O sol escaldante do deserto ardia sobre a areia pálida, transformando o acampamento de Israel num vasto forno a céu aberto. As tendas brancas estendiam-se como um mar inquieto ao pé do monte, abrigando um povo que carregava nas costas tanto a memória da escravidão quanto a promessa de uma terra.
Foi na tribo de Levi que a serpente da discórdia começou a sussurrar. Coré, homem de linhagem ilustre entre os coatitas, começou a reunir em sua tenda, durante as horas mais frescas da tarde, um grupo de homens de coração inflamado. Datã e Abirão, filhos de Eliabe, juntaram-se a ele, e com eles outros duzentos e cinquenta homens de renome na congregação.
Numa noite em que o vento soprava quente trazendo o cheiro de poeira e cardo, Coré falou com voz que tentava conter a paixão que lhe queimava por dentro. “Basta, irmãos. Todos na congregação são santos, cada um de nós. Por que então Moisés e Aarão se elevam acima da assembleia do Senhor?”
Os olhos dos homens brilhavam na penumbra da tenda, refletindo as chamas trêmulas das lamparinas. Datã, homem de ombros largos e mãos calejadas, falou com amargura: “Nos tirou do Egito, terra que mana leite e mel, para nos fazer morrer neste deserto. E ainda quer ser príncipe sobre nós?”
A murmuração cresceu como fogo em capim seco. Nos dias seguintes, o mal-estar espalhou-se por partes do acampamento. As mulheres notavam que seus maridos voltavam das reuniões com os lábios apertados e os olhos cheios de sombras.
Na manhã em que o conflito veio à tona, o céu estava de um azul pálido e translúcido. Coré e seus companheiros apresentaram-se diante da tenda do encontro, trajando suas vestes levíticas. Seus rostos estavam graves, seus passos determinados.
Moisés, ao vê-los aproximar-se, sentiu um peso frio no peito. Conhecia aquele brilho nos olhos dos homens – não era zelo pela santidade, mas o fogo da ambição disfarçado de piedade.
“Basta-vos!” – a voz de Moisés soou mais cansada do que irada – “Ouvi-me, filhos de Levi. Parece-vos pouco que o Deus de Israel vos tenha separado para o serviço do tabernáculo, permitindo-vos aproximar dele? Buscais também o sacerdócio?”
Coré manteve o rosto impassível, mas seus dedos apertaram-se em punhos junto ao corpo. “Não nos trates como insensatos, Moisés. Todos somos santos. Por que te exaltas acima da congregação?”
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo farfalhar das vestes ao vento. Moisés fitou-os por um longo momento, seus olhos escuros parecendo ler as almas daqueles homens.
“Pela manhã”, disse finalmente, “o Senhor mostrará quem é seu, e quem é santo. Coré, tu e teus companheiros, tomai incensários. Amanhã, perante o Senhor, acendereis neles fogo e oferecereis incenso. Então saberemos a quem o Senhor escolhe.”
Mas quando Moisés mandou chamar Datã e Abirão, estes responderam com desdém: “Não subiremos! Nos tiraste da terra que mana leite e mel para nos matares no deserto, e ainda queres dominar sobre nós?”
A ira acendeu-se então no rosto de Moisés. Dirigiu-se à tenda de Datã e Abirão, seguido pelos anciãos. Uma multidão curiosa e apreensiva formou um semicírculo a certa distância.
“Afastai-vos das tendas destes homens ímpios”, ordenou Moisés, sua voz carregada de urgência. “Não toqueis em nada do que lhes pertence, para que não pereçais em todos os seus pecados.”
A congregação recuou, um murmúrio de temor correndo entre as pessoas. O ar parecia ter ficado mais pesado, mais difícil de respirar.
Então aconteceu o que nenhum dos presentes esqueceria enquanto vivesse.
A terra sob as tendas de Coré, Datã e Abirão começou a estremecer levemente, como se algo enorme se movesse nas profundezas. Um ruído surdo e profundo cresceu, vindo das entranhas do deserto. De repente, com um estrondo que parecia rasgar o próprio firmamento, o chão abriu-se em fendas negras e terríveis.
As tendas, os pertences, os homens e suas famílias – tudo desapareceu naquele abismo que se abria como uma boca faminta. Os gritos duraram apenas instantes, abafados pela terra que se fechava sobre eles. Uma poeira fina elevou-se no ar, e um silêncio pesado como lápides desceu sobre o acampamento.
Mas o juízo não terminara. Do céu desceu fogo consumidor, que devorou os duzentos e cinquenta homens que ofereciam o incenso com seus incensários. O cheiro de carne queimada e enxofre impregnou o ar.
No dia seguinte, porém, o povo murmurava contra Moisés e Aarão: “Vós matastes o povo do Senhor!” A insensatez humana mostrava-se mais teimosa que a própria morte.
Enquanto a congregação se reunia contra eles, uma nuvem cobriu o tabernáculo. A glória do Senhor apareceu, e a voz divina falou a Moisés: “Retirai-vos do meio desta congregação, para que eu a consuma num momento.”
Mas Moisés e Aarão caíram sobre seus rostos, intercedendo pelo povo. “Ó Deus, Deus dos espíritos de toda carne”, suplicou Moisés, “pecará um só homem, e indignar-te-ás contra toda a congregação?”
O Senhor ordenou então que se tomasse um incensário de cada tribo, com o nome de cada príncipe gravado nele. Aarão também trouxe o seu. Puseram-nos perante a tenda do testemunho.
Na manhã seguinte, quando foram ver os incensários, apenas o de Aarão tinha florescido – brotara botões, desabrochara em flores e até amêndoas maduras cresceram num ramo seco. O milagre silencioso da amendoeira em flor testemunhava, mais que qualquer palavra, a escolha divina.
Os israelitas recolheram os incensários, agora santos, e fizeram deles chapas para o altar, como memorial perpétuo. Um lembrete de que a santidade não é conquista humana, mas dom divino. E que o deserto, antes de ser herança, é sempre escola.




