A tarde caía sobre o acampamento com um manto pesado de calor. O sol, como um brasido gigantesco, afundava atrás das montanhas de Moabe, tingindo de púrpura e ouro as tendas dispersas na planície. No centro do arraial, sentado sobre uma pedra lisa que servia de assento improvisado, o velho Ezequiel ajustava o manto sobre os ombros e observava os homens que se reuniam à sua volta. Seus olhos, profundos como poços antigos, percorriam os rostos marcados pelo deserto — alguns jovens, de barbas ainda ralas, outros veteranos cujas cicatrizes contavam histórias de batalhas e milagres.
“Avô,” começou um dos mais jovens, secando o suor do rosto com a ponta do turbante, “os cananeus que habitam a terra para a qual marchamos… dizem que seus santuários são impressionantes. Altos sobre os montes, cercados por carvalhos frondosos. Como poderemos competir com tanta grandiosidade?”
Ezequiel deixou escapar um suspiro que parecia carregar o peso de quarenta anos de errância. Seus dedos, nodosos como raízes de oliveira, traçaram círculos na poeira. “Não se trata de competir, meu filho,” disse, e sua voz era áspera como o granito moído. “O SENHOR nosso Deus não habita em templos construídos por mãos humanas. Lembrai-vos do Sinai — a montanha tremia, o fogo descia, e Ele falava do meio da escuridão. Que carvalho, que montanha alta poderia conter Sua glória?”
O grupo calou-se, ouvindo o som distante de cabras balindo e o estalar da lenha nas fogueiras que começavam a ser acesas. O ar cheirava a manjericão selvagem e fumaça.
“Ouvimos Moisés,” continuou Ezequiel, fechando os olhos como quem revê uma memória sagrada. “E suas palavras ecoam em mim até hoje. O SENHOR destruirá todos os lugares onde as nações que vocês vão desapossar cultuam seus deuses. Nos montes elevados, sob as árvores frondosas… cada altar, cada poste sagrado, cada imagem esculpida será reduzido a pó. E vocês,” abriu os olhos e fixou-os nos jovens, “não farão assim para com o SENHOR.”
Um homem mais velho, com o rosto queimado pelo sol, coçou a barba grisalha. “Mas, Ezequiel, nossos pais sempre ofereceram sacrifícios onde lhes convinha. No deserto, erguemos altares em diferentes paragens. Por que agora haveria um só lugar?”
O velho inclinou a cabeça, e uma sombra de tristeza cruzou seu rosto. “Porque estávamos a caminho. Éramos um povo em movimento, e a glória do SENHOR nos seguia na nuvem. Mas na terra da promessa… ah, na terra que mana leite e mel, Ele escolherá um lugar entre todas as tribos para ali pôr o seu nome. Um lugar para sua habitação. E a esse lugar vocês buscarão, para lá trarão seus holocaustos, seus sacrifícios, seus dízimos e as ofertas de suas mãos.”
O céu escurecia rapidamente, e as primeiras estrelas pontilhavam o manto azul-escuro da noite. Alguém acendeu uma lamparina de barro, cuja chama vacilante desenhou sombras dançantes nos rostos atentos.
“Como saberemos qual é o lugar?” perguntou um adolescente sentado aos pés de Ezequiel, seus olhos brilhando com a curiosidade da juventude.
“O SENHOR nos guiará, como sempre o fez. Mas ouçam bem,” e sua voz baixou para um tom mais grave, quase conspiratório, “quando atravessarem o Jordão e habitarem em casas que não construíram, comendo de vinhas e olivais que não plantaram, não se esqueçam da lei. Não ofereçam seus sacrifícios em qualquer altar que virem. Muitos serão belos, adornados com prata e ouro, incrustados de pedras preciosas. Mas são abominações ao SENHOR.”
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo canto noturno de um grilo. Ezequiel ergueu a mão, e a luz da lamparina acentuou as veias salientes em seu pulso. “Façam tudo o que eu lhes ordeno. Não acrescentem nem tirem coisa alguma. Quando o SENHOR tiver dado descanso de seus inimigos ao redor, e vocês morarem em segurança, então aquele lugar será revelado. E ali celebrarão perante Ele — vocês, seus filhos, suas filhas, seus servos e servas, e o levita que habita em suas cidades.”
Um sorriso brando apareceu nos lábios do velho. “Imaginem: uma festa perante o SENHOR. Comerão carne à vontade — não como no deserto, onde o maná era nosso sustento, mas sim os rebanhos que multiplicará em seus campos. E alegrem-se naquilo que suas mãos alcançarem, porque é o SENHOR quem abençoa o trabalho de vocês.”
O homem de barba grisalha tornou a falar, agora com um tom mais prático. “E os levitas? Alguns deles vivem entre nós, sem herança de terra. Como ficarão?”
“Boa pergunta, amigo. Cuidem deles. Não os abandonem. Pois os levitas não têm porção nem herança convosco — seu sustento virá das ofertas que vocês trouxerem ao lugar que o SENHOR escolher. Sejam generosos. Lembrem-se que também vocês foram estrangeiros na terra do Egito.”
Ezequiel fez uma pausa, bebendo um gole de água de um odre de cabra. A água escorria pela sua barba, misturando-se ao suor. “Há outra coisa,” disse, limpando a boca com as costas da mão. “Quando estiverem na terra, não se deixem seduzir pela curiosidade mórbida de como as nações serviam a seus deuses. Não perguntem: ‘De que modo estas nações serviam a seus deuses? Farei eu o mesmo?’ Não, mil vezes não. Pois tudo o que fazem para seus deuses é abominação ao SENHOR, inclusive o queimarem seus filhos e filhas no fogo.”
Um arrepio percorreu o grupo. Alguns cruzaram os braços, outros baixaram a cabeça. A realidade da terra prometida mostrava suas sombras — não apenas leite e mel, mas também idolatrias terríveis que exigiriam firmeza de caráter.
“Guardem todas as palavras que Moisés nos ordenou,” continuou Ezequiel, sua voz recuperando a força. “Não desviem para a direita nem para a esquerda. Andem sempre pelo caminho que o SENHOR seu Deus lhes ordenou, para que vivam, e lhes vá bem, e prolonguem seus dias na terra que hão de possuir.”
A noite já estava estabelecida, e o frio do deserto começava a substituir o calor do dia. As estrelas pareciam mais próximas, como faróis celestes apontando para o futuro. Ezequiel levantou-se com dificuldade, apoiando-se num cajado de madeira nodosa.
“Quando chegarem,” disse, dirigindo-se ao grupo pela última vez, “e vossos pés pisarem a terra santa, e vossas mãos colherem seus frutos, não se esqueçam. Tudo o que fizerem — cada sacrifício, cada festa, cada oração — façam no lugar que Ele escolher. Não como os cananeus, que pensam que seus deuses habitam em montanhas ou florestas, mas como um povo que sabe que seu Deus é maior que todos os lugares, embora digne-se a encontrar-se com eles em um só.”
O velho virou-se e começou a caminhar em direção à sua tenda, seu manto arrastando levemente na poeira. Os homens dispersaram-se em silêncio, cada um levando consigo não apenas um conjunto de regras, mas a visão de uma adoração futura — centralizada, pura, e profundamente ligada à terra que em breve chamariam de lar.
E sob o céu estrelado de Moabe, enquanto o vento noturno sussurrava entre as tendas, a promessa de um lugar de encontro com o Divino plantava suas raízes nos corações daqueles que herdariam a terra.




