Bíblia em Contos

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A Noite da Exortação às Margens do Tibre

Era uma vez, numa pequena igreja doméstica às margens do Rio Tibre, um grupo de cristãos perseverava sob a sombra ameaçadora da perseguição romana. Entre eles destacava-se Lucas, um homem de cabelos prateados e olhos que guardavam a sabedoria de quem havia conhecido pessoalmente o apóstolo Paulo.

Naquela noite úmida de outono, enquanto tochas tremeluziam contra a escuridão que se adensava, Lucas reuniu os irmãos para compartilhar palavras que ecoavam da recente epístola aos Hebreus. O ar carregava o perfume das flores de lótus misturado ao aroma de pão fresco que Marta, viúva de semblante sereno, preparara para a ceia.

“Amados, lembrai-vos sempre do laço indissolúvel do amor fraternal”, começou Lucas, suas mãos calejadas acariciando o rolo de pergaminho. “Como as videiras que se entrelaçam no campo do nosso irmão Marco, assim devem nossos corações permanecer unidos.”

Do canto da sala, um jovem chamado Samuel abaixou a cabeça, lembrando-se de como havia negado abrigo a um viajante cristão na semana anterior. Seus olhos encheram-se de lágrimas quando Lucas prosseguiu: “Não negligencieis a hospitalidade, pois alguns, praticando-a, acolheram anjos sem o perceber.”

Enquanto as palavras ecoavam na sala simples com paredes de argila, todos recordaram a história de Abraão e Sara, como haviam recebido mensageiros celestiais em sua tenda sob os carvalhos de Manre. O coração de Samuel ardeu com renovada determinação.

“Lembrai-vos dos que estão nas prisões”, continuou Lucas, sua voz tornando-se mais grave, “como se estivésseis presos com eles.” A assembleia recordou-se de Priscila e Áquila, presos no cárcere Mamertino por confessarem Cristo. Naquele momento, decidiram coletar recursos para sustentar a família dos encarcerados.

Marta ergueu-se e, com voz suave mas firme, acrescentou: “E dos que são maltratados, como se fossem vós mesmos que o sofrêsseis.” Seus olhos encontraram os de cada pessoa presente, criando uma corrente invisível de solidariedade que fortaleceu seus espíritos.

Lucas então falou sobre a santidade do matrimônio. “Honrado seja entre todos o matrimônio, e o leito sem mácula.” Contou a história de Joel e Raquel, casal que mantinha pureza em seu amor, refletindo a união entre Cristo e Sua Igreja. As crianças presentes observavam seus pais trocarem olhares de renovado compromisso.

“Seja a vossa vida isenta de avareza”, advertiu Lucas, seus dedos apontando para as ânforas vazias no canto. “Contentai-vos com o que tendes.” E narrou como o irmão Tiago, mesmo perdendo sua olaria para os saqueadores, mantinha-se alegre, lembrando que Deus jamais abandonaria Seus filhos.

A sabedoria de Lucas fluía como as águas do Jordão quando começou a discorrer sobre a liderança espiritual. “Lembrai-vos dos vossos guias, que vos falaram a palavra de Deus.” A congregação recordou com gratidão o bispo Epeneto, agora descansando no Senhor, cujas últimas palavras foram: “Observai atentamente o fim da sua vida e imitai a sua fé.”

“Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e eternamente”, proclamou Lucas, erguendo as mãos. E naquele instante, uma paz sobrenatural envolveu o lugar, como se o próprio Salvador estivesse entre eles. A lamúria noturna dos insetos parecia formar um coro de louvor.

Então Lucas advertiu sobre os ensinos estranhos e diversos. “Não vos deixeis envolver por doutrinas várias e alienígenas.” Suas palavras ganharam urgência ao descrever os gnósticos que pervertiam a graça e os judaizantes que insistiam em velhas cerimônias. “É bom que o coração se fortifique com graça, e não com alimentos.”

Enquanto a noite avançava, Lucas conduziu-os à mais sublime verdade: “Temos um altar do qual não têm direito de comer os que servem ao tabernáculo.” Explicou como o sacrifício de Cristo na cruz substituíra para sempre os rituais do templo, e como Seu sangue selara a nova aliança.

“Portanto, ofereçamos sempre a Deus, por meio de Jesus, sacrifício de louvor”, concluiu Lucas, seu rosto iluminado pela fé que transcendia as circunstâncias. “Que é o fruto dos lábios que confessam o seu nome.”

A reunião terminou com os irmãos entoando cânticos que ecoavam pelas ruas desertas, suas vozes unidas numa melodia que atravessava as paredes da perseguição. Antes de se dispersarem, lembraram-se das exortações finais: fazer o bem, repartir comunhão e obedecer aos líderes espirituais.

Samuel aproximou-se de Lucas ao final. “Mestre”, disse com voz embargada, “amanhã mesmo irei até a estrada principal e convidarei peregrinos para repousar em minha casa.” Lucas sorriu, sabendo que as sementes da Palavra haviam encontrado terra fértil.

Enquanto as estrelas testemunhavam silenciosas, cada cristão retornava a seus lares, carregando no peito a convicção de que Aquele que os chamara era fiel para cumprir Suas promessas. E na cidade eterna, sob a opressão imperial, florescia uma igreja que entendia que sua verdadeira pátria estava nos céus, onde o Grande Pastor das ovelhas as aguardava com coroa de glória imperecível.

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