Bíblia em Contos

Bíblia em Contos

Bíblia

Aprendendo a Ser Santo

O sol da manhã já aquecia a areia quando o velho Avner saiu de sua tenda. O ar carregado do deserto trazia o cheiro seco da terra e o perfume distante de manjericão selvagem. Seus pés, calejados por décadas de jornadas, sentiam cada pedrinha através das sandálias de couro cru. Aquele era um dia importante para o menino Efraim, seu neto, que completava doze luas e agora aprenderia os caminhos do comer e do não comer.

— Vem, filho — chamou Avner, sua voz rouca como pedras sendo arrastadas no leito de um riacho seco.

Eles caminharam em direção às bordas do acampamento, onde a vida pulsava entre animais, crianças brincando e o constante trabalhar das mulheres moendo grãos. Pararam diante de um pequeno rebanho de cabras que pastavam restos de vegetação rala.

— Veja bem, Efraim — disse o ancião, apontando para uma cabra de pelo escuro. — Este animal rumina. Vê como ele move a mandíbula, devolvendo a erva à boca para triturá-la novamente? E seus cascos… veja como são divididos, fendidos em duas partes. Esse é o sinal. Ele é limpo. Podes comer de sua carne e oferecê-lo no altar.

Efraim observava com olhos atentos, sério como só um menino prestes a se tornar homem pode ser.

— E aquele, avô? — perguntou, apontando para um porco selvagem que fuçava a terra mais adiante, perto de um arbusto espinhento.

Avner fez um som grave na garganta.

— Aquele também tem o casco fendido, dividido em dois. Vês? Mas ele não rumina. Guarda a comida no estômago e nunca a devolve à boca para honrar o criador que a deu. Por isso é imundo para ti. Não tocarás em seu cadáver, não comerás de sua carne. Sua gordura não subirá como aroma agradável ao Senhor.

O menino ficou em silêncio, processando. Havia uma lógica naquilo, uma ordem que ia além do simples gosto ou necessidade.

Seguindo adiante, chegaram perto de onde algumas mulheres preparavam peixes trazidos do riacho próximo. O cheiro de escamas úmidas e água doce enchia o ar. Avner pegou um peixe grande, prateado, e mostrou ao neto.

— Olhe suas nadadeiras, Efraim, e suas escamas. Brilham ao sol, não é? Como pequenas armaduras. Esse podes comer. Mas aquele outro… — ele apontou para um bagre que uma das mulheres havia separado — … não tem escamas. É liso, escorregadio. Esse é impuro. Sua carne não entrará em tua tenda.

O velho então levou o menino para uma área mais rochosa, onde lagartos se escondiam entre as fendas.

— E estes pequenos, vês? Rastejam sobre o ventre. Não têm pernas para se erguerem diante de seu Criador. São imundos. O mesmo para os ratos, as doninhas, os camaleões… todos que se arrastam pela terra sem se elevarem.

Efraim observou um lagarto verde desaparecer numa fenda.

— E os pássaros, avô?

Avner olhou para o céu, onde abutres circulavam altos, aproveitando as correntes de ar quente.

— Aqueles que voam, mas se alimentam de morte… a águia, o abutre, o corvo… esses não tocarás. São carniceiros, impuros. Mas as pombas, as rolinhas, os gafanhotos de asas retas… esses sim, podes comer. Tudo que salta com pernas traseiras, entre os insetos, é permitido.

O sol já estava a pino quando começaram a voltar. Avner parou novamente, desta vez perto de uma vasilha de barro que havia caído no chão. Dentro, um pouco de água da noite anterior acumulara poeira e um inseto morto.

— Se um animal impuro cair em um vaso de barro, Efraim, tudo que estiver dentro se tornará impuro. Terás de quebrar o vaso. A impureza contamina. Mas se cair em uma fonte de água corrente, a água levará a impureza embora, pois a vida flui e se renova.

O menino assentiu, pensativo. Não eram apenas regras, percebia ele agora. Era uma forma de viver, de enxergar o mundo. Uma maneira de separar o puro do impuro, o sagrado do comum, em cada ato do dia a dia.

— Por que, avô? — perguntou ele, finalmente. — Por que tantas regras sobre o que podemos e não podemos tocar?

Avner colocou a mão enrugada sobre o ombro do neto. Seus olhos, embaçados pela idade, pareciam enxergar além das dunas.

— Porque somos peregrinos, meu filho. E o Senhor nos chama para sermos santos, como Ele é santo. Cada refeição, cada escolha, é um lembrete de que não somos como os outros povos. Pertencemos a Ele. E um dia, talvez, entenderemos plenamente a sabedoria por trás de cada detalhe.

Quando retornaram à tenda, o cheiro de cabra assada já enchia o ar. Efraim lavou as mãos na bacia de água antes de se sentar. E ao comer o pão sem fermento e a carne abençoada, sentiu pela primeira vez o peso e a beleza de ser separado. Não como superioridade, mas como responsabilidade. Como uma criança que aprende a não tocar no fogo não por medo do castigo, mas por entender o valor da própria vida que lhe foi dada.

E sob o céu noturno do deserto, pontilhado de estrelas que pareciam escamas prateadas no manto escuro do universo, o menino adormeceu com o som das cabras ruminando pacificamente do lado de fora, e o eco das palavras do avô: “Sereis santos, porque Eu sou santo.”

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *