O sol do deserto era uma coisa espessa, pesada, que achava-se em todo lugar. Não apenas no céu, de um azão desbotado e impiedoso, mas refletido nas areias clareadas, nas pedras lisas do acampamento, até na pele oleosa dos homens. O ar tremeluzia sobre as tendas, uma miragem constante de calor. Era nessa lentidão incandescente do décimo-terceiro mês após a saída do Egito que a palavra veio a Moisés, lá na Tenda do Encontro, fora do arraial.
Eliazar, o mais novo dos filhos de Arão, observava de longe, enxugando o suor do pescoço com a borda do manto. Via a silhueta do profeta entrar naquela nuvem que nunca se dissipava completamente, um vapor denso e quieto que pairou sobre o santuário desde o dia em que fora erguido. A lembrança da Páscoa do Egito estava viva em todos, um cheiro mental de ervas amargas e sangue de cordeiro nos umbrais. Agora, no crepúsculo desse primeiro mês do segundo ano, a ordem era clara: celebrar a Páscoa. No dia catorze, ao pôr do sol, com todos os seus estatutos e juízos.
O acampamento inteiro se pôs em movimento, um formigueiro de vozes e atividade. O cheiro do pão sem fermento começou a se misturar com o pó. Mulheres moendo grãos, homens separando cordeiros sem defeito, crianças correndo com feixes de hissopo. Uma expectativa solene, quase feroz, tomou conta do povo. Era mais que um ritual; era uma afirmação. Ainda estávamos aqui, ainda éramos Dele, apesar do deserto, da sede, das murmurações.
Foi então que vieram até Moisés. Eram uns quatro ou cinco, rostos marcados por uma angústia recente. Seus trajes tinham a poeira particular da tristeza. Um deles, um levita da família de Coate, chamado Malquias, falou, a voz rouca.
— Estamos imundos — disse, sem preâmbulos — por causa do cadáver de um homem. Por que seríamos privados de apresentar a oferta do Senhor no seu tempo determinado, no meio dos filhos de Israel?
Eliazar aproximou-se, curioso. O caso era delicado. A lei era explícita: quem tocasse em morto ficaria impuro por sete dias. A Páscoa, porém, era inflexível em sua data. Um dia, só um. O conflito estava ali, na carne daqueles homens. Eles não pecaram. A morte os encontrara, talvez ao cuidar de um parente, ao sepultar um desafortunado apanhado pelo calor ou por uma serpente. A obrigação sagrada esbarrava na contingência humana. A pureza ritual esmagava o desejo do coração.
Moisés ouviu, seus olhos profundos repousando sobre os homens impuros. Não deu uma resposta imediata. — Aguardai — disse apenas. — Ouvirei o que o Senhor ordenar acerca de vós.
Os dias que se passaram até a resposta foram de tensão para aqueles homens. Enquanto o acampamento fervilhava com os preparativos, eles permaneciam à margem, em suas tendas isoladas, vendo a comunidade se unir para um memorial do qual estariam excluídos. Sua impureza não era moral, mas os separava do ato central de sua identidade como povo liberto. Eliazar os via, silenciosos, observando de longe os cordeiros sendo atados às estacas diante das tendas. Sentiu uma ponta de compaixão. A lei era santa, mas aquela situação parecia lascar sua perfeição, revelando uma brecha de dor.
No dia determinado, Moisés convocou o povo. Sua figura, já um tanto curvada pelo peso da liderança, parecia ainda mais séria. A multidão se calou, o único som era o farfalhar das vestes ao vento quente.
— Ouví a voz destes homens — começou Moisés, sua voz se projetando sem esforço, um som seco e claro como o bater de pedras. — E o Senhor me falou, dizendo: Fala aos filhos de Israel.
Ele fez uma pausa, e o silêncio se aprofundou. Até o vento pareceu parar.
— Se algum homem, entre vós ou vossos descendentes, estiver imundo por contacto com um morto, ou se achar em jornada longínqua, ainda assim celebrará a Páscoa ao Senhor. No segundo mês, no dia catorze, no crepúsculo da tarde, a celebrarão. Com pães ázimos e ervas amargas a comerão. Dela nada deixarão até pela manhã, e nenhum osso quebrarão. Segundo todo o estatuto da Páscoa, a celebrarão.
Um murmúrio percorreu a multidão. Não de contestação, mas de surpresa reverente. A lei, em vez de esmagar, dobrou-se para acolher. Havia uma provisão para a impureza involuntária, para a jornada inescapável. A graça insinuava-se nos interstícios do mandamento.
Moisés não terminou. Seu rosto ganhou uma expressão ainda mais grave.
— Mas o homem que, estando limpo e não em viagem, deixar de celebrar a Páscoa, esse tal será eliminado do seu povo. Pois não apresentou a oferta do Senhor no seu tempo determinado. Esse homem levará o seu pecado.
E depois, veio o princípio que abarcava a todos, estrangeiros e nascidos na terra:
— Se um forasteiro habitar entre vós e celebrar a Páscoa ao Senhor, segundo o estatuto da Páscoa e segundo o seu rito, assim a celebrará. Um só estatuto haverá para vós, tanto para o forasteiro como para o natural da terra.
Eliazar absorveu as palavras, sentindo seu peso e sua leveza. A mesma nuvem que guiava no deserto, dia e noite, também estabelecia os tempos, os ritmos da santidade. E dentro desse ritmo divino, havia espaço para a poeira humana, para os atrasos involuntários, para os peregrinos que se juntavam à marcha. A exclusão só vinha para quem, de coração inteiro e possibilidades abertas, simplesmente virasse o rosto para a memória da libertação.
Naquela noite, enquanto o cheiro do cordeiro assado e das ervas amargas impregnava o ar, Eliazar viu os rostos daqueles homens antes impuros. Agora lavados, aguardando sua Páscoa do segundo mês com uma paciência cheia de esperança. Não era um adiamento qualquer. Era um tempo designado, uma segunda chance sacramentada pelo próprio Deus. A lei, ele pensou, não era uma gaiola de ferro. Era como a estrutura da Tenda: firme nas estacas, mas com coberturas de peles que se moviam com o vento, que podiam ser ajustadas para abrigar a todos sob a mesma sombra.
E a coluna de nuvem permanecia sobre o Tabernáculo, visível a todo o arraial. Quando ela se levantava, mesmo que fosse de madrugada, mesmo que fosse no segundo mês, o povo se punha em marcha. E quando ela pousava, ali mesmo, no deserto mais árido, no lugar mais inóspito, eles faziam alto. A obediência estava na vigilância, no olhar atento para os sinais de Deus. Nos tempos marcados, e também nos tempos providos para os que, por uma razão qualquer, haviam ficado para trás. A jornada continuava, e a Páscoa — a memória do sangue que os salvara — não seria negada a ninguém que a desejasse com coração sincero. Nem mesmo a um homem impuro por ter tocado, com piedade, os restos frios da morte.



