A areia fina e amarelada do deserto ainda guardava o frescor da madrugada quando o povo começou a se aglomerar diante da montanha. Não era uma multidão barulhenta como em outros dias; havia um silêncio pesado, quase palpável, que descia sobre o acampamento como um véu. Moisés havia dado as instruções com uma solenidade que cortara qualquer riso despreocupado. Três dias de purificação. Três dias de fronteiras traçadas na areia, marcando um limite que não se podia ultrapassar. Lavaram as roupas, aquelas vestes empoeiradas da jornada, e agora esperavam.
O sol começava a aquecer a pedra da montanha quando uma névoa estranha desceu sobre o cume. Não era neblina comum, daquelas que se dissipam com a brisa. Era densa, cinzenta, e parecia pulsar com uma vida própria. Dos becos entre as tendas, as crianças se agarravam às pernas das mães, olhando para cima com olhos arregalados. Os homens mais velhos, acostumados com as tempestades de areia e os ventos cortantes do Sinai, trocavam olhares sérios. Aquilo era diferente.
De repente, um som rompeu o silêncio. Não era um som que se pudesse descrever com palavras humanas. Começou como um trovão distante, mas logo se multiplicou, aprofundou, tornou-se uma trombetada poderosa que não vinha de nenhum instrumento conhecido. Era como se a própria montanha estivesse gritando, um clamor que sacudia o ar e fazia vibrar o chão sob os pés descalços. O povo todo estremeceu, e um murmúrio de temor correu como um fio elétrico de uma tenda a outra.
Moisés, sozinho, caminhou em direção à base da montanha. Sua figura parecia pequena e frágil diante daquele maciço de rocha envolto em fumaça e som. A névoa no cume começou a brilhar com um fogo que não consumia. Chamas azuladas e alaranjadas lampejavam no interior da nuvem, e um fumo pesado, como de uma fornalha gigantesca, começou a subir ao céu, manchando o azul claro do amanhecer. O cheiro de enxofre e ozônio impregnou o ar.
A terra tremeu. Foi um tremor seco e profundo, como se um gigante adormecido sob a areia tivesse se virado. As panelas de barro tilintaram, e uma ou duas tendas mais frágeis tombaram. O povo, agora a uma distância segura, recuou ainda mais, seus rostos pálidos refletindo o fogo que ardiam no alto. O toque da trombeta aumentou de intensidade, tornando-se quase insuportável. Era um som que entrava pelos ossos.
Então, Moisés parou no limite, onde a areia dava lugar à rocha nua. Ele levantou os olhos para a montanha, e sua voz, embora fraca diante daquele estrondo, ergueu-se firme.
— Senhor! — chamou.
E a voz respondeu. Não era uma voz humana amplificada. Era uma voz que parecia brotar de todas as direções ao mesmo tempo, do ar, da rocha, do próprio sangue nas veias. Era grave, infinita, e cada sílaba era como uma pancada de martelo na bigorna do universo.
— Moisés.
O profeta inclinou a cabeça, seus ouvidos captando palavras que os outros não podiam discernir. O povo via sua figura em pé, dialogando com o fogo e a fumaça, e o temor se transformou em um pavor religioso. Eles compreenderam, naquele instante, que não era a um mensageiro, nem a um anjo, que eles ouviam. Era ao próprio Autor da Aliança.
A voz falou leis. Não eram apenas palavras; eram conceitos fundidos em realidade, princípios eternos sendo gravados na consciência de um povo. O ar ficou pesado com o peso da santidade. Cada mandamento ecoava na montanha e repercutia no coração de cada homem, mulher e criança. Era como se o próprio tecido da moralidade estivesse sendo tecido diante deles.
Ao final, Moisés se virou e caminhou de volta para o povo. Seu rosto estava transformado. Havia nele uma luz tênue, um reflexo da glória que testemunhara. O povo recuou diante dele, assustado. Até Arão, seu irmão, hesitou em se aproximar.
— Não tenham medo — disse Moisés, e sua voz soava diferente, mais profunda. — Deus veio para prová-los, para que o seu temor esteja diante de vocês, e não pequeis.
Mas o povo não se tranquilizou completamente. A experiência fora avassaladora. Eles haviam visto e ouvido o que nenhum povo antes deles testemunhara. A realidade de Deus tornara-se para eles algo tangível, perigoso e infinitamente sagrado.
Enquanto a névoa aos poucos se dissipava e o som da trombeta diminuía até se tornar um eco distante, o povo de Israel permaneceu ali, em silêncio, olhando para a montanha. Algo havia mudado para sempre. Eles não eram mais apenas um grupo de escravos libertos. Eram o povo da Aliança, um povo que ouvira a voz de Deus e sobrevivera para contar a história. A poeira do deserto ainda era a mesma, mas o ar que respiravam estava para sempre carregado do eco daquele encontro.




