Bíblia em Contos

Bíblia em Contos

Bíblia

Jó no Monturo da Dor

O vento noturno uivava como um animal ferido nas frestas da minha tenda. Há tanto tempo que essa dor me habita que já não sei distinguir onde termina o meu corpo e onde começa a agonia. Minha respiração é um fôlego curto, um assovio rouco que mal preenche os pulmões. A pele, outrora firme, agora pendia sobre meus ossos como um manto gasto pela intempérie.

Minha esposa já não me olhava nos olhos. Ela vinha trazer água e pão, mas seus dedos tremiam ao se aproximarem dos meus, como se eu carregasse uma praga contagiosa. Eu via o reflexo do meu rosto nos seus olhos úmidos: um espectro de olhos fundos, pele marcada por chagas que nunca cicatrizavam. Ela se afastava rapidamente, e eu ouvia seu suspiro de alívio do lado de fora. Quem eu me tornei para causar tanto temor?

Meus amigos… aqueles que um dia se assentaram ao meu lado em banquetes, que compartilharam do azeite de minhas oliveiras e do vinho de minhas vinhas, agora se reuniam em círculo do lado de fora. Suas vozes chegavam até mim em fragmentos, pedaços de sentenças que mais pareciam pregações fúnebres. “Deve haver um pecado oculto”, dizia um. “Nenhum homem sofre assim sem causa”, completava outro. E eu aqui, deitado sobre este monturo, com o cheiro de cinzas e podridão impregnado em minhas vestes. Eles transformaram minha dor em um debate teológico, minha agonia em um caso de estudo.

Minha esperança… onde foi parar minha esperança? Era como um rio que secou sob o sol implacável, deixando apenas as marcas de onde suas águas um dia correram. Até meus olhos se recusavam a ver beleza no mundo. A luz do entardecer, que antes pintava o deserto com tons de ouro e púrpura, agora me parecia pálida e sem vida. Tudo estava envolto em sombras, como se o próprio Criador tivesse virado o rosto de mim.

Lembro-me dos dias em que minha casa era cheia de risos. Sete filhos, três filhas… suas vozes ecoavam pelos pátios, suas brincadeiras animavam as refeições. Agora, só restava o silêncio. Um silêncio pesado, que se instalou após o vendaval, após o fogo, após todas as tragédias que levaram meus amados. Às vezes, no limiar entre o sono e a vigília, eu os ouvia chamar por mim. Mas era só o vento, sempre o vento.

Meus amigos insistiam que eu devia confessar. “Reconhece tua culpa, Jó, e Deus terá misericórdia”, diziam. Mas que culpa? Eu procurava em minha alma, revirava cada canto da minha memória, e não encontrava nada que justificasse tanto sofrimento. Eu havia vivido com retidão, ajudado o necessitado, corrigido injustiças. Por que então esta ruína completa?

Minha vida se esvai como água derramada na areia. Meus ossos parecem lascas de madeira seca, prestes a estalar. A morte não me assusta mais – ela se tornou uma companheira constante, uma sombra que se alonga a cada pôr do sol. Às vezes, penso que já estou no Sheol, no lugar dos mortos, e que esta existência é apenas um prolongamento da agonia.

Mas ainda há uma centelha teimosa dentro de mim, um último fio de desafio. Se vou perecer, que seja falando a verdade que conheço. Se vou descer à sepultura, que seja com a integridade que sempre me guiou. Não aceitarei acusações falsas, não confessarei pecados que não cometi. Que Deus faça o que Lhe aprouver – minha consciência está limpa.

Olho para minhas mãos, outrora fortes, agora trêmulas e cobertas de feridas. Estas mãos que abençoaram órfãos, que fizeram justiça, que acariciaram os rostos de meus filhos. Se esta é a recompensa por uma vida de retidão, então que significado tem a justiça? Onde está o propósito na dor?

O dia clareava lentamente. Pelas frestas da tenda, entrava uma luz fraca, cinzenta. Não era o amanhecer glorioso de outrora, mas um novo dia de sofrimento. Respirei fundo, sentindo as costelas doerem com o movimento. A jornada continuaria, com ou sem esperança. Meus amigos logo voltariam com seus discursos prontos, suas certezas inflexíveis. E eu estaria aqui, no meu monturo, com minhas perguntas sem resposta e minha fé despedaçada – mas ainda minha.

Porque no fim, quando tudo mais foi tirado, restou apenas isso: o direito de clamar ao céu vazio, de questionar o silêncio divino, de permanecer quem eu era, mesmo na completa ruína. E talvez, só talvez, nesse grito no deserto, houvesse um tipo estranho de oração.

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *