Bíblia em Contos

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A Visão de Ezequiel

O calor do deserto latejava contra os rochedos, um sopro pesado que fazia tremular o ar sobre a areia. Ezequiel sentia o suor escorrer pelas têmporas, salgado e quente, enquanto a solidão do lugar, perto do rio Quebar, era um manto pesado sobre seus ombros. Não era um silêncio vazio, mas um que zumbia, carregado de uma presença que fazia a pele arrepiar.

Ele se lembrava da data, como se a tivesse talhado a fogo em sua memória – o quinto dia do quarto mês do quinto ano do exílio do rei Joaquim. A data era uma âncora num mar de desorientação. Seus olhos fitavam as águas turvas do rio, mas sua mente estava longe, em Jerusalém, na terra que já não era sua. Foi então que o céu pareceu rasgar-se.

Não foi com estrondo, mas com um rompimento silencioso, como um véu sendo puxado para revelar o que há por trás do tecido do mundo. O firmamento, antes de um azul opaco e poeirento, abriu-se, e ele viu visões de Deus. A descrição fugia à lógica humana – era como um fogo torneado por um clarão, um metal incandescente no centro das chamas. E do meio daquilo, formas que sua boca não conseguia nomear adequadamente. Quatro seres viventes, cada um com quatro faces – de homem, de leão, de boi, de águia –, asas que se tocavam, pés direitos, rodas dentro de rodas cobertas de olhos. E acima deles, um firmamento cintilante, e sobre o firmamento, um trono. E sobre o trono, uma figura com aparência de homem, mas feita de âmbar incandescente e fogo. Era uma glória que doía nos olhos, uma santidade que esmagava o ar.

Ezequiel caiu com o rosto no chão. A areia grudentou em seus lábios. O som que ouviu então não vinha dos ouvidos, mas da alma. Uma voz. E ela falou: “Filho do homem, põe-te em pé, e falarei contigo.”

Uma força, como um vento interior, levantou-o. Os joelhos tremiam, mas ele estava em pé. A voz continuou, vinda da glória sobre o trono: “Filho do homem, eu te envio aos filhos de Israel, às nações rebeldes que se revoltaram contra mim; eles e seus pais transgrediram contra mim até este mesmo dia. E os filhos são de duro rosto e obstinados de coração. Eu te envio a eles, e lhes dirás: Assim diz o Senhor DEUS.”

A voz não era áspera, mas tinha uma autoridade final, como a de um selo sendo pressionado sobre cera macia. “E eles, quer ouçam quer deixem de ouvir, porque são uma casa rebelde, hão de saber que esteve no meio deles um profeta.”

Então, algo inusitado aconteceu. Ezequiel viu uma mão estendida para ele, e nela havia um rolo de livro. O rolo estava escrito por dentro e por fora, e nele estavam escritas palavras: lamentações, ais e tristezas. A voz ordenou: “Come deste rolo, e vai, fala à casa de Israel.”

Ele abriu a boca, e a mão colocou o rolo nela. Era um ato absurdo, contra toda a lógica. Mas no momento em que seu paladar tocou o material, ele não sentiu papiro ou pergaminho. Sentiu algo doce como o mel na boca. Era um sabor que não alimentava o corpo, mas sim a vontade, uma determinação que se espalhou por seus membros. As palavras de julgamento, ao serem ingeridas, tornavam-se sua própria substância.

“Filho do homem”, continuou a voz, agora com um tom mais íntimo, quase confidencial, “alimenta o teu ventre, e enche as tuas entranhas com este rolo que eu te dou.” Ele comeu, e a doçura persistiu, mas agora acompanhada de um peso solene. Ele não era mais apenas Ezequiel, o exilado. Ele era um vaso, cheio das palavras de Deus.

“Vai, pois, aos do cativeiro, aos filhos do teu povo, e lhes falarás, e dirás a eles: Assim diz o Senhor DEUS; quer ouçam quer deixem de ouvir.”

Então, o Espírito o levantou. Não foi um voo, mas uma transladação, uma sensação de ser arrebatado por uma correnteza invisível. Ele ouviu atrás de si uma voz de grande estrondo, dizendo: “Bendita seja a glória do SENHOR, desde o seu lugar.” Era o ruído das asas dos seres viventes batendo umas contra as outras, e o estrondo das rodas, imensas, ao seu lado. Era o som da glória em movimento.

O Espírito o levou, e ele foi, amargurado na fervura do seu espírito, pois a mão do SENHOR era forte sobre ele. A doçura do rolo agora coexistia com uma angústia profunda. Ele chegou aos exilados em Tel-Abibe, que habitavam junto ao rio Quebar. E ali se sentou, no meio deles, atônito, por sete dias.

Durante aquela semana, ele era um estranho entre os seus. Olhava para seus compatriotas – homens e mulheres que compartilhavam sua sorte, seu sofrimento, sua nostalgia – e via neles uma dureza, uma crosta de resignação e rebeldia mista que os tornava impenetráveis. Sua alma se contorcia. Como falar? Como quebrar aquela muralha?

Ao fim dos sete dias, a palavra do SENHOR veio a ele novamente, não com visões espetaculares, mas com uma clareza cortante no íntimo do seu ser: “Filho do homem, eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; da minha boca ouvirás a palavra, e avisá-los-ás da minha parte.”

A mensagem era clara e terrível em sua responsabilidade. Ele era uma sentinela posta no muro. Se Deus dissesse ao ímpio: “Certamente morrerás”, e Ezequiel não lhe falasse para que se desviasse do seu caminho, aquele ímpio morreria na sua iniquidade, mas o seu sangue seria demandado da mão do profeta. No entanto, se ele avisasse o ímpio, e este não se desviasse, o ímpio morreria no seu pecado, mas Ezequiel teria livrado a sua alma.

Era um fardo insuportável. A salvação deles não estava em suas mãos, mas o aviso sim. A sua fidelidade era a sua própria libertação.

A mão do SENHOR tornou-se pesada sobre ele outra vez. Ele foi levado para o campo, para a planície. E a glória do SENHOR se pôs ali, como a glória que vira junto ao rio Quebar. E ele caiu sobre o seu rosto.

Então, o Espírito entrou nele, e o pôs em pé. A voz soou, firme: “Vai, encerra-te em tua casa. Eis que eles porão cordas em ti, e te ligarão com elas, e não sairás no meio deles. E eu farei pegar a tua língua ao teu paladar, e ficarás mudo, e não lhes servirás de homem que admoesta; porque são casa rebelde.”

A solidão profética seria sua prisão. Eles o amarrariam não com cordas físicas, mas com a surdez de seus corações. E Deus, num ato soberano, selaria seus lábios até o momento designado. A mensagem estava dentro dele, doce e amarga, mas ele não poderia vomitá-la a todo instante. Só quando o SENHOR abrisse sua boca.

“Mas, quando eu te falar, abrirei a tua boca, e lhes dirás: Assim diz o Senhor DEUS: Quem ouça, ouça; e quem deixe, deixe; porque são casa rebelbe.”

Ezequiel levantou-se da planície. O sol poente lançava sombras longas e distorcidas. A visão havia passado, o som das rodas e asas se esvaíra. Restava o silêncio do deserto e o peso do rolo comido em seu estômago. Ele começou a caminhar de volta para Tel-Abibe, para sua casa. Seus pés arrastavam-se na areia, seu coração era um campo de batalha entre a doçura da obediência e a amargura da mensagem. Ele era a sentinela. E agora, só restava esperar pelo som da trombeta, pelo momento em que a mão do SENHOR tocaria seus lábios novamente, e ele, querendo ou não, falaria. A solidão era sua companhia, e o chamado, sua cruz.

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