Bíblia em Contos

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A Última Chama de Pedro

O sol da tarde já não aquecia como antes. Um vento cortante, carregado do cheiro de terra molhada e fumaça distante, entrava pela fresta da janela do quarto apertado onde Simão Pedro se acomodava. Os ossos doavam-lhe, um protesto silencioso contra os anos de caminhadas, prisões e intempéries. Uma lâmpada de azeite tremulava, lançando sombras dançantes nas paredes de pedra áspera. Diante dele, sobre uma tábua irregular, estendia-se um rolo de pergaminho, ainda em grande parte vazio.

Ao seu lado, o jovem Marco, filho de sua amiga em Roma, preparava a tinta com cuidado, o rosto franzido em concentração. Servia de amanuense, pois as mãos de Pedro, calejadas e trêmulas, já não conseguiam traçar as letras com a firmeza de outrora.

Pedro ficou um longo momento em silêncio, os olhos perdidos no vazio, mas não vazios. Viam a estrada empoeirada da Galileia, o brilho do mar sob o sol do meio-dia, um olhar que perfurava a alma e ao mesmo tempo a acalentava. Sentiu, não como lembrança, mas como presença real, o peso daquela fé que lhe fora dada. Não era um conceito, era uma semente viva, incômoda às vezes, plantada no solo mais improvável: seu próprio coração impetuoso.

“Escreve, Marco,” disse, a voz rouca mas firme. “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo.”

Ele fez uma pausa, deixando as palavras ecoarem naquele cubículo. “Aos que conosco obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo.”

“Igualmente preciosa,” repetiu ele, baixinho, quase para si mesmo. Virou-se para o rapaz, seus olhos ainda possuindo aquele fogo antigo. “Não escreva isso como mera saudação, filho. Escreva como quem grava numa lápide a verdade mais fundamental. A fé do ancião que viu e tocou, e a do jovem que crê pelo testemunho… é do mesmo valor. É o mesmo dom. Ninguém é mais salvo por ter estado na praia de Tiberíades do que você, que ouviu a história de minha boca. É tudo graça. Tudo dádiva.”

Marco anuiu, a pena raspando suavemente no papiro. Pedro levantou-se com dificuldade, apoiando-se na borda da mesa. A dor nas juntas era um lembrete constante. “A vida é curta, Marco. Este corpo é uma tenda velha, cheia de remendos e goteiras. O Senhor me mostrou que em breve terei de deixá-la.” Houve uma sombra em seu olhar, não de medo, mas de uma urgência solene. “Mas antes de partir, preciso lhes falar. Preciso lembrá-los.”

Ele começou a caminhar, devagar, o passo marcado pelo arrastar de suas sandálias gastas no chão de terra batida. “A graça e a paz lhes sejam multiplicadas, sim. Mas não uma paz qualquer. Não a paz do mundo, que é apenas ausência de guerra. A paz que vem do conhecimento. Conhecimento de Deus. De Jesus, nosso Senhor.”

Parou de novo, fitando a chama da lamparina. “Seu poder divino nos deu tudo o que necessitamos para a vida e para a piedade. Tudo, Marco. Não falta nada. A semente está completa. Mas a semente não foi dada para ficar guardada num saco.” Seu tom se intensificou, tomando o ritmo de um pregador, mas íntimo, como numa conversa à beira do fogo. “Ela deve crescer. Deve frutificar.”

Voltou à mesa e colocou as mãos abertas sobre o pergaminho, como se quisesse transferir o calor de sua pele para as palavras. “Por isso mesmo, escreva, empenhem-se para acrescentar à sua fé… a virtude.”

Sorriu, um sorriso que tinha a dureza e o brilho de uma pedra de amolar. “Virtude. Força moral. Coragem. Lembro-me de quando me faltou. Naquele pátio, com o carvão ardendo e a voz da serva… faltou. Mas Ele me restaurou. Virtude não é ser imune ao medo, é agir apesar dele. É o pescador que, mesmo aterrorizado, salta do barco e caminha sobre as ondas até que desvia o olhar. A fé que não se traduz em ação corajosa é… é fé adormecida.”

“E à virtude, o conhecimento,” continuou, seus dedos agora traçando linhas imaginárias no ar. “Não apenas saber sobre Ele, mas conhecê-Lo. Como se conhece um amigo. Um irmão. Estudar as palavras, sim, mas também o silêncio entre elas. O olhar. O jeito de curar no sábado. O conhecimento que aquece o coração na estrada de Emaús.”

Marco escrevia com rapidez, tentando capturar o fluxo do pensamento do apóstolo. A noite caía lá fora, e o frio se intensificava. Pedro pegou um manto grosso e o enrolou nos ombros. “E ao conhecimento, o domínio próprio.” Ele falou isso olhando para suas próprias mãos, que outrora empunharam uma espada no Getsêmani. “Freio. Controle. A fé não é licença para a paixão desvairada. É o cavalo selvagem que precisa ser domado para cumprir sua nobre função. Meu temperamento… quantas vezes precisou ser contido.”

A narrativa fluía, cada qualidade levando à seguinte, num crescendo orgânico, como os degraus de uma escada que se sobe rumo ao alto de uma montanha. Perseverança. A paciência ativa de quem espera não por desistência, mas por fidelidade. “Como um agricultor que cuida da terra em todas as estações, sabendo que a colheita virá.”

Piedade. A reverência que permeia tudo, que vê a mão de Deus no pão partido e no rosto do irmão sofrido. “Não é só ir à reunião, Marco. É viver como se cada ato, por menor que seja, fosse um culto.”

Afeto fraternal. Aqui, a voz de Pedro embargou um pouco. “O amor dos irmãos. A *koinonia*. A comunidade. Ninguém é uma ilha. Fomos feitos para nos apoiar, para carregar os fardos uns dos outros. Como Ele nos amou.”

E por fim, o ápice, a coroa: “E ao afeto fraternal, o amor.” A palavra grega, *agape*, pairou no ar frio do quarto. “Amor. Não o sentimento que vem e vai. A decisão inabalável, a entrega sacrificial, a escolha diária de buscar o bem do outro, custe o que custar. O amor com que Ele nos amou. Na cruz. Esse amor.”

Ele se deixou cair pesadamente no banco, um suspiro profundo escapando-lhe dos pulmões. “Se estas coisas estiverem em vocês e em grande medida, não os deixarão ociosos nem infrutíferos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo.” Fixou os olhos em Marco. “O homem que não cultiva estas coisas é como o espelho embaçado. Esqueceu-se de quem é. Esqueceu-se da purificação dos seus antigos pecados.”

Pedro fechou os olhos por um instante, e quando os abriu, havia uma ternura infinita neles. “Por isso, filho, empenhem-se ainda mais para consolidar o chamado e a eleição de vocês. Praticando estas coisas, nunca tropeçarão. Pois assim lhes será concedida ampla e generosa entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.”

Houve um longo silêncio, quebrado apenas pelo estalar do pavio da lamparina. O ensino estava dado. A exortação, gravada. A carta, que começara como um testamento doutrinário, tornara-se um apelo visceral, o derradeiro suspiro de um homem que, sabendo do fim próximo, queria deixar suas ovelhas não apenas alertas, mas equipadas, prósperas, cheias de uma fé que cresce e frutifica.

“Leia para mim o que escreveu, desde o início,” pediu Pedro, a voz agora cansada, mas serena.

Marco começou a ler, e as palavras, simples e profundas, encheram o pequeno aposento. Do lado de fora, na noite romana, as estrelas cintilavam, frias e distantes. Mas dentro daquela tenda velha e remendada que era o corpo de Simão Pedro, ardia um fogo que nenhum vento do inverno, e nem mesmo a morte que se aproximava, poderia jamais apagar. Era a luz da manhã, da manhã eterna, já acesa em seu coração. E ele, com mãos trêmulas e coração firme, a passara adiante.

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