Num dia em que o sol se punha sobre as colinas da Macedônia, Paulo, com as mãos calejadas pela fabricação de tendas e o coração ardendo de zelo, sentou-se à luz tremula de uma lamparina para escrever às amadas ovelhas de Corinto. O pergaminho desenrolou-se diante dele como um testemunho silencioso das lutas e glórias do ministério.
“À igreja de Deus que está em Corinto”, começou ele, com a tinta escorrendo como lágrimas solidificadas sobre o velino, “saudades e graça da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo.”
Seus olhos, cansados mas cheios de fogo sagrado, fitaram a chama vacilante enquanto mergulhava nas profundezas da revelação. “Por esta razão, tendo este ministério pela misericórdia que nos foi concedida, não desfalecemos”, sussurrou para as sombras da noite, como se estivesse declarando um segredo celestial.
A memória de seus sofrimentos dançava na penumbra – os açoites em Filipos, os naufrágios no Mediterrâneo, as noites sem dormir nas estradas poeirentas da Ásia. “Antes, rejeitamos as coisas ocultas que vergonham, não andando com astúcia nem falsificando a palavra de Deus.” Cada sílaba era gravada com a autoridade de quem conhecia o preço da integridade.
O vento noturno carregava o aroma de oliveiras enquanto sua pena continuava seu trabalho sagrado. “Pelo contrário, manifestamos a verdade, recomendando-nos à consciência de todos os homens diante de Deus.” Ele imaginava os crentes coríntios lendo estas palavras, alguns com corações contritos, outros ainda presos às velhas disputas.
Sua mente viajou para as reuniões nas casas, onde o perfume do incenso se misturava com a esperança dos novos convertidos. “Se o nosso evangelho está encoberto, para os que se perdem está encoberto.” A tristeza impregnou sua escrita ao recordar aqueles que ouviam as palavras de vida, mas cujos olhos espirituais permaneciam vendados pelo deus deste século.
Mas então sua pena acelerou, animada por uma verdade gloriosa. “Porque Deus, que disse: ‘Das trevas resplandecerá a luz’, ele mesmo resplandeceu em nossos corações.” O rosto de Paulo iluminou-se com uma lembrança vívida da estrada para Damasco, quando a glória divina o derrubara e transformara para sempre.
“Temos, porém, este tesouro em vasos de barro”, escreveu com ternura, observando suas próprias mãos – frágeis, marcadas pelo tempo e trabalho, mas instrumentos do Altíssimo. A lamparina projetava sombras que pareciam dançar ao redor do humilde aposento, testemunhando a paradoxal grandeza do evangelho.
“Para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.” Ele sorriu ao pensar como o Senhor usava sua gagueira, suas limitações, suas fraquezas físicas para manifestar a força celestial. Cada tremor de suas mãos, cada noite de insônia, cada perseguição sofrida tornava-se um altar onde a graça se revelava mais potente.
A noite aprofundava-se, e as estrelas pareciam testemunhas celestes enquanto a narrativa continuava. “Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados.” As palavras fluíam como um rio de experiência vivida – as pedras atiradas em Listra, a prisão em Filipos, as acusações falsas em Tessalônica.
“Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos.” Cada afirmação era um golpe contra as forças das trevas, uma declaração de vitória mesmo no vale da sombra da morte.
Sua pena tornou-se mais urgente ao abordar o mistério da comunhão com Cristo. “Trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos.” Ele tocou o velho corte em seu flanco, lembrando-se de como cada ferida contava a história do Calvário.
O galo cantou ao longe anunciando a madrugada quando chegou ao clímax de sua exposição. “Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal.”
As lágrimas molharam o pergaminho quando escreveu as palavras finais. “Assim que a morte opera em nós, mas a vida em vós.” Ele podia quase ver os coríntios crescendo em fé enquanto ele diminuía em força física, um intercâmbio sagrado que valia cada gota de sofrimento.
O sol começava a pintar o horizonte quando ele enrolou o documento, selando-o com cera quente. O ministério continuaria – com suas fraquezas, suas lutas, suas glórias ocultas. Porque no grande tear divino, até os fios mais frágeis eram essenciais para revelar o padrão da glória eterna.
E em algum lugar, além do véu do tempo, ecoava uma verdade que transcenderia os séculos: as coisas visíveis são temporais, mas as invisíveis são eternas.




