Bíblia em Contos

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A Travessia do Jordão

O sol da manhã ainda não havia dissipado completamente o frio úmido que subia das margens do Jordão. Uma névoa baixa, teimosa, enrolava-se nos carvalhos e tamargueiras, como se relutasse em revelar o rio que rugia à frente do acampamento. O povo estava em movimento há dias, uma massa compacta de poeira, esperança e cansaço. Agora, parados, o murmúrio era diferente. Não era o falatório do caminho, mas um sussurro denso, carregado de um temor solene. Todos olhavam para aquela faixa de água barrenta e violenta, a última fronteira.

Josué havia passado a noite em silêncio, a face contra a terra. As ordens vinham dele agora, mas o peso era antigo, herdado. De manhã, sua voz, rouca de intempérie e convicção, cortou o ar úmido. “Santificai-vos”, dissera, “porque amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vós.” A santificação não era apenas ritual. Via-se nos rostos: um pai ajudando o filho a amarrar melhor as sandálias com mãos mais calmas; uma mulher compartilhando um último pedaço de azevias sem a pressa costumeira; olhares que se desviavam dos próprios umbrais para fixarem-se no tabernáculo, no centro de tudo, onde repousava a Arca.

Eliaser, um levita de ombros largos e olhos profundamente marcados pelas vigílias, foi um dos escolhidos. Junto a outros sacerdotes, ele se postou diante da tenda do encontro. O coração batia-lhe forte no peito, não de medo, mas de uma reverência avassaladora. Quando as varas de acácia foram enfiadas nas argolas de ouro da Arca e eles a ergueram, um silêncio absoluto caiu sobre a multidão. O único som era o distante rugido do Jordão e o farfalhar das vestes de linho. A Arca não era pesada pelos padrões comuns, mas o peso que carregavam era o da Presença. Um passo à frente. Depois outro. A multidão abriu um corredor. Eliaser sentia a respiração contida de milhares atrás dele. O cheiro de terra batida, de suor sagrado, de expectativa.

“Quando virdes a arca da aliança do Senhor vosso Deus sendo conduzida pelos sacerdotes levitas”, Josué ordenara, “vós partireis do vosso lugar e a seguireis.” E assim foi. Mantinham uma distância de quase mil côvados, uma medida de respeito, um abismo de temor. Parecia um sonho caminhar em direção àquele rio intransponível. As águas do Jordão estavam cheias, transbordantes, com a fúria do degelo dos montes do norte. De onde estavam, já se via a espuma branca nas pedras e os redemoinhos traiçoeiros.

Zibeque, um jovem da tribo de Benjamim que marchava com a família no meio da multidão, apertou a mão do irmão mais novo. “E se não parar?”, o garoto sussurrou, os olhos arregalados fixos nas costas dos sacerdotes que se aproximavam da margem. Zibeque não respondeu. Lembrava-se das histórias do Mar de Juncos, contadas pelo avô em noites sem sono. Histórias que pareciam mito, tão distantes daquela realidade árida e difícil. Agora, ele estava para ver.

Os sacerdotes, com a Arca aos ombros, não diminuíram o passo. Seus pés, calçados em sandálias simples, pisaram a terra fofa da margem. Depois, a primeira água, fria e corrente, lambeu-lhes os tornozelos. Um arrepio coletivo percorreu o povo. Um passo mais fundo. A água subiu até os joelhos. O rio continuava a correr, impetuoso. Outro passo. Até a cintura. Zibeque prendeu a respiração. Era um absurdo. Iam se afogar ali, arrastados pela correnteza com aquela relíquia sagrada.

Então aconteceu.

Não foi um estrondo. Foi um silêncio que cresceu de repente, mais assustador que qualquer ruído. O rugido constante do Jordão… cessou. Como se alguém tivesse fechado uma porta colossal. Às dezenas de quilómetros rio acima, perto da cidade de Adam, o fluxo das águas simplesmente se ergueu, empilhando-se como um muro imenso e transparente. O leito do rio, a jusante, começou a aparecer. Não era seco imediatamente; a lama escura e pegajosa brilhava sob a luz que agora filtrada pela névoa dissipada. Pedras arredondadas pelo tempo, troncos retorcidos, cascalho – um caminho sinuoso e improvável se abria diante deles.

Os sacerdotes, firmes no meio do leito, com a Arca erguida, eram como colunas vivas. A água amontoada à sua direita parecia prestes a desabar, mas mantinha-se, obediente a uma lei que não era a da natureza. Josué gritou uma ordem, e os oficiais percorreram as fileiras, apressando o povo. “Passai! Atravessai!”

E foi um rio de gente que desceu para o leito de um rio. Os pés chapinhavam na lama, escorregando às vezes. Homens ajudavam mulheres com crianças no colo. Os animais, relutantes no início, eram puxados com força. O ar cheirava a lodo fresco, a água contida, a mistério. Zibeque, pisando naquele chão que horas antes era um abismo aquático, sentiu um calafrio que não era do frio. Cada passo era uma confissão. Cada olhar para os lados, para as muralhas de água retidas, era um ato de fé. Não era um caminho fácil. Era úmido, escorregadio, cheio de obstáculos. Mas era um caminho. Dado, não conquistado.

Demorou horas. A longa fila de Israel serpenteou através daquele vale miraculoso. Quando o último israelita, ofegante e maravilhado, pisou a margem ocidental, a terra firme de Canaã, Josué fez um sinal. Os sacerdotes, que haviam permanecido imóveis, pacientes, como âncoras do milagre, moveram-se finalmente. Seus pés, dormentes pela imobilidade e pela água fria, subiram a margem oposta. No momento em que a última sola sacerdotal, carregando a última ponta da Arca, deixou o leito do rio, aconteceu o segundo ato daquele drama.

Um som surdo, um grande suspiro de mundo, ecoou. As águas acumuladas rio acima se soltaram. Rolaram, rugiram, avançaram com toda a força contida, encontrando o leito vazio e precipitando-se para preenchê-lo num tumulto furioso. Em minutos, o Jordão era novamente o Jordão, barrento, rápido, intransponível. A fronteira estava restaurada, mas agora atrás deles.

O povo ficou parado, olhando para trás. Não havia evidência do caminho. Apenas o rio, fluindo como sempre fluíra. O milagre não deixara monumento. Deixara memória. Deixara a marca nos pés enlameados de cada homem, mulher e criança. Deixara a certeza silenciosa de que aquele Deus que abrira o mar para seus pais havia aberto o rio para eles. E, na margem de Canaã, sob um sol agora quente e claro, ergueram um memorial de doze pedras, tiradas do próprio leito. Pedras comuns, molhadas, que nenhum israelita dali em diante olharia como simples pedras.

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