. O ar, parado, tremeluzia sobre a areia que parecia cintilar com sede. Ela corria, não com a fúria de quem foge, mas com a desesperança trôpega de quem já não tem lugar no mundo. Os calcanhares afundavam na areia fofa, cada passo um esforço que lhe arrancava o pouco fôlego que lhe restava. A barriga, ainda plana, mas já carregada de um segredo pesado, doía-lhe como uma culpa.
Tudo havia começado naquela sombra úmida do harém, entre o cheiro de especiarias e o murmurinho baixo das outras servas. Sarai, sua senhora, outrora uma presença majestosa e serena, tornara-se um espectro de silêncio cortante. Os anos haviam esvaziado seu ventre e, parecia a Agar, também sua bondade. A proposta fora feita não com palavras, mas com um olhar que era uma ordem disfarçada de resignação sagrada. Abrão, o patriarca, aquele homem de passos lentos e voz que ecoava no deserto como o trovão distante, aceitara com uma quietude que aterrorizou Agar. Ela fora levada à sua tenda como se levasse um cântaro de água, um objeto utilitário para um propósito divino.
E então, o impossível acontecera. Sob a lã áspera dos cobertores, no escuro onde só se ouviam a respiração de Abrão e o uivar longínquo dos chacais, a vida germinou. E com a vida, veio uma transformação perigosa e doce. O sangue real de Harã, que ela carregava nas veias como serva, pareceu aquecer, pulsar com nova força. Olhou para as mãos, para o próprio corpo, e já não via apenas a escrava egípcia, presente de um faraó distante. Via o vaso. O ventre escolhido. E um sopro de soberba, frágil e quente, ergueu-se dentro dela. Não era ódio, não ainda. Era um reconhecimento amargo de uma injustiça que agora se invertia. Sarai era estéril. Ela, Agar, não.
O desdém nasceu devagar, primeiro num olhar baixo que se demorava demasiado, depois num sorriso fugaz que não se dirigia a ninguém, mas que Sarai capturava no ar como uma arma. A senhora suportou em silêncio, mas seu silêncio tornou-se um campo minado. Até que um dia, após Agar recusar-se a apressar o passo para abrir a cortina da tenda, a guerra eclodiu em palavras afiadas e baixas, sibilantes como serpentes na areia. Sarai acusou-a de arrogância, de se elevar acima de sua condição. Agar, com o fogo novo da maternidade nas entranhas, replicou com um olhar frio que disse mais do que mil impropérios. E viu, com um misto de terror e triunfo, a dignidade da matriarca rachar como um vaso de cerâmica ao sol.
Foi então que Sarai foi até Abrão. “A injustiça que sofro caia sobre ti”, dissera-lhe, a voz um fio de aço. “Eu a coloquei em teus braços, e agora, vendo-se grávida, ela me despreza.” Abrão, o homem do pacto, aquele que falava com Deus nas solidões, pareceu reduzir-se diante do conflito doméstico. “Eis tua serva em tuas mãos”, murmurou, com uma fadiga imensa. “Faze-lhe o que bem te parecer.” Era uma sentença. E Sarai, na justiça feroz dos humilhados, tornou-lhe a vida um deserto ainda maior que aquele que cercava o acampamento. Trabalhos mais pesados, olhares que cortavam como faca, uma solidão imposta no meio da multidão da tribo.
Agar não suportou. Aquele ventre que era sua glória tornara-se também seu estigma. Uma noite, sem planejar, apenas movida por um instinto animal mais forte que o medo, agarrou um odre de água, um pão seco, e sumiu na escuridão, rumo ao nada. Correra até a exaustão a banir o pensamento. Agora, parada à sombra raquítica de um arbusto espinhento, o desespero a alcançou. Para onde ir? De volta ao Egito? Uma viagem impossível, sozinha, grávida, através do Sinai. Morreria. Ela e a criança. E então, o que seria da promessa? A palavra sussurrada no acampamento, de que Abrão geraria uma grande nação… passaria por ela? A dúvida era um caruncho a roer-lhe a alma.
Foi quando a voz surgiu. Não do deserto, mas nele. Uma presença que preencheu o ar estático sem alterá-lo.
“Agar, serva de Sarai, donde vens e para onde vais?”
Ela não se voltou bruscamente. O cansaço era tanto que a visão parecia um milagre normal. Viu, não uma forma, mas uma densidade diferente na luz. A voz era clara, mas não áspera. Era uma pergunta que já continha a resposta.
“Eu fugi da face de minha senhora Sarai”, sussurrou, a garganta em brasa.
A voz não a condenou. Não a consolou com branduras. Falou-lhe como se falasse a uma matriarca. “Retorna à tua senhora e humilha-te sob suas mãos.” A ordem era dura, mas não era crueldade. Era um caminho. E então, veio a promessa, e Agar sentou-se na areia, as pernas incapazes de a sustentar. A voz falou do filho em seu ventre, um filho que seria um homem indomável, um asno selvagem de homem, sua mão contra todos e a mão de todos contra ele. E que ele habitaria diante da face de todos os seus irmãos.
Irmãos. A palavra ecoou. Ela não estava sozinha. Aquele menino, Ismael, “Deus ouve”, teria um destino. E ela, Agar, era parte desse destino. A promessa não era de facilidade, mas de sobrevivência. De futuro. Deus a tinha ouvido. Vira sua aflição. E isso, naquela solidão abrasadora, foi como água fresca derramada sobre a alma ressequida.
Agar ergueu os olhos, e já não havia densidade alguma no ar, apenas o sol impiedoso. Mas tudo era diferente. Pegou no odre quase vazio. O caminho de volta era longo, e Sarai estaria à sua espera com o rancor intacto. A submissão que lhe era ordenada seria um cálix amargo. Mas agora carregava um segredo que não era apenas seu: carregava uma promessa. E um nome. Ela, a escrava, dera um nome àquele que falara: “Tu és El-Roi”, o Deus que me vê. Porque, disse ela para o vento quente que começava a soprar, “ainda aqui tenho visto Aquele que me vê”.
A caminhada de volta foi mais lenta. Os pés, os mesmos que fugiram, agora arrastavam-se num propósito doloroso. Mas o olhar de Agar, fixo no horizonte onde fumegavam as tendas de Abrão, já não estava vazio. Estava cheio da visão do poço que um dia encontraria no deserto, e da certeza silenciosa de que, mesmo nas areias mais áridas, há olhos que veem, e ouvidos que ouvem o choro daqueles que ninguém mais escuta.




