Bíblia em Contos

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O Convite à Margem do Riacho

O sol da tarde caía como chumbo sobre os campos ressecados. Elias caminhava pelo atalho poeirento, os olhos fixos no chão rachado, evitando as pedras afiadas que pareciam ossos da terra. A bolsa de couro, outrora cheia, agora pendia vazia e murcha ao seu lado. O dinheiro acabara na feira, gasto na última medida de trigo, que mal daria para três dias de pão. A vida, pensava ele com amargura que lhe secava a alma mais que a seca aos campos, era um comércio duro: dava-se suor, colhia-se espinhos.

Seus pés o levaram, quase sem querer, à margem do riacho que cortava as terras baixas. Um nome generoso para um leito de pedras brancas e alguma terra úmida, onde apenas uns fios de água teimosos resistiam, escondidos entre as fendas. Elias sentou-se numa pedra lisa, a respiração pesada. O convés do mundo parecia fechado para ele. Tinha fome de pão, sim, mas também de algo que não sabia nomear – uma sede que a água do odre não matava.

Foi então que o viu.

Um pouco mais adiante, à sombra raquítica de uma gameleira, um homem estava sentado sobre um pano estendido. Diante dele, não havia tralhas para vender, nem ferramentas, nem tecidos. Havia cântaros de água, grandes, de barro bruno, que reluziam sob o sol. E ao lado deles, numa cesta de vime, pães redondos, dourados, de cuja direção o vento trazia um aroma quente que fez o estômago de Elias roncar de imediato. Mas era estranho. Não havia prego pregado, nem tabuleta. O homem apenas estava ali, os olhos calmos fixos no horizonte, como quem espera, mas sem a ansiedade agressiva dos mercadores.

Elias hesitou. A vergonha da bolsa vazia queimava-lhe o peito. Aproximou-se, devagar.
“Boa tarde”, disse, a voz áspera pela poeira.
O homem virou o rosto. Seus olhos eram de uma clareza desconcertante, como a água do poço profundo. “Boa tarde, amigo. A sede e a fome são más conselheiras para uma caminhada tão longa.”

Elias surpreendeu-se. Como sabia? Encostou a mão na bolsa, gesto automático. “Vejo que tem mercadoria. Qual o preço da água? E do pão?”
O homem sorriu, um sorriso que não era de negociante. “Para você, hoje, não tem preço.”
Elias franziu a testa. Desconfiança, hábito velho, brotou nele. “Nada é de graça. Trabalho, vendo, compro. É a lei.”
“É a vossa lei”, corrigiu o homem suavemente. “Aqui, a lei é outra. Venha, beba. Coma. Por que gasta o que tem naquilo que não alimenta, e o suor dos seus dias naquilo que não sacia? Ouçam-me com atenção, e comam o que é bom, e a alma de vocês se deliciará com a mais fina gordura.”

As palavras ecoaram no ar quieto, diferentes de tudo que Elias ouvira. Soavam antigas e novas ao mesmo tempo. Ele, cautelosamente, aceitou o odre que o homem estendia. A água não era morna e lodosa como a do seu. Era fresca, límpida, com um sabor de nascente escondida nas montanhas. Bebeu longamente, e uma sensação de vida, não apenas de refresco, espalhou-se por suas veias. Em seguida, partiu um pedaço do pão. A casca crocante deu lugar a um miolo fofo, levemente adocicado, que derreteu na boca. Era mais que alimento; era um acontecimento.

Enquanto comia, o homem falava, sua voz misturando-se ao farfalhar das poucas folhas da árvore. Falava de coisas que transcendiam o preço do trigo. “Prestem atenção em mim, venham a mim. Ouçam, e viverão. Firmarei com vocês uma aliança permanente: as promessas fiéis que fiz a Davi.”
Elias engoliu o pão, confuso. “Eu não sou Davi. Sou apenas Elias, filho de Joaquim, que perdeu a colheita.”
“Veja”, disse o homem, apontando para o riacho seco. “Assim como a chuva e a neve descem dos céus e para lá não voltam sem regarem a terra, sem fazerem brotar e florescer, para que dê semente ao semeador e pão ao que come, assim também ocorre com a palavra que sai da minha boca.”

Elias olhou para as pedras do leito. De uma das fendas, onde a água teimosa escorria, brotava, incrivelmente, um pequeno pé de mostarda, verde e vibrante contra o marrom da terra. Uma semente qualquer, trazida por um pássaro ou pelo vento, encontrara ali o mínimo necessário e explodira em vida. Seu coração deu um salto dentro do peito. Ele começou a entender. Não se tratava de um negócio. Tratava-se de um convite. Um convite para uma economia diferente, onde a moeda não era prata, mas a atenção. Onde o pagamento não era o cansaço, mas a vida que brotava de fontes inesperadas.

“A minha palavra”, continuou a voz, serena e poderosa, “não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo e atingirá o propósito para o qual a enviei. Vocês sairão em júbilo e em paz serão guiados.”
Elias não sabia explicar, mas o peso que carregava nos ombros, aquele desespero mudo que o acompanhava desde a manhã, começou a se dissolver. Não porque seus problemas materiais houvessem sumido – a bolsa ainda estava vazia, a terra, seca. Mas porque dentro dele, algo se movia. Uma esperança que não era ilusão. Uma certeza de que havia uma fonte para outra sede, um pão para outra fome.

“Como… como posso ter isso?”, perguntou, sua voz um fio de som.
“Busquem o Senhor enquanto se pode achá-lo; clamem por ele enquanto está perto. Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem mau, os seus pensamentos. Volte-se para o Senhor, que terá misericórdia dele; e para o nosso Deus, pois ele dá de bom grado o seu perdão.”

O sol começava a se pôr, tingindo o céu de roxo e laranja. Elias levantou-se. Já não sentia o cansaço do corpo. Agradeceu com um aceno de cabeça, sem saber bem as palavras. O homem sob a gameleira apenas inclinou a cabeça, um brilho de entendimento nos olhos claros.

No caminho de volta, Elias não olhava mais para o chão rachado. Olhava os montes ao longe, que agora pareciam promessa. Em vez de calcular a miséria dos dias que viriam, uma melodia antiga, esquecida da infância, veio aos seus lábios. Um murmúrio baixo, depois mais forte. Não era júbilo estridente, mas era paz. Uma paz profunda, como a de um rio que encontra seu curso.

Ele não sabia como, mas sabia que seria guiado. E que os ciprestes e as murta cresceriam no deserto, substituindo os espinhos. Era um mistério, era uma promessa. Era um convite aberto, sem preço, feito à margem de um riacho seco, que agora, aos seus ouvidos, parecia cantar.

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