Bíblia em Contos

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Bíblia

Memórias do Primeiro Homem

Era uma vez um homem chamado Adão, que já muito idoso, com a pele marcada por incontáveis estações e os olhos carregados de memórias de um jardão que já não existia, senão em seus sonhos mais vívidos. Ele costumava sentar à entrada de sua tenda, sob o crepúsculo dourado, e contar aos netos e bisnetos sobre um tempo em que a morte era uma estrangeira, um tempo em que ele caminhava com Deus na viração do dia. Suas mãos, calejadas pela labuta da terra agora amaldiçoada, gesticulavam suavemente ao descrever os rios de águas cristalinas e as árvores carregadas de frutos que não precisavam ser conquistados com o suor do rosto.

E Adão gerou um filho à sua semelhança. Deram-lhe o nome de Sete, que significa “concedido”, pois Eva dissera, com um suspiro que misturava alívio e esperança: “Deus me deu outro descendente no lugar de Abel, que Caim matou”. Sete cresceu sob o peso dessa herança dual — a lembrança de um paraíso perdido e a promessa de um redentor vindouro. Era um homem de feições sérias, que aprendera a cultivar a terra não como uma maldição, mas como um ato de fé, esperando pelo dia em que a serpente seria esmagada.

Os anos se acumularam sobre Adão como folhas secas sobre a terra, até que ele completou novecentos e trinta estações. E então, num dia comum, enquanto o vento soprava suave sobre os campos de cevada, Adão fechou os olhos e seu coração cansado parou de bater. Não foi uma morte dramática, mas tranquila, como o cair da noite após um longo dia. E ele voltou ao pó, da mesma terra que tanto trabalhara, e seu espírito retornou a Deus.

Sete, por sua vez, seguiu o ciclo da vida. Aos cento e cinco anos, tornou-se pai de Enos. Havia algo diferente naquele tempo — as escrituras dizem que foi então que os homens começaram a invocar o nome do Senhor. Enos aprendera com seu pai que, embora estivessem fora do jardim, poderiam ainda buscar a face d’Aquele que os criara. Ele construiu um altar de pedras não lavradas onde, ao anoitecer, elevava cânticos e orações que subiam com a fumaça do sacrifício.

O tempo era um rio que fluía inexorável. Sete viveu oitocentos e sete anos após o nascimento de Enos, gerando filhos e filhas cujos nomes se perderiam na névoa do esquecimento, mas cujas vidas ecoavam no grande tecido da humanidade. Suas mãos, que um dia tinham segurado as mãos enrugadas de Adão, agora acariciavam os rostos de netos e bisnetos. Até que um dia, sem cerimônia, sua história terrena chegou ao fim — novecentos e doze anos depois de ter começado.

Enos caminhava pela terra com um passo mais leve que seus antepassados. Havia nele uma centelha de esperança renovada. Quando tinha noventa anos, sua esposa deu à luz Cainã, cujo nome significava “posse” ou “ninho”, talvez refletindo o desejo humano por estabilidade num mundo em constante mudança. Enos ensinava a Cainã não apenas a semear e colher, mas a ouvir a voz sussurrante de Deus no murmúrio dos riachos e no canto dos pássaros.

Os dias de Enos somaram novecentos e cinco anos, e então ele adormeceu, reunindo-se a seus pais naquele sono profundo que precede o despertar final.

Cainã cresceu conhecendo o peso e a doçura da existência. Aos setenta anos, tornou-se pai de Maalaleel, nome que carregava ecos de louvor — “louvado seja Deus”. Havia nas gerações uma alternância curiosa entre nomes que falavam de dor e nomes que celebravam a graça, como se a humanidade oscilasse entre o luto pelo Éden perdido e a alegria pela promessa futura.

Cainã labutou na terra por oitocentos e quarenta anos após o nascimento de Maalaleel, testemunhando o lento espalhar da humanidade pelos vales e montanhas. Viu aldeias transformarem-se em cidades, ouviu as primeiras notas de flautas primitivas, observou as constelações girarem incontáveis vezes sobre sua cabeça. Sua morte chegou serenamente, aos novecentos e dez anos, quando seu corpo já não conseguia mais sustentar o fogo vital que o animara por quase um milênio.

Maalaleel, por sua vez, herdou não apenas os traços faciais de seus antepassados, mas também sua busca persistente por significado. Aos sessenta e cinco anos, tornou-se pai de Jarede, cujo nome sugeria “descida” ou “queda”, talvez um presságio dos tempos que estavam por vir. Maalaleel notava que o mundo estava mudando — as estações pareciam mais imprevisíveis, os corações humanos mais endurecidos. Mas ele mantinha viva a chama da fé, acendendo fogueiras de adoração nas colinas ao redor de seu acampamento.

Viveu oitocentos e trinta anos após o nascimento de Jarede, anos preenchidos com o trabalho diário e a contemplação noturna. Quando finalmente faleceu, aos oitocentos e noventa e cinco anos, seus descendentes o enterraram numa cova simples, marcando o local com uma pedra onde gravaram seu nome — um testemunho silencioso de uma vida longa e bem vivida.

Jarede chegou ao mundo num período de crescente turbulência. Aos cento e sessenta e dois anos — a idade mais avançada até então para se tornar pai —, sua esposa deu à luz Enoque. Havia algo extraordinário na criança desde o início — seus olhos pareciam ver além do mundo visível. Jarede, homem de poucas palavras mas de profunda intuição, sabia que este filho era diferente.

Enoque cresceu com um pé no mundo terreno e outro no celestial. Enquanto seus contemporâneos se preocupavam com colheitas e rebanhos, ele caminhava sozinho pelas colinas, conversando com Deus como um homem fala com seu amigo. Aos sessenta e cinco anos, tornou-se pai de Matusalém, cujo nome continha um mistério — “quando ele morrer, será enviado”. Era como se Enoque soubesse algo sobre o futuro que escapava aos demais.

Por trezentos anos após o nascimento de Matusalém, Enoque andou com Deus. Não era uma metáfora — era uma realidade tangível em sua vida. Homens e mulheres sussurravam sobre ele, sobre como sua presença trazia uma estranha paz, como se o Éden não estivesse completamente perdido. Até que um dia, sem aviso prévio, Enoque desapareceu. Deus o tomou para si — não houve corpo para sepultar, não houve luto tradicional. Apenas um silêncio perplexo e a certeza de que um homem havia transcendido a morte sem experimentá-la.

Matusalém, agora órfão de um pai que não morrera, carregou o peso do nome profético. Viveu mais do que qualquer outro homem — novecentos e sessenta e nove anos. Tornou-se pai de Lameque aos cento e oitenta e sete anos. Lameque, por sua vez, gerou um filho a quem deu o nome de Noé, dizendo: “Este nos consolará acerca de nossas obras e do trabalho de nossas mãos, por causa da terra que o Senhor amaldiçoou”.

Matusalém testemunhou o mundo descendo a uma espiral de violência e corrupção. Viu a tecnologia humana avançar — instrumentos de bronze e ferro, cidades fortificadas, música complexa — enquanto a moralidade decaía. Em seus últimos anos, já completamente grisalho, com a visão enfraquecida mas a mente ainda afiada, ele segurava o pequeno Noé no colo e sussurrava histórias sobre Enoque, sobre Adão, sobre o jardão e a promessa. Sua vida extraordinariamente longa era uma ponte viva entre o paraíso perdido e o julgamento vindouro.

Quando Matusalém finalmente faleceu — no mesmo ano em que as águas do dilúvio começariam a cair —, partiu levando consigo memórias de um mundo que logo deixaria de existir. Seu último suspiro ecoou o de todos os seus antepassados, cada um deles um elo na corrente que levaria à preservação da humanidade através de Noé e da arca.

E assim a história continuou, geração após geração, cada vida uma narrativa única entrelaçada no grande tapete do propósito divino, cada morte um ponto final que, paradoxalmente, não encerrava a história, mas a propelia em direção ao cumprimento da promessa feita no jardim, muito tempo atrás.

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