Num tempo em que o império babilônico já declinava e o poder persa se erguia, o profeta Daniel, ainda cativo em terras estrangeiras, recebeu uma visão que marcaria profundamente seu espírito. Era o terceiro ano do reinado de Belsazar, e Daniel se encontrava na cidadela de Susã, junto ao rio Ulai, quando seus olhos se abriram para revelações celestiais.
O cenário desdobrou-se diante dele como um quadro vivo: primeiro, um carneiro de impressionante majestade postava-se junto ao rio. Seus dois chifres eram altos, porém um se elevava mais que o outro, sendo este último o que havia crescido por último. O animal movia-se com força irresistível, empurrando para o ocidente, o norte e o sul, sem que criatura alguma pudesse resistir à sua presença ou livrar-se de seu poder. Daniel observava, maravilhado e perturbado, enquanto o carneiro pisoteava tudo em seu caminho, aumentando continuamente seu domínio.
Enquanto ainda meditava sobre este espetáculo, eis que surgiu do ocidente um bode que vinha velozmente, sem tocar o chão, trazendo entre os olhos um chifre notável e impressionante. Com fúria incontrolável, o bode investiu contra o carneiro que havia visto junto ao rio, arremessando-se sobre ele com toda a força de sua indignação. Daniel viu o bode quebrar os dois chifres do carneiro, que nada pôde fazer para resistir. O bode o derrubou no chão e o pisoteou sem piedade, e ninguém havia que pudesse livrar o carneiro de seu poder.
Mas a visão não parou ali. O bode tornou-se extremamente poderoso, porém, no auge de sua força, seu grande chifre foi quebrado subitamente. Em seu lugar, surgiram quatro chifres notáveis que se voltaram para os quatro ventos do céu. Destes quatro chifres, saiu um pequeno chifre que cresceu extraordinariamente em direção ao sul, ao oriente e à terra gloriosa. Este pequeno chifre cresceu até atingir o exército dos céus, chegando a derrubar no chão algumas estrelas e a pisoteá-las.
O pequeno chifre engrandeceu-se até contra o Príncipe do exército celestial. Ele removeu o sacrifício contínuo e profanou o santuário, lançando por terra a verdade. Daniel ouviu então um santo que falava, e outro santo que perguntava ao primeiro: “Até quando durará a visão do sacrifício contínuo e da transgressão assoladora, para que sejam entregues o santuário e o exército, a fim de serem pisados?”
A resposta veio clara e solene: “Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; então o santuário será purificado.”
Enquanto Daniel, filho de Amós, contemplava esta visão e procurava entendê-la, eis que se pôs diante dele alguém com aparência de homem. Ouviu então uma voz sobre as águas do rio Ulai, que gritava: “Gabriel, dá a entender a este a visão.”
Gabriel aproximou-se do lugar onde Daniel estava. Ao vê-lo, Daniel aterrorizou-se e caiu com o rosto em terra. Mas o anjo lhe disse: “Entende, filho do homem, porque esta visão se refere ao tempo do fim.”
Enquanto ele falava comigo, caí num profundo sono, com o rosto em terra. Ele me tocou e me pôs em pé, dizendo: “Eis que te farei saber o que há de acontecer no último tempo da ira, porque isso se refere ao tempo determinado do fim.”
“O carneiro que viste, que tinha dois chifres, são os reis da Média e da Pérsia. O bode peludo é o rei da Grécia; e o grande chifre que tinha entre os olhos é o primeiro rei. O ter sido quebrado, levantando-se quatro em seu lugar, significa que quatro reinos se levantarão desta nação, porém não com a força dele.”
“Mas, ao final do seu reinado, quando os transgressores se tiverem enchido, levantar-se-á um rei de semblante firme e entendido enigmas. E se fortalecerá o seu poder, mas não pela sua própria força; causará estranhas destruições, e prosperará, e fará o que lhe aprouver; destruirá os poderosos e o povo santo. Pelo seu entendimento, fará prosperar o engano na sua mão; no seu coração se engrandecerá, e destruirá a muitos que vivem em segurança; se levantará contra o Príncipe dos príncipes, mas será quebrado sem intervenção humana.”
“A visão da tarde e da manhã, que foi dita, é verdadeira; tu, porém, cerra a visão, porque se refere a dias muito distantes.”
Eu, Daniel, desfaleci e estive enfermo alguns dias; depois me levantei e tratei dos negócios do rei. Espantava-me com a visão, e não havia quem a entendesse. Minha força se transformou em fraqueza, e não retive vigor algum. A majestade da revelação deixou-me prostrado, contemplando a soberania do Altíssimo sobre os reinos dos homens e o mistério de Seus desígnios eternos.




