Naqueles dias, quando ainda não havia rei em Israel, uma certa inquietação pairou sobre o vale onde a tribo de Dã estava estabelecida. A terra não lhes bastava, apertava-lhes os flancos como um cinto velho e curtido pelo sol. Os filisteus, esses sim, tinham terras férteis e largas, enquanto os danitas se debatiam num pedaço de terra que mal dava para sustentar seus rebanhos.
Foi então que os anciãos escolheram cinco homens, dos mais corajosos e astutos, para que fossem espiar a terra, buscar um lugar onde pudessem fincar suas tendas em paz. Entre eles estava um sujeito chamado Jarela, homem de ombros largos e olhos que pareciam sempre enxergar além do óbvio.
A jornada foi longa. Subiram serras, atravessaram riachos que cortavam o chão como fios de prata, até que chegararam às montanhas de Efraim. O cansaço já lhes pesava nas pernas quando avistaram uma casa solitária no alto de um outeiro. A fumaça que saía do telhado cheirava a pão fresco e carne cozida.
Era a casa de um homem chamado Mica. Os cinco estranhos se aproximaram com cautela, mas foram recebidos com estranha cordialidade. Mica, um homem de meia-idade com um sorriso que não chegava aos olhos, insistiu para que ficassem, que repousassem. Ele tinha razões para ser hospitaleiro – havia pouco tempo, estabelecera um santuário em sua própria casa. Um éfode, alguns ídolos caseiros, e até conseguira que um dos seus próprios filhos servisse como sacerdote.
Enquanto comiam pão de cevada e bebiam vinho aguado, os olhos de Jarela percorreram a sala. Num canto, meio escondido por uma cortina de linho, avistou o éfode brilhando fracamente. E os ídolos, pequenas figuras de prata, pareciam observar a cena com olhos vazios.
— Quem é aquele jovem? — perguntou Jarela, indicando com a cabeça o rapaz que servia a mesa.
— É o meu sacerdote — respondeu Mica, com orgulho na voz. — Um levita de Belém, que contratiei para cuidar das coisas sagradas. Assim tenho certeza de que o SENHOR está comigo.
Os danitas trocaram olhares rápidos. Um levita contratado? A coisa cheirava a oportunidade.
Na manhã seguinte, antes de partirem, os cinco espiões subiram até o topo do outeiro. Dali avistaram uma cidade adormecida no vale, cercada por colinas verdejantes. Laís – o nome ecoou entre eles como uma promessa. O lugar era tranquilo, seus habitantes viviam despreocupados, longe de qualquer aliança que pudesse protegê-los. Um alvo fácil.
Quando retornaram aos seus irmãos em Zorá e Estaol, a descrição que fizeram não foi apenas de um lugar, mas de uma dádiva.
— A terra é boa, vocês não imaginam — Jarela falou com os olhos brilhando. — E o povo? Vive como os sidônios, tranquilo, seguro. Não há neles falta de coisa alguma na terra. Mas estão longe dos sidônios, e não têm relações com ninguém.
Não foi difícil convencer seiscentos homens armados a seguirem com eles. Partiram como uma nuvem escura descendo das montanhas, com seus carroções e armas tilintando numa melodia belicosa.
No caminho, Jarela lembrou-se da casa de Mica.
— Aquele levita… e os ídolos… — sussurrou para os companheiros. — Seria uma bênção para nossa empreitada.
A tropa parou diante da casa no outeiro. Os cinco homens que haviam estado lá antes entraram, enquanto os outros seiscentos esperavam do lado de fora, em silêncio ameaçador.
Dentro, o levita – um jovem de rosto afilado chamado Jônatas – estava rezando diante dos ídolos. Os danitas não perderam tempo.
— Pegue o éfode, os ídolos, a imagem de fundição — ordenou Jarela, num tom baixo mas firme. — Estão conosco agora.
Mica chegou correndo, o rosto descomposto.
— O que estão fazendo? Roubando meus deuses?
Jarela olhou para ele sem piedade.
— Cala a boca, homem. Se não quiseres que a tua vida seja tirada junto com a de toda a tua casa.
Mica recuou, impotente, vendo os danitas carregarem todo o seu santuário caseiro. E o levita? Quando perguntaram se queria vir com eles para ser sacerdote de uma tribo inteira em vez de uma só casa, ele concordou sem hesitar. O brilho nos seus olhos era o mesmo de Mica quando exibira seus deuses caseiros – ambição disfarçada de devoção.
A cidade de Laís caiu como um fruto maduro. Os danitas passaram todos ao fio da espada e queimaram a cidade até que só restassem cinzas e memórias. Sobre as ruínas, reconstruíram o lugar e lhe deram o nome de Dã, em homenagem ao pai de sua tribo.
E no centro da nova cidade, ergueram um santuário. Lá colocaram a imagem esculpida que tinham roubado, e Jônatas, o levita, e seus filhos depois dele, serviram como sacerdotes perante aquele ídolo mudo. Ali, naquela cidade que haviam conquistado com sangue e astúcia, estabeleceram sua própria religião, longe do verdadeiro santuário em Siló.
E assim ficou, geração após geração, até que o cativeiro assírio varreu aquelas terras. A casa de Deus continuou em Siló, mas em Dã, o eco vazio de ídolos roubados sussurrava nos ventos que desciam das montanhas de Efraim. E o povo, que outrora buscara uma terra, perdeu-se no caminho de adorar deuses que cabiam na palma da mão.




