Bíblia em Contos

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O Refinamento do Coração

O sol da tarde despejava seu último fulgor dourado sobre as ruas de terra batida de Canaã, enquanto Elias arrumava as últimas romãs na banca. Seus dedos calejados, marcados por setenta anos de trabalho, alinhavam as frutas com uma paciência que só o tempo ensina. Do outro lado da praça, seu neto Levi, de apenas doze anos, observava o movimento com olhos atentos. O menino era o oposto do irmão mais velho, Joás, que nesse momento embebedava-se num canto escuro, trocando gracejos vulgares com os vadios da cidade.

— Melhor um pedaço seco de pão com paz do que uma casa cheia de banquetes com discórdia — sussurrou Elias para si mesmo, os olhos perdidos na direção do filho mais velho. A voz saiu rouca, carregada de uma dor que nunca cicatrizava completamente.

Dentro de sua casa de pedra, a nora Raquel preparava o jantar. O cheiro do cozido de lentilhas se espalhava pela sala principal, onde os netos menores brincavam no chão. De repente, um barulho de vasos quebrando ecoou do quarto dos fundos. Joás voltara mais cedo, e trouxera consigo a tempestade habitual. Seus gritos embriagados misturavam-se com o choro abafado da esposa.

— Não adianta, pai — disse Levi, aproximando-se da banca com os olhos baixos. — O irmão já esqueceu o que o senhor ensinou.

Elias colocou uma mão pesada no ombro do neto. — O que é a prata para o fundidor e o ouro para o ourives, o coração é para o Senhor. Ele ainda está sendo refinado, meu menino.

Na manhã seguinte, a notícia correu pela vila como fogo no capim seco. O mercador Jafé, homem influente da região, fora pego usando pesos falsos em seu comércio de trigo. Os mesmos homens que na véspera bajulavam sua riqueza agora cochichavam nos cantos, apontando dedos acusadores. Elias viu a cena enquanto consertava a cerca de seu pequeno pomar. Um malfeitor dá atenção a lábios malignos, e o mentiroso dá ouvidos à língua destruidora, pensou. Não se surpreendeu quando soube que o filho de Jafé, cúmplice nas fraudes, fora o primeiro a espalhar boatos para tentar salvar a própria pele.

O calor do meio-dia trouxe consigo a visita inesperada de Natã, um homem de cabelos grisalhos e passos firmes que morava no vale vizinho. Há vinte anos, uma disputa por terras separara as famílias de Natã e Elias. O neto Levi observava de longe, segurando a respiração, quando viu o velho adversário do avô se aproximar.

— A paz esteja contigo, Elias — disse Natã, com uma cesta de figos nas mãos.

Por um instante, o silêncio pairou pesado como a umidade antes da chuva. Então Elias estendeu a mão. — Quem cobre uma ofensa promove amor, mas quem a lança em rosto separa amigos maiores. Entre, a comida está pronta.

Enquanto compartilhavam o pão, Levi notou como a reconciliação transformava os rostos envelhecidos. Seus olhos brilhavam com uma luz que não vinha apenas do sol que entrava pela janela.

A tarde trouxe nova provação. Uma mulher estrangeira, de vestes rotas, chegou à porta de Elias pedindo esmolas. Seus olhos tinham a profundidade de quem conhece a fome. Joás, que agora sóbrio ajudava nos reparos da casa, soltou uma gargalhada áspera.

— Mandemos embora essa praga, pai! Já temos problemas demais!

Mas Levi correu para dentro e voltou com um pão de cevada e um queijo. — Quem se compadece do pobre ao Senhor empresta — disse o menino, repetindo as palavras que o avô lhe ensinara desde pequeno.

Elias assentiu, orgulhoso. — O filho sábio é a alegria do pai, e o insensato, a tristeza de sua mãe.

O dia findou com as estrelas começando a pintar o céu escuro. Na varanda, Elias ensinava a Levi os segredos das constelações. De dentro da casa, vinham os risos dos netos menores e o coaxar ritmado dos sapos no riacho.

— Avô, por que o irmão Joás não entende essas coisas? — perguntou Levi, seu rosto juvenil iluminado pela lamparina.

Elias suspirou, seu olhar perdendo-se na escuridão além da casa. — Quem retém as palavras possui o conhecimento, e o ser de espírito frio é insensato. Teu irmão ainda não aprendeu que a sabedoria vale mais que o ouro.

Naquele momento, Joás passou por eles carregando uma bilha de água. Parou por um instante, e pela primeira vez Levi viu algo diferente nos olhos do irmão — não raiva, mas uma centelha de reflexão. Talvez fosse o início do refinamento de que falara o avô.

Antes de se recolher, Elias fez uma última oração sob as estrelas. Lembrou-se de todos os provérbios que haviam guiado seu longo caminho. O Senhor não rejeita para sempre, pensou. Às vezes a justiça vem como o mercador apanhado em seu próprio laço, outras vezes como a reconciliação que cura feridas antigas. E sempre, sempre, a sabedoria se mostra mais preciosa que rubis, brilhando mesmo nas noites mais escuras, esperando apenas por olhos dispostos a ver.

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