Bíblia em Contos

Bíblia em Contos

Bíblia

Humilhação e Vingança de Davi

O sol da tarde pintava de ouro as paredes de pedra de Jerusalém quando o mensageiro amonita desceu de seu camelo trêmulo diante dos portões do palácio. Seus olhos, marcados pela poeira da viagem, buscavam com urgência a figura do rei Davi. O cheiro acre de suor animal e terra seca impregnava o ar enquanto ele aguardava, torcendo os dedos enluvados.

Dentro dos aposentos reais, Davi descansava sobre almofadas de linho, revisando rolos de censos tribais. Quando anunciaram o enviado de Hanum, rei de Amom, ergueu-se com interesse. A memória do bondoso tratamento dado a Hanum, filho de seu antigo aliado Naás, ainda fresca em sua mente.

“O rei de Amom partiu desta vida”, anunciou o mensageiro com a voz rouca, curvando-se até tocar o chão com a testa. “Meu senhor Hanum sucede-lhe no trono.”

Davi sentiu um nó na garganta. Lembrou-se de Naás — um homem de rosto marcado pelo sol do deserto, mas de coração leal. Sem hesitar, ordenou que preparassem uma comitiva com coroas de prata, ânforas de azeite perfumado e tecidos de púrpura. Escolheu pessoalmente os homens que levariam suas condolências: sábios de barbas grisalhas e guerreiros de olhar sereno.

A viagem até Rabá, capital amonita, levou três dias sob um céu de azul intenso. Quando os emissários judeus avistaram as muralhas de calcário branco, o sol nascente as fazia cintar como pérolas. Mas a recepção que encontraram não foi de luto respeitoso, e sim de desconfiança armada.

Nos salões do palácio amonita, Hanum ouvira os sussurros venenosos de seus conselheiros. “Achas que ele vem por bondade, ó rei? São espiões, vieram sondar nossas fraquezas!” O jovem soberano, inseguro no trono recente, deixou que o medo envenenasse sua razão.

Na manhã seguinte, quando os emissários de Davi se apresentaram diante do trono, guardas amonitas cercaram-nos abruptamente. Sem cerimônia, rasgaram-lhes as túnicas até a cintura, expondo sua nudez ao riso cruel da corte. Metade da barba foi rapada à força, deixando seus rostos assimétricos e grotescos. Por fim, expulsaram-nos da cidade como animais doentes, cuspidos para além dos portões.

A vergonha que sentiram era mais cortante que qualquer lâmina. Caminharam dias inteiros evitando povoados, escondendo-se em cavernas quando ouviam passos na estrada. As faces incompletas ardiam ao vento, e o olhar de quem os via fugindo era um segundo insulto.

Em Jerusalém, quando Davi soube, seu rosto tornou-se pedra. Não era a afronta a si que o feriu, mas a humilhação infligida a homens honrados. Enviou mensageiros ao encontro dos emissários, ordenando que permanecessem em Jericó até que a barba crescesse. “Dizei-lhes que sua honra é minha honra”, determinou o rei, enquanto suas mãos se fechavam em punhos.

Hanum, percebendo a tempestade que provocara, começou a preparar-se para a guerra. Contratou mercenários arameus de Sobá e Maacá — trinta e tantos carros de guerra e generais experientes — pagando-lhes mil talentos de prata. A notícia chegou a Davi através de mercadores que viram exércitos se reunindo como nuvens de gafanhotos.

O rei hebreu não vacilou. Enviou Joabe com todo seu exército experiente, homens cujas cicatrizes contavam histórias de vitórias passadas. A marcha até Rabá foi silenciosa, apenas o rangido de armaduras e o resfolegar dos cavalos quebrando o silêncio.

Ao avistarem as planícies diante da cidade, porém, encontraram não um, mas dois exércitos posicionados: os amonitas diante dos muros, os sírios vindos do deserto em formação de pinças. Joabe, com a visão estratégica que o tornara lendário, dividiu suas forças. Escolheu os melhores soldados para enfrentar os sírios, e confiou o grosso do exército a seu irmão Abisai, para conter os amonitas.

“Se os sírios forem fortes demais para mim, virás em meu auxílio”, disse Joabe a Abisai, ajustando o elmo. “E se os amonitas te superarem, eu virei. Seja forte, e lutemos com bravura por nosso povo e pelas cidades de nosso Deus. O Senhor fará o que Lhe aprouver.”

A batalha começou ao som de trombetas. Joabe avançou contra os sírios como uma tempestade, rompendo suas linhas com fúria divina. Homens tropeçavam em corpos, lanças quebravam-se em escudos, e o grito “Pelo Senhor!” ecoava mais alto que o ruído metálico do combate. Vendo a debandada síria, os amonitas recuaram para trás das muralhas sem sequer enfrentar Abisai.

Mas a guerra não terminara. Hadadezer, rei de Zobá, enviara reforços comandados por Sobaque, seu general mais temido. Davi, ao receber a notícia, reuniu todo Israel e atravessou o Jordão pessoalmente. A batalha final deu-se em Helã, onde as águas do rio testemunhariam o veredito.

Os israelitas formaram linhas de batalha ao romper do dia, enquanto a névoa matinal ainda beijava a terra. Davi, no centro de suas tropas, orou em silêncio antes do primeiro choque. Quando as trombetas soaram, foi como se o próprio céu se abrisse.

A carnificina foi terrível. Sete mil condutores de carros sírios caíram, e quarenta mil homens de infantaria pereceram sob as espadas israelitas. Sobaque, o general, morreu pela mão pessoal de Davi, seu corpo tombando sobre a bandeira de Zobá. Os reis vassalos de Hadadezer, vendo a derrota, firmaram paz separada com Israel, tornando-se seus servos.

Ao entardecer, enquanto os corvos começavam a circular sobre o campo de batalha, Davi caminhou entre os corpos. O cheiro de sangue e terra molhada enchia o ar. Um de seus soldados, ferido, estendeu a mão ensanguentada em sua direção. O rei a tomou, e naquele gesto simples entendia-se toda a história: honras quebradas exigem reparação, mas cada vitória carrega o peso sagrado de vidas ceifadas.

Os amonitas, trancados em Rabá, observavam de suas muralhas a poeira baixar sobre um exército derrotado. Sabiam que o cerlogo viria — mas essa já seria outra história, escrita em dias futuros sob um céu igualmente implacável.

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *