Bíblia em Contos

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O Tesouro do Contentamento

O sol da tarde caía sobre Éfeso como um manto pesado e dourado, impregnando o ar de um calor úmido que cheirava a poeira, especiarias e suor. No bairro mais modesto, longe do esplendor do teatro ou do templo de Ártemis, a casa de Lúcio exalava uma quietude diferente. Era um cheiro de pão simples acabado de cozer, de ervas secas penduradas nas vigas, e de um óleo de lamparina barato que fumegava com parcimônia.

Lúcio, um homem de cabelos já grisalhos e mãos calejadas pela fiação de tendas, limpava os dedos em um pano áspero. Seus olhos, porém, estavam fixos no rosto jovem e perturbado à sua frente. Timóteo respirava fundo, a tensão visível em seu pescoço. A reunião na sinagoga mais cedo tinha sido áspera.

“Não são apenas palavras, Lúcio”, disse Timóteo, a voz baixa mas carregada de uma fadiga que ia além do físico. “É o tom. A forma como discutem genealogias intermináveis, como torcem as palavras do apóstolo. E depois… há os outros. Os que veem nossa piedade como fonte de lucro.”

Lúcio assentiu lentamente. Ele conhecia aqueles tipos. Homens de discurso polido e olhos que calculavam o valor de cada conversão, a contribuição potencial de cada viúva ingênua. Encheu duas taças de barro com água e deslizou uma para o jovem pastor.

“Meu pai era um ourives”, começou Lúcio, sem preâmbulos. “Trabalhava no fio da navalha entre a honestidade e a ganância. Um dia, um negociante trouxe-lhe um conjunto de pratarias romanas, lindas, mas roubadas. Ofereceu uma fortuna para fundi-las e transformá-las em algo novo. A ganância é assim, Timóteo. Ela não se apresenta sempre como um monstro escancarado. Muitas vezes vem vestida de oportunidade, de necessidade, até de ‘sabedoria’ para prosperar.”

Ele fez uma pausa, olhando para a chama tremula da lamparina. “O que esses homens pregam? É o evangelho da contentamento com o que se tem, ou o evangelho do ‘tome posse da sua bênção’? Porque a essência é diferente. Uma nasce da gratidão a Deus. A outra… a outra nasce de um desejo que coça a alma como uma roupa áspera. Nunca sossega.”

Timóteo pegou na taça, sentindo a aspereza do barro. “Eles usam termos corretos. Falam de Deus, de Cristo. Mas o fim de toda a conversa é sempre o dinheiro, o status, a influência. Dizem que a piedade traz grande gain.” A última palavra ele pronunciou em grego, com um misto de desprezo e tristeza.

“Grande lucro…”, ecoou Lúcio, com um sorriso amargo. “Sim, a piedade é lucrativa, mas não para a bolsa de couro que carregamos à cintura.” Ele ergueu os olhos, fixando-os em Timóteo com uma intensidade serena. “É lucrativa para a alma. Traz o contentamento. E isso, em um mundo onde todos correm atrás de mais um pouco, é a verdadeira riqueza. Lembras-te do que nos chegou das cartas do apóstolo? Nada trouxemos para este mundo, e nada poderemos levar. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes.”

Do lado de fora, passava um vendedor ambulante apregoando peixes do mar Egeu, sua voz cantada se perdendo nas ruas estreitas. O som era comum, terreno. E aquela verdade também o era, mas tão difícil de assimilar.

“E os ricos da comunidade?”, perguntou Timóteo, pensando em homens como Cláudio, o mercador de tecidos, que dava esmolas com uma mão e cobraça juros exorbitantes com a outra. “Como instruí-los?”

Lúcio respirou fundo, como se buscasse as palavras certas no ar quente. “Essa é a armadilha, filho. A riqueza em si não é má. É uma ferramenta. Pode construir ou destruir. Pode alimentar órfãos ou alimentar a própria vaidade. O perigo está no coração que se apega a ela. É como aquela âncora de um navio que visitei uma vez. Necessária para a estabilidade no porto. Mas se o marinheiro, em plena tempestade, se agarra à âncora em vez de lançá-la ao mar para salvar o barco… ele se afoga com ela nas mãos.”

A imagem era vívida. Timóteo conseguia quase sentir o peso frio do ferro, a ilusão de segurança que se transformava em morte.

“Para os ricos”, continuou Lúcio, sua voz ganhando um tom pastoral firme, quase como se repetisse um ensino sagrado internalizado, “a ordem é que não sejam soberbos. Que não ponham a esperança na instabilidade das riquezas, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento. Que pratiquem o bem, que sejam ricos em boas obras, generosos. Que acumulem, sim, um bom fundamento para o futuro, para que se apeguem à vida verdadeira.”

A vida verdadeira. As palavras ecoaram na sala simples. Não era a vida de festas no átrio de uma villa, nem de intrigas no mercado. Era algo mais profundo, uma corrente subterrânea de paz que fluía mesmo nos tempos de seca.

A conversa fluiu para a manutenção da doutrina, a luta pela fé. Timóteo falou de suas próprias tentações, do cansaço, do medo de falhar. Lúcio, então, falou como um pai. Falou de combater o bom combate, não com a espada da retórica agressiva, mas com a firmeza de quem defende um tesouro. Falou de guardar o depósito da fé com a ternura e a vigilância com que se guarda um recém-nascido.

“Há coisas, Timóteo, que não são saudáveis. Discussões que doem mais do que curam. Palavras que corroem como ferrugem. O conhecimento que infla é vazio. O amor que edifica é sólido. Foge das contendas tolas, daquilo que alguns, com ar de importância, chamam falsamente de ‘ciência’. Muitos, por se entregarem a ela, se desviaram da fé.”

A noite havia caído completamente quando Timóteo se levantou para ir. A lamparina projetava sombras dançantes nas paredes de barro. Ele se sentia diferente. Não como se tivesse recebido uma lista de regras, mas como se tivesse bebido de uma fonte fresca após um longo dia no caminho poeirento. As palavras de Paulo, filtradas pela vida simples de Lúcio, ganhavam carne, cheiro e textura.

Na porta, enquanto o céu de Éfeso brilhava com um manto de estrelas distantes, Lúcio pousou a mão no ombro do jovem. “A graça seja contigo, filho. E lembra-te: a alguns, os que nada têm, Deus dá tudo. A outros, os que têm muito, Deus pede que tudo compartilhem. O segredo não está no que se segura na mão, mas em a quem se entrega o coração.”

Timóteo saiu para a rua escura, o som dos seus passos na terra batida era o único ruído. A ansiedade do início da noite dera lugar a uma determinação quieta. O combate era bom. A fé, um tesouro. E o contentamento, uma riqueza inabalável, que nem Marco, o negociante astuto, nem os doutores de palavras vazias poderiam jamais roubar. Era uma história que se desdobrava não em parágrafos perfeitos, mas nos dias comuns, nas escolhas silenciosas, no pão partido e na mão aberta. E naquela noite, isso lhe bastava.

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