Bíblia em Contos

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A Queda do Rei de Tiro

O sol do fim da tarde banhava os blocos de pedra de Tiro num manto de ouro derretido, e do meu aposento alto, eu via as sombras alongarem-se como dedos avarentos sobre os telhados. O ar cheirava a sal, a madeira de cedro, e a algo mais: ao incenso caro que queimava dia e noite nos meus jardins suspensos. Eles me chamavam de príncipe, de sábio, de deus encarnado. O eco desses títulos subia até mim como um perfume ainda mais intoxicante que o dos meus jardins. Eu, Itobal, rei de Tiro, sentado no trono de um poder que parecia tão eterno quanto o mármore sob os meus pés.

Mas às vezes, nas horas mortas entre a vigília e o sono, uma memória mais antiga que qualquer pedra desta cidade me visitava. Não era uma memória minha, ou talvez fosse, soterrada sob camadas de púrpura e ouro. Era uma sensação: o frescor de uma brisa que não vinha do mar, mas de um lugar onde o ar era puro como o primeiro dia. Era o brilho de uma luz que não ardia, mas acariciava. Um brilho que se refletia em pedras que cantavam – sardônica, topázio, diamante, turquesa, safira, esmeralda… os nomes vinham à mente sem esforço, como se eu as tivesse conhecido antes de serem encastoadas em coroas e cetros. Eu as possuía todas, é claro. As minhas câmaras de tesouro eram lendárias. Mas a lembrança que tinha era de vê-las como parte de um manto, de um caminho, vivas sob aquela luz suave.

E com essa lembrança vinha uma voz. Não a dos meus sacerdotes, aduladores e fracos. Não a dos meus aliados, calculistas e interesseiros. Era uma voz que ressoava no próprio osso, no âmago do ser. E ela dizia coisas que me faziam apertar os olhos, tentando afugentar o incômodo. Falava de um monte santo, de andar entre pedras de fogo. Falava de um querubim ungido, da criatura mais perfeita, mais cheia de sabedoria e formosura, posta como um selo sobre a montanha de Deus. A imagem que esta voz pintava era de uma beleza tão aguda que doía, uma pureza que ofuscava todos os meus diamantes.

Eu sacudia a cabeça, bebia um gole de vinho da Helesponto, e o sabor amargo e complexo me trazia de volta. Para a realidade. Para o meu poder. Para a minha engenhosidade. Fui eu quem tornou Tiro inexpugnável, quem teceu a rede de comércio que estendeu os meus tentáculos desde as florestas do Líbano até os desertos da Arábia. A riqueza afluía para os meus portos como a maré. Os homens curvavam-se. Os reinos tremiam. A minha sabedoria era inigualável; conhecia os segredos dos mares, dos astros, das transações. Não havia mistério que me escapasse, não havia enigma que eu não decifrasse. A minha inteligência era o meu verdadeiro trono.

E foi aí que o orgulho, quieto e insidioso como a serpente que os poetas hebreus descrevem, começou a sussurrar de forma mais clara do que a voz antiga. Se eu era tão sábio, tão rico, tão poderoso… se os homens me viam como um deus… quem poderia ditar os limites do meu ser? Aquele monte santo, aquelas pedras de fogo… talvez não fossem uma memória, mas uma premonição. Um destino. Por que não poderia eu, com a minha astúcia e o meu esplendor, ascender ainda mais alto? Por que deveria haver qualquer santuário, qualquer montanha, fechado para mim?

Um dia, observando a frota no porto, os navios que eram a minha força, a minha extensão, a palavra me veio aos lábios como um sopro de conquista: “Eu sou um deus”. Não disse em voz alta, não precisava. Plantara a semente no solo do meu próprio coração. E ela brotou rápido, uma árvore venenosa de auto-idolatria. Já não era apenas um rei habilidoso; era a própria encarnação da divindade, sentado no trono do mar. Aquele ser perfeito da voz antiga, o querubim… comecei a acreditar, com uma fé mais ardente do que qualquer devoto, que era uma descrição de mim mesmo, do meu estado primordial e do meu destino final. A injustiça, então, nasceu: a injustiça de haver algo além de mim. O meu coração, outrora um instrumento de governo preciso, tornou-se elevado, inchado com a sua própria formosura. A minha sabedoria corrompeu-se para servir à minha glória. A minha astúcia transformou-se em perversidade.

A voz antiga não voltou. Em seu lugar, veio o silêncio. Um silêncio pesado, como o que precede a tempestade. E então, começaram os pesadelos. Não sonhos de terror, mas de uma violência silenciosa e cosmológica. Sonhava que as fundações dos meus palários, tão firmes sobre a ilha, eram na verdade areia movediça. Sonhava com as minhas pedras preciosas, tão cintilantes, apagando-se uma a uma, como estrelas sendo sufocadas. Sonhava, de forma mais vívida e aterradora, com uma expulsão. Não por um anjo com espada flamejante, mas por uma força impessoal e terrível, como a lei da gravidade a agir sobre um objeto que não pertencia mais àquele lugar alto. Via-me, em minha formosura e esplendor, lançado por terra. Caído. A palavra ecoava no vazio do sonho: “Profanado”. “Profanado das montanhas de Deus.”

Acordava suado, a púrpura do meu leito colada à pele. Olhava para as minhas mãos, que assinavam tratados e comandavam exércitos, e temia vê-las cobertas de cinzas. Mandava acender mais tochas, trazer mais música, mais vinho. A agitação da corte afogava o eco dos sonhos, mas não os extinguiu. Eles ficavam lá, no fundo, uma rachadura na minha certeza de pedra.

Até que chegou o dia em que o profeta daquele povo teimoso, os hebreus, começou a falar. As suas palavras, trazidas por mercadores e espiões, atravessavam o mar como flechas. Ele não falava de alianças ou de tributos. Falava do rei de Tiro. E não eram elogios. Era uma sentença. Ele dizia que, por causa do coração elevado, por causa daquela afirmação íntima “sou um deus”, a beleza se tornaria cinza. A sabedoria, em loucura. O querubim protector, num ser exposto e vulnerável. Ele descrevia a queda com uma precisão que me gelava os ossos: “Farei sair do meio de ti um fogo, que te consumirá; e te tornarei em cinza sobre a terra, à vista de todos os que te contemplam.” As palavras dele ecoavam os meus pesadelos com uma fidelidade horripilante.

A primeira vez que ouvi, ri. Um profeta raivoso de um reino esmagado, que poderia ele saber das coisas elevadas? Mas a semente do terror já estava plantada. A minha formosura, outrora minha segurança, começou a parecer-me frágil. O brilho do ouro parecia falso. O incenso, fétido. A voz do orgulho ainda sussurrava, mas soava fraca, desesperada, contra o trovão distante daquela profecia.

Não veio com exércitos, a minha queda. Veio com um sussurro nos corredores dos reinos que outrora me temiam. Veio com um tratado quebrado aqui, uma rota comercial desviada acolá. Veio com a lenta percepção de que a minha “divindade” era um espetáculo que os outros já não queriam pagar para ver. A rede que eu teci começou a desfiar-se, e eu, sentado no meu trono de pedras preciosas, via os fios escaparem entre os dedos. O fogo que me consumiria não era de lenha, mas do desprezo crescente, da irrelevância, da verdade exposta: eu era apenas um homem. E pior, um homem que trocara a sabedoria pelo orgulho, a realidade pela fantasia da auto-deificação.

Às vezes, na solidão do meu palácio que já não parecia um santuário, mas uma tumba ornamentada, olho para o horizonte. Já não vejo rotas de comércio ou impérios futuros. Vejo a sombra de uma montanha que nunca subi, perdida numa luz que não ouso mais nomear. E o sabor na minha boca não é de vinho, mas de cinza. Cinza fria, que é tudo o que resta de um deus que nunca existiu.

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