Bíblia em Contos

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A Visão de Pedro

O sol da Judeia escaldava as paredes de pedra clara de Jerusalém quando Pedro finalmente regressou. A poeira da estrada ainda lhe colava aos pés, e o cansaço da longa caminhada misturava-se com uma estranha inquietação no espírito. Ele sabia que as notícias de Cesareia já tinham chegado antes dele. Sussurros, olhares oblíquos, o murmúrio surdo de uma controvérsia que crescia como fogo em capim seco.

Não demorou. Os irmãos da circuncisão – homens de rosto austero e convicções gravadas a fogo na alma – vieram ao seu encontro. Não com hostilidade aberta, mas com uma frieza que era pior. A casa onde se reuniram era simples, com o chão de terra batida e a luz do fim de tarde entrando por uma janela estreita, iluminando partículas de poeira que dançavam no ar.

“Entraste na casa de homens incircuncisos e comeste com eles,” disse um deles, um homem mais velho chamado Eleazar. Sua voz era calma, mas os nós dos seus dedos, brancos sobre os joelhos, traíam a tensão.

Pedro respirou fundo. Não era uma acusação, não ainda, mas era o prenúncio de uma. Sentiu o peso daqueles olhares, o peso de séculos de tradição, de uma lei que separava o puro do impuro, o santo do profano. Como explicar o inefável? Como descrever o vento do Espírito que sopra onde quer?

Começou devagar, escolhendo as palavras com o cuidado de quem manuseia um vaso precioso.

“Irmãos,” disse ele, a voz um pouco rouca da viagem, “estava eu na cidade de Jope, orando no eirado, por volta da hora sexta.”

Fechou os olhos por um momento, revivendo a cena. O céu azul intenso, o calor do telhado sob seus pés, o cheiro salgado do mar Mediterrâneo trazido pela brisa.

“Caí em êxtase,” continuou, e sua voz ganhou um tom sonhador. “E vi uma visão. Algo como um grande lençol que descia do céu, preso pelas quatro pontas, e que baixava até à terra. Dentro dele havia de tudo: quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu.”

Os homens à sua frente permaneciam imóveis, mas Pedro viu o ceticismo nos seus olhos. Eles conheciam a Lei. Sabiam o que era limpo e imundo.

“E ouvi uma voz que me dizia: ‘Levanta-te, Pedro; mata e come’.”

Ele fez uma pausa, deixando a gravidade daquela ordem ecoar na sala silenciosa. Aquela era a essência do conflito. A voz celestial pedia para transgredir o que era mais sagrado para um judeu piedoso.

“Eu, porém, respondi: ‘De modo nenhum, Senhor! Porque jamais entrou na minha boca coisa alguma comum ou imunda’.”

Pedro olhou para cada um deles, vendo neles o seu próprio eu de poucas semanas atrás – o homem aferrado à pureza ritual, incapaz de conceber uma mudança tão radical.

“A voz, porém, tornou a falar-me do céu, uma segunda vez: ‘Ao que Deus purificou, não continues a chamar comum’.”

Ele repetiu as palavras devagar, para que não houvesse dúvida. “Isto se repetiu por três vezes. E, logo, aquele objeto foi recolhido ao céu.”

Agora vinha a parte crucial, o elo entre a visão celestial e a ação terrena. A narrativa de Pedro ganhou um ritmo mais urgente.

“E eis que, na mesma hora, três homens que tinham sido enviados de Cesareia à minha procura, pararam à porta da casa onde eu estava. O Espírito, porém, disse-me para ir com eles, sem hesitar. E estes seis irmãos,” disse ele, apontando para alguns dos que o haviam acompanhado de Jope e que agora estavam na sala, confirmando a história com seus acenos silenciosos, “foram comigo. E entramos na casa daquele homem.”

Ele se referia a Cornélio. E aqui, Pedro descreveu o centurião com um respeito genuíno. “E ele nos contou como tinha visto um anjo em sua casa, que lhe dissera: ‘Envia mensageiros a Jope e manda chamar Simão, também chamado Pedro; ele te dirá palavras mediante as quais serás salvo, tu e toda a tua casa’.”

Pedro inclinou-se para a frente, as mãos abertas, num gesto de apelo final.

“E, quando comecei a falar,” disse ele, e sua voz tornou-se cheia de pasmo, como se ele mesmo ainda não conseguisse acreditar totalmente, “desceu sobre eles o Espírito Santo, como também sobre nós no princípio.”

Ele descreveu o momento com uma simplicidade poderosa. A sala em Cesareia, os rostos daqueles gentios, a centúria italiana, seus familiares e amigos próximos. E então, o inconfundível – o falar em línguas, a glorificação de Deus. O mesmo sinal, o mesmo selo divino que havia marcado o Pentecostes em Jerusalém, agora repousava sobre incircuncisos, em uma casa romana.

“Então, me lembrei da palavra do Senhor, como disse: ‘João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo’. Se, portanto, Deus lhes deu o mesmo dom que a nós, quando havíamos crido no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para me opor a Deus?”

A pergunta ficou pairando no ar, carregada de uma lógica divina irrefutável. A sala estava em silêncio. Os rostos antes fechados e céticos agora mostravam um conflito interior. A tradição gritava uma coisa, mas o testemunho de Pedro e o claro agir de Deus gritavam outra.

Então, um a um, as resistências começaram a ceder. O Espírito Santo havia construído uma ponte sobre o abismo que separava judeus e gentios, e eles não podiam ser os homens a derrubá-la. A tensão quebrou-se, não num rompante dramático, mas num lento e profundo suspiro coletivo. A fúria e o medo deram lugar ao assombro.

Aceitaram. Reconheceram a mão de Deus. E aquele que fora um momento de potencial cisão tornou-se, em vez disso, um momento de profunda unidade e compreensão. A igreja em Jerusalém compreendeu, talvez pela primeira vez de forma plena, que a porta da fé estava aberta, de par em par, também aos gentios. E a graça de Deus, como uma chuva torrencial e incontrolável, começava a cair sobre toda a terra.

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