O sol escaldante de verão batia nas paredes de pedra de Jerusalém com uma ferocidade que parecia querer rachar a própria cidade. Dentro do palácio, o rei Ezequias sentia o suor escorrer pelas têmporas, não apenas por causa do calor, mas pelo peso do silêncio que pairava no salão do trono. Os mensageiros haviam partido havia semanas, carregando ouro e prata, promessas de lealdade e tratados escritos em papiro fino, rumo ao sul, ao Egito.
Nos mercados, o povo sussurrava. “Faraó nos salvará”, diziam uns. “Seus carros de guerra são como nuvens de gafanhotos, incontáveis”, acrescentavam outros. A ameaça assíria era real como uma espada apontada para o pescoço, e o instinto de buscar abrigo em braços humanos era mais forte do que a memória das promessas feitas a um Deus invisível.
Num canto mais fresco da cidade, onde as videiras tentavam criar sombra contra o muro ocidental, o profeta Isaías sentia um aperto no peito que não era físico. Era como se o próprio espírito da nação estivesse definhando, escolhendo o caminho mais liso que levava ao precipício. Seus dedos tremiam ligeiramente ao segurar o rolo de pergaminho, mas sua voz, quando ecoou na praça, era firme como a rocha sobre qual a cidade fora edificada.
“Ai dos filhos rebeldes”, começou, e o burburinho do mercado diminuiu. “Que buscam proteção longe de Mim, que fazem alianças sem Me consultar, acumulando pecado sobre pecado. Marcham desesperados para o Egito, confiando em cavalos, na força de homens que cospem no chão e morrem. Vocês buscam abrigo sob as asas de um abutre, esquecendo-se das asas do Eterno.”
Alguns ouvintes torciam as mãos, outros reviravam os olhos. Um comerciante de tecidos resmungou: “Sonhador. Prefere ver-nos mortos a vermos salvos por mãos humanas”. Mas Isaías continuou, seus olhos parecendo enxergar além das montanhas da Judeia, adentrando o futuro sombrio que se desdobrava como um pergaminho amaldiçoado.
“A força do Egito será a sua vergonha. Faraó, em quem vocês depositam esperança, será como um cetro quebrado. Seus cavaleiros cairão como moscas no calor. Mil de vocês fugirão ao grito de um só, e o que restar será solitário como um poste no topo do monte.”
Ele descreveu então, com palavras que cortavam como faca, a paciência de Deus. “O Eterno espera para ter misericórdia de vocês. Ele se levanta para mostrar compaixão. Pois o Senhor é um Deus de justiça. Bem-aventurados todos os que nEle esperam.”
E então, como se uma cortina se abrisse em sua mente, Isaías pintou com palavras um futuro distante, um tempo de restauração que parecia impossível naquele presente angustiado. “Haverá um dia em que seus ouvidos ouvirão uma voz atrás de vocês, dizendo: ‘Este é o caminho, andem por ele’. Vocês jogarão fora seus ídolos de prata e ouro, feitos por suas mãos pecadoras, como algo imundo. ‘Fora!’, dirão a eles.”
Seu tom mudou, suavizou-se como o orvalho no deserto. “E o Eterno lhes dará chuva para a semente que plantarem, e a terra dará seus frutos, ricos e fartos. Naquele dia, seus animais pastarão em largas pastagens. Os regatos fluirão em toda colina, em todo vale aberto. A lua brilhará como o sol, e a luz do sol será sete vezes mais intensa, como a luz de sete dias, no dia em que o Senhor enfaixar a ferida do seu povo e curar as contusências que Ele mesmo causou.”
A imagem era de uma beleza tão profunda que até os mais céticos calaram-se por um momento. Era o paradoxo da fé: o mesmo Deus que disciplinava com uma mão, curava com a outra.
Anos se passaram. A aliança com o Egito mostrou-se tão frágil quanto um fio de teia de aranha contra a tempestade assíria. As cartas de ameaças de Senaqueribe chegaram, escritas em aramaico, cheias de blasfêmias. O cerco apertou. A água começou a rarear. O pânico, outrora um sussurro, tornou-se um grito coletivo.
Foi então, no silêncio da noite, no fundo do poço da humilhação, que Ezequias rasgou suas vestes reais e, em vez de vestir a armadura, vestiu-se de pano de saco e cinzas. Subiu ao templo, estendeu as cartas de ameaça diante do altar e clamou. E o clamor não foi por mais cavalos egípcios, nem por mais ouro para subornar inimigos. Foi um grito nu de dependência. “Salva-nos, Senhor, nosso Deus.”
E a resposta veio. Não pelo estrondo de exércitos aliados, mas pela voz quieta do mesmo profeta que eles haviam ignorado. “Não temais”, disse Isaías ao rei tremendo. “Ele não entrará nesta cidade. Por amor de Davi, meu servo, defenderei este lugar.”
E naquela noite, o anjo do Senhor moveu-se pelo acampamento assírio como um vento silencioso e mortal. Ao amanhecer, o exército mais poderoso da terra jazia em silêncio, um mar de corpos sem um único golpe desferido por mão judia.
O alívio foi tão avassalador quanto o medo havia sido. E nos anos que se seguiram, uma nova canção ecoou nas colinas de Judá. Não era um canto de triunfo militar, mas de quietude. “Em quietude e confiança estará a vossa força.” O povo aprendera, da maneira mais dura, que a pressa em buscar salvação fora do Santo de Israel era como correr para a própria ruína. E que a verdadeira fortaleza não estava nas muralhas de pedra, nem nas alianças com nações distantes, mas no simples, profundo, milagroso ato de parar, esperar e confiar.
A promessa de chuva sobre a semente plantada cumpriu-se. A terra floresceu novamente. E nos rostos dos velhos que haviam testemunhado aquele tempo, havia uma serenidade que só nasce quando se experimenta a verdade mais profunda: que a graça é encontrada não na fuga, mas no retorno. E que o Eterno, em Sua fidelidade inexplicável, é realmente um Deus de justiça que, no fim de todas as coisas, seca toda lágrima e transforma desertos em jardins.




