O sol da tarde descia sobre Jerusalém como um manto dourado, cobrindo as pedras claras do palácio com sombras alongadas. No quarto do rei, o ar pesava, carregado do cheiro de unguentos e cera de abelha queimando. Davi, outrora o guerreiro ágil que dançara diante da arca, agora jazia sob cobertores de lã fina, seus ossos frágeis como gravetos secos.
“Chamem Salomão”, sussurrou o rei, sua voz tão áspera como pedras sendo arrastadas.
Quando o jovem príncipe entrou, a luz fraca da lâmpada de óleo acentuou a seriedade em seus olhos. Davi fitou o filho, vendo nele não apenas herdeiro, mas a continuação de uma aliança sagrada.
“Aproxima-te, meu filho”, disse Davi, erguendo uma mão trêmula. “Eu sigo o caminho de toda a terra. Sê forte, portanto, e mostra-te homem.”
O velho rei fez uma pausa, sua respiração um fio tênue entre a vida e o que viria. “Guarda a guarda do Senhor teu Deus, andando nos seus caminhos, guardando os seus estatutos, e os seus mandamentos, e os seus juízos, e os seus testemunhos, como está escrito na lei de Moisés…”
Salomão inclinou a cabeça, sentindo o peso das palavras como uma coroa já descansando sobre suas têmporas.
Então a voz de Davi ganhou urgência, o tom mudando de exortação espiritual para instruções terrivelmente terrenas. “Tu bem sabes o que me fez Joabe, filho de Zeruia… matou a sangue fria dois homens mais justos e melhores do que ele.” Os olhos do rei velho brilharam com a memória da traição. “Não deixes que suas cãs desçam em paz à sepultura.”
E sobre Simei, aquele que amaldiçoara Davi durante a fuga de Absalão: “Eis que tens contigo Simei… faze-lhe descer à sepurança com sangue.”
Mas para os filhos de Barzilai, o gileadita que sustentara o rei no exílio, Davi pediu misericórdia. “Mostra-lhes bondade, que comam à tua mesa.”
Quando Davi finalmente descansou sua cabeça no travesseiro, seu último suspiro misturou-se com o aroma do incenso. Salomão ficou sozinho, as palavras do pai ecoando na câmara silenciosa.
Os dias que se seguiram foram de luto público, mas nos aposentos privados do novo rei, os assuntos de estado não podiam esperar. Adonias, o irmão que antes tentara usurpar o trono, aproximou-se de Bate-Seba com um pedido aparentemente inocente: Abisague, a sunamita que aquecera o leito de Davi em seus últimos dias.
Bate-Seba entrou na presença do filho, e Salomão levantou-se para recebê-la, mandando colocar um trono para a rainha-mãe à sua direita.
“Um pequeno pedido te faço”, disse ela, “não me torneis o rosto sombrio.”
Quando Bate-Seba mencionou o desejo de Adonias, porém, os olhos de Salomão escureceram. Ele compreendeu imediatamente o significado oculto: naquela cultura, reivindicar uma concubina do rei morto era reivindicar o trono.
“Por que pedes Abisague, o sunamita, para Adonias?”, perguntou Salomão, sua voz baixa mas cortante como lâmina. “Pedi também para ele o reino, pois é meu irmão mais velho.”
Naquele momento, o juízo foi pronunciado. Benaías, filho de Joiada, comandante da guarda real, recebeu a ordem fatal. A espada encontrou Adonias enquanto ele ainda imaginava que seu estratagema havia passado despercebido.
Abiatar, o sacerdote que apoiara Adonias, foi poupado da morte por ter carregado a arca diante de Davi, mas foi exilado para Anatote, suas vestes sacerdotais trocadas pelas roupas simples de um agricultor.
Quando a notícia chegou a Joabe, o velho guerreiro correu para o tabernáculo, agarrando-se às pontas do altar como se fossem sua última tábua de salvação no meio de um mar revolto. Mas as manchas de sangue inocente em seu manto militar falavam mais alto que qualquer apelo ritual.
Salomão enviou Benaías com ordens claras: “Vai, e arremete contra ele.”
Joabe recusou-se a abandonar o santuário. “Não, mas morrerei aqui.”
Benaías voltou ao rei, incerto. Salomão não hesitou: “Faze como ele disse, e arremete contra ele, e sepulta-o.” A justiça, ainda que tardia, foi executada no próprio lugar onde Joabe buscara refúgio.
Simei recebeu uma sentença diferente: confinamento em Jerusalém, com a promessa de morte se cruzasse o vale de Cedrom. Por três anos, o benjamita obedeceu, até que dois de seus servos fugiram para Gate. Na pressa de recuperá-los, Simei cavalgou além dos limites permitidos.
Benaías encontrou-o preparando-se para o jantar, a poeira da estrada ainda em suas roupas. O som da espada saindo da bainha foi a última coisa que Simei ouviu antes de cumprir-se a maldição que ele mesmo lançara contra Davi.
O texto sagrado encerra com uma simples declaração: “E o reino foi estabelecido na mão de Salomão.” Mas entre essas linhas, havia o silêncio de um palácio que respirava aliviado, de uma nação que encontrava finalmente estabilidade, e de um jovem rei que aprendera que governar significava às vezes manchar as mãos para manter limpa a herança recebida.
Nas noites que se seguiram, Salomão caminhava sozinho nos terraços do palácio, olhando as estrelas que seu pai tantas vezes contemplara. E nas profundezas de sua alma, começava a germinar a sabedoria que um dia pediria em Gibeão, compreendendo que o verdadeiro governo vinha não apenas do trono, mas do temor àquele que é o verdadeiro Rei sobre todos.




