Bíblia em Contos

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A Voz do Redemoinho

Era uma vez, após quarenta capítulos de debates intensos entre Jó e seus amigos, quando o sofrimento parecia ter a última palavra, que o próprio Senhor respondeu a Jó de dentro do redemoinho. Uma tempestade majestosa envolveu a planície onde Jó se assentava entre cinzas, e dali emergiu uma voz que ecoava como trovão distante, porém com a clareza do mais puro cristal.

“Quem é este que escurece o meu conselho com palavras sem conhecimento?”, começou o Senhor, não com ira, mas com autoridade que fazia tremer as raízes das montanhas. “Cinge agora os teus lombos como homem, pois eu te perguntarei, e tu me responderás.”

Jó, antes tão eloquente em sua defesa, sentiu suas palavras evaporarem-se como orvalho ao sol nascente. Seus lábios tremiam enquanto a presença divina envolvia tudo como manto real.

“Onde estavas tu quando eu lançava os fundamentos da terra?”, prosseguiu a voz, enquanto diante dos olhos de Jó começavam a desfilar visões da criação. “Dize-me, se tens entendimento. Quem lhe determinou as medidas, se é que o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel?”

A terra surgia em visão gloriosa – rochas fundacionais sendo assentadas enquanto as estrelas da manhã cantavam juntas e todos os filhos de Deus rejubilavam. Jó via os limites dos mares sendo estabelecidos quando as águas nascentes jorravam do ventre da terra, e portas com ferrolhos celestiais contendo as ondas que não podiam ultrapassar o decreto divino.

“Determinaste tu porventura ao amanhecer o seu lugar?”, a voz continuou, tecendo imagens do alvorecer tomando as extremidades da terra como vestes, enquanto os ímpios viam sua escuridão sendo dissipada. Jó contemplava a manhã nascendo sobre vales e montanhas, revelando contornos que antes jaziam ocultos nas sombras.

O Senhor então conduziu Jó às profundezas abissais. “Tu penetraste até às origens do mar? Ou passeaste no mais profundo do abismo? Acaso, te foram reveladas as portas da morte? Ou viste as portas da sombra da morte?” A visão mostrava cavernas oceânicas onde luz alguma chegava, e portais para reinos que nenhum mortal poderia transpor.

O sol então brilhou sobre a cena, e a voz questionou: “Compreendeste a extensão da terra? Dize-me, se sabes tudo isto. Onde está o caminho para a morada da luz? E quanto às trevas, onde é o seu lugar?” Jó via o crepúsculo e a aurora como irmãos que nunca se encontram, cada um com seu domínio estabelecido.

“Tu conheces as leis dos céus?”, a voz tornou a soar, enquanto constelações giravam em perfeita harmonia. “Ou podes fazer dominar a sua influência na terra?” Jó observava a Ursa Maial com seus filhos, o Oriom em seu esplendor caçador, e as Plêiades formando seu aglomerado cintilante.

A cena mudou para a atmosfera terrestre. “Podes tu levantar a tua voz até as nuvens, para que a abundância de águas te cubra? Envias tu os relâmpagos, para que eles vão, e te digam: Eis-nos aqui?” Raios cruzavam o céu como mensageiros obedientes, e a chuva caía sobre terras onde nenhum homem pisava.

A sabedoria divina manifestava-se em cada elemento. “Quem pôs sabedoria no íntimo do coração? Ou quem deu ao espírito entendimento? Quem numerará as nuvens com sabedoria? Ou os odres dos céus, quem os esvaziará?” Jó via sistemas climáticos complexos regendo desertos e florestas tropicais com igual precisão.

O Senhor então mostrou a Jó o reino animal. “Caçarás tu a presa para o leão? Ou saciarás a fome dos filhos do leão, quando se agacham nos covis, ou estão à espreita no seu refúgio?” Cenas vívidas de leões famintos sendo providos, e corvos clamando enquanto Deus lhes dava alimento.

“Sabes tu o tempo do parto das cabras montesas?”, continuou a voz, mostrando cabras dando à luz em penhascos inacessíveis. Jó via cervas libertando-se de dores para dar vida a novos seres, enquanto seus filhotes cresciam fortes nos vales ocultos.

O avestruz apareceu em seguida, com suas asas que batem alegremente, mas abandona seus ovos na areia. “Ela endurece seus ovos na terra, e os esquece no pó, sem se importar que algum pé os possa esmagar.” Porém seus filhotes sobreviviam miraculosamente, correndo com velocidade que desdenhava o cavalo e seu cavaleiro.

O cavalo de guerra surgiu então em toda sua glória. “Deste tu ao cavalo a sua força? Vestiste o seu pescoço com crinas ondulantes? Fazes tu ele tremer como o gafanhoto?” Jó via camponeses criando cavalos, mas somente Deus podia infundir neles aquela coragem que fazia com que não se espantassem da espada.

Por fim, a águia majestosa encerrou o desfile da criação. “É pela tua inteligência que se remonta o falcão e estende as suas asas para o sul?” Jó contemplava aves migratórias cruzando continentes sob orientação divina, construindo ninhos em rochedos inatingíveis.

Quando a última visão se dissipou, Jó permaneceu diante daquele que havia falado do redemoinho. Seu coração compreendia agora que as perguntas de Deus não exigiam respostas, mas revelavam uma sabedoria tão vasta que tornava todo sofrimento humano parte de um quadro maior que apenas os olhos divinos podiam abranger. E naquele silêncio sagrado, começava a nascer uma fé que não dependia de compreensão, mas confiava no Criador cuja sabedoria ordenava desde o voo da águia até o caminho das estrelas.

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