Bíblia em Contos

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O Cântico do Templo

O sol da tarde começava a se despedir sobre Jerusalém, tingindo as pedras do Templo com tons de mel e cobre. No pátio exterior, um homem idoso de barbas brancas como a neve do Hermon se apoiava em seu cajado de amêndoa, observando os sacerdotes prepararem o sacrifício da tarde. Seu nome era Efraim, um dos cantores do Templo, cuja voz outrora potente agora sussurrava como brisa entre as oliveiras.

Seus olhos, marcados pelas décadas, percorriam as colunas de mármore, as cortinas de linho fino, os altares de bronze polido. Cada pedra contava uma história. Cada sombra guardava uma memória. Ele sentia o cheiro do incenso misturado ao aroma da lenha queimando, e seu coração se enchia de uma gratidão profunda, antiga como as montanhas que cercavam a cidade sagrada.

“Louvai ao SENHOR,” murmurou ele, como se conversasse com o vento. “Louvai o nome do SENHOR.”

Seus lábios se moveram em oração silenciosa enquanto recordava as palavras que cantara por tantos anos. Não eram apenas versos decorados, mas histórias vivas que corriam em seu sangue. Histórias que seu avô contava ao redor da fogueira no deserto, histórias que seu pai entoava enquanto moldava vasos de barro.

“Porque o SENHOR escolheu a Jacó para si,” sussurrou, sentindo as lágrimas nos olhos, “e a Israel para sua possessão peculiar.”

Ele se lembrou dos anos no Egito, não por tê-los vivido, mas por carregá-los na alma como herança coletiva. Ouvira tantas vezes o relato das pragas, da noite sangrenta, da libertação milagrosa. Como um rio subterrâneo, essas memórias alimentavam sua fé.

“Ele feriu os primogênitos do Egito,” cantarolou baixinho, “desde os homens até aos animais.”

Seu olhar se perdeu no horizonte, onde o sol agora beijava os montes da Judeia. Em sua mente, via Faraó orgulhoso diante de Moisés, via as águas do Nilo vermelhas como sangue, via o grito das mães egípcias na noite da décima praga. E depois, a travessia – milagre sobre milagre.

“Mandou sinais e prodígios no meio de ti, ó Egito,” continuou sua voz rouca, “sobre Faraó e sobre todos os seus servos.”

O crepúsculo aprofundava seus tons púrpura quando Efraim começou a enumerar as conquistas, não como lista seca, mas como epopeia familiar. Seogom, rei dos amorreus, e seu companheiro Ogue, rei de Basã – gigantes cujas camas de ferro ainda assombravam as lendas. Como pedras no riacho, todos os reis cananeus caíram diante do povo errante que carregava a arca da aliança.

“E deu a terra deles em herança,” suas mãos trêmulas se apertaram no cajado, “em herança a Israel, seu povo.”

O primeiro astro apareceu no céu que escurecia, e Efraim sentiu uma paz profunda. Seus olhos percorreram o pátio vazio agora, mas em sua imaginação ele via o deserto – imenso, implacável, sagrado. Via as tendas armadas ao redor do tabernáculo, ouvia o som dos shofares ao amanhecer.

“O teu nome, ó SENHOR, permanece para sempre,” disse ele com convicção, “e a tua memória de geração em geração.”

Ele sabia, com a certeza de quem passa a vida estudando os rolos sagrados, que os deuses dos outros povos eram apenas obras humanas – prata e ouro, bocas que não falam, olhos que não veem. Mas o Deus de Israel era diferente. Era o que ouvia o clamor dos oprimidos, que respondia ao incenso dos sacerdotes, que falava através dos profetas.

“Ó casa de Israel, bendizei ao SENHOR,” sua voz encontrou força repentina, ecoando suavemente nas pedras.

“Ó casa de Arão, bendizei ao SENHOR.” Seus olhos brilharam ao lembrar de seu próprio avô, descendente de Levi.

“Ó casa de Levi, bendizei ao SENHOR.” Ele mesmo, um cantor do Templo, continuando a linhagem.

“Vós que temeis ao SENHOR, bendizei ao SENHOR.”

A noite finalmente envolveu Jerusalém, e as estrelas acenderam suas lamparinas celestes. Efraim se levantou com dificuldade, suas juntas rangendo, mas seu espírito leve como pluma. Enquanto se afastava, suas últimas palavras misturaram-se ao vento noturno:

“Bendito seja o SENHOR desde Sião, que habita em Jerusalém.”

E na escuridão sagrada, entre o aroma residual do incenso e o silêncio que sussurrava orações, parecia que as próprias pedras do Templo ecoavam seu amém.

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