Bíblia em Contos

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O Jugo Quebrado de Hananias

O sol daquela manhã em Jerusalém aquecia as pedras do pátio do Templo com uma insistência que parecia querer expiar todos os pecados da cidade. Um calor pesado, úmido, que fazia o suor escorrer pelas costas dos homens reunidos ali, mesmo sob as roupas de linho. Entre a pequena multidão de sacerdotes, profetas e curiosos, Jeremias se movia devagar, seu rosto marcado por uma sombra de angústia que já se tornara permanente.

Há meses ele carregava sobre os ombros um jugo de madeira, pesado e áspero, que rangia a cada movimento. As tiras de couro cru já haviam deixado marcas vermelhas em sua pele. Ninguém ria dele — pelo menos não abertamente —, mas muitos sussurravam, apontando para aquele símbolo estranho da submissão a Nabucodonosor. Jeremias falava em voz baixa, quase cansada, repetindo que Judá deveria curvar a cerviz diante da Babilônia, que aquela era a vontade do Senhor, um castigo necessário pela infidelidade do povo.

Foi nesse cenário que Hananias, filho de Azur, se adiantou. Seu manto era mais limpo, suas sandálias menos empoeiradas. Ele vinha de Gibeom, e trazia nos olhos um brilho que contrastava com a melancolia geral. A voz de Hananias soou clara, cortando o ar pesado:

— Assim fala o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Quebrei o jugo do rei da Babilônia!

O silêncio que se seguiu foi tão denso quanto o calor. Todos olharam para Jeremias, que permaneceu imóvel, seus dedos ainda apertando as laterais do jugo.

— Dentro de dois anos — continuou Hananias, erguendo as mãos como quem abençoa —, eu farei voltar a este lugar todos os utensílios da Casa do Senhor que Nabucodonosor tomou e levou para a Babilônia. Também reconduzirei a este lugar Jeconias, filho de Jeoaquim, e todos os exilados de Judá. Sim, quebrei o jugo do rei da Babilônia!

Jeremias não abaixou os olhos. Caminhou alguns passos até ficar frente a frente com Hananias. Seu rosto não expressava raiva, mas uma tristeza profunda, quase solidária.

— Amém — disse Jeremias, suavemente. — Assim faça o Senhor. Que o Senhor cumpra as palavras que profetizaste.

Houve um murmúrio de surpresa entre os presentes. Alguns chegaram a sorrir, aliviados. Mas Jeremias não terminara.

— Só que ouve agora esta palavra — continuou, e algo em sua voz fez os sorrisos se congelarem. — Os profetas que surgiram antes de mim e antes de ti, desde os tempos antigos, profetizaram guerra, fome e peste contra muitas terras e grandes reinos. Quanto ao profeta que profetiza paz, só ao cumprir-se a sua palavra é que será conhecido como verdadeiro profeta enviado pelo Senhor.

Hananias manteve a postura, mas um leve tremor percorreu suas mãos. Jeremias esperou um instante, como se desse tempo para que aquelas palavras penetrassem nas almas daqueles homens. Depois, com um gesto surpreendentemente rápido, arrancou o jugo de seus próprios ombros e o quebrou sobre o chão de pedra. O estalido seco da madeira ecoou pelo pátio.

— Assim diz o Senhor — declarou Hananias, recuperando o fôlego. — Deste modo quebrarei o jugo de Nabucodonosor, rei da Babilônia, dentro de dois anos, sobre o pescoço de todas as nações.

Jeremias não tentou recolher os pedaços do jugo. Apenas olhou para eles, espalhados como ossos secos no chão. Depois, virou-se e saiu, sem pressa, seu roupão esfregando levemente nas pedras. Seus passos ecoaram até se perderem na sombra do pórtico.

Os dias que se seguiram foram de tensão silenciosa. Hananias era aclamado em cada esquina. Suas palavras corriam pela cidade como água fresca no deserto. Jeremias, por sua vez, recolheu-se em sua casa no bairro dos sacerdotes. Rezava, escrevia, esperava.

Até que uma tarde, sem aviso, o Senhor falou novamente a Jeremias.

— Vai e dize a Hananias — ouviu ele, com a clareza de uma fonte no silêncio —: Jugo de madeira quebraste, mas em seu lugar farás jugo de ferro.

Era quase o crepúsculo quando Jeremias encontrou Hananias perto do tanque de Siloé. Desta vez, não havia plateia. Apenas os dois, sob um céu que começava a ganhar tons de púrpura.

— Ouve, Hananias — disse Jeremias, sem preâmbulos. — O Senhor não te enviou, mas tu fizeste que este povo confiasse em mentiras. Por isso, assim diz o Senhor: Eis que te lançarei de sobre a face da terra. Este ano morrerás, porque pregaste rebeldia contra o Senhor.

Jeremias não esperou resposta. Deu meia-volta e deixou Hananias parado à beira da água, seu reflexo tremeluzindo na superfície escura.

Dois meses depois, no sétimo mês do mesmo ano, Hananias, filho de Azur, o profeta de Gibeom, morreu subitamente em sua casa. Não houve peste, nem guerra, nem acidente. Apenas o silêncio de uma vida interrompida.

Quando a notícia chegou a Jeremias, ele estava no seu aposento, trabalhando em um novo jugo — desta vez, de ferro. Ao ouvir, suspirou profundamente e deixou cair a ferramenta que usava para moldar o metal. Não havia triunfo em seus olhos, apenas o peso solene da verdade que sempre o acompanhava. Fora à janela e olhou para a cidade adormecendo sob as primeiras estrelas. O jugo de ferro esperaria. O tempo de Deus não se apressa, mas também não falha.

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