Bíblia em Contos

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O Trono e o Canto Eterno

Foi o som que me alcançou primeiro. Antes de qualquer visão, antes mesmo da vertigem que arrancou meu espírito do cotidiano e o lançou através do véu, foi um som. Um rugido que não era de fúria, mas de poder puro, como o estrondo de uma catarata infinita caindo no abismo do tempo. Um trovão que não cessava.

Quando meus olhos — se é que ainda eram meus olhos — se ajustaram à luz que não era luz solar, o que vi não foi um cenário, mas uma realidade tão densa que doía. No centro de tudo, um Trono. Tentar descrevê-lo é como tentar descrever o sol a um homem que viveu sempre no fundo de um poço. Não era de ouro nem de pedra preciosa. Era a fonte da autoridade, a ideia absoluta de governo e santidade feita forma. E Aquele que nele estava assentado tinha a aparência de… como dizer? De jaspe e sardônio. Uma cintilação de esmeralda envolvia tudo. Era beleza que inspirava terror, majestade que esmagava qualquer noção de presunção. Meu queixo simplesmente caía, se é que ainda tinha um corpo.

Ao redor do Trono, um arco-íris em tons de esmeralda. Não um arco no céu, mas um círculo completo, um anel de aliança eterna envolvendo a tempestade da santidade de Deus. Era o lembrete de que a mesma mão que julga é a que cumpre promessas.

E os tronos, vinte e quatro deles, cercando o central. Neles, anciãos vestidos de branco, coroa de ouro sobre as cabeças. Seus rostos tinham a sabedoria de eras, mas os olhos brilhavam com um vigor que a morte nunca tocou. Eles não estavam lá por acaso. Cada trono, cada coroa, falava de um povo redimido, de histórias entrelaçadas na grande narrativa de Deus. Eles se assentavam em reverência, mas não em passividade. Havia uma expectativa palpável no ar.

Do Trono saíam relâmpagos, vozes e trovões. Uma fornalha de juízo e comunicação direta, ininterrupta. Sete tochas de fogo ardiam diante do trono — os sete espíritos de Deus, a plenitude do Espírito Santo em ação, iluminando, buscando, consumindo.

E então, diante de tudo isso, um mar de vidro, semelhante ao cristal. Não era água, não era gelo. Era uma superfície sólida, translúcida, que refletia e aprofundava a glória acima, mas também separava. Uma barreira de pureza absoluta. Aprendi depois, no silêncio atordoado de meu coração, que ali não há mar tempestuoso. A antiga separação, o caos, foi domado, transformado em piso firme e límpido.

Mas eram as criaturas viventes que prendiam meu olhar, preenchiam meus ouvidos e abalavam meu ser. Quatro delas. No centro, ao redor do Trono. Cheias de olhos por diante e por detrás. O primeiro ser era semelhante a leão. O segundo, a novilho. O terceiro tinha rosto de homem. O quarto era semelhante a uma águia em voo. Cada uma delas, porém, não era um animal. Eram seres, querubins das ordens mais elevadas, e os olhos… os olhos eram incontáveis, revestindo-as por completo. Nada escapa ao seu olhar. Eles veem a criação inteira, a história toda, de uma vez só. Eles veem Deus face a face.

E não paravam. Dia e noite — se é que esses termos tinham significado ali —, elas proclamavam sem cessar: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, Aquele que era, que é e que há de vir.”

Cada vez que essas palavras ecoavam, os vinte e quatro anciãos se prostravam diante d’Aquele que vive para todo o sempre. Eles lançavam suas coroas diante do Trono, num ato de rendição que era a mais alta expressão de honra. E eu entendi, numa epifania que doía: as coroas eram reais, conquistadas na jornada da fé, mas nenhuma glória é nossa. Toda honra retorna à fonte.

E os anciãos cantavam. Sua voz era como o som de muitas águas misturado com o tilintar de harpas celestiais. “Digno és, Senhor nosso e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas.”

A cena era de uma atividade intensa, mas de uma ordem perfeita. O rugido, os trovões, o canto, o estremecimento do chão sob os pés das criaturas viventes quando se moviam. E elas se moviam. Cada uma das criaturas, em seu turno, dava glória, honra e ações de graças àquele que estava assentado no trono. O leão com um rugido de adoração que ecoava os trovões. O novilho com uma força solene e paciente. O homem com a inteligência e a emoção da criação feita à imagem de Deus. A águia com o grito agudo que atravessava as distâncias.

Eu não era um participante. Era um espectador esmagado. Um grão de poeira em uma catedral cósmica. A teologia que eu estudara, os comentários que escrevera, as discussões acadêmicas — tudo se reduzia a pó diante daquela realidade manifesta. A Trindade ali era evidente: o Pai no Trono, os sete Espíritos diante dele, e o Cordeiro que eu sabia, por outras visões, que entraria em cena. Era o governo de Deus, a corte celestial, a adoração eterna que sustenta o universo.

A visão começou a se desfazer — ou talvez fosse minha capacidade de contenção que chegava ao fim. O último que ouvi, como um eco que se instalou permanentemente no meu peito, foi o refrão interminável das criaturas: “Santo, Santo, Santo”. E percebi, com uma certeza que nunca mais me abandonou, que aquele era o ritmo cardíaco da criação. Tudo o mais é silêncio, ou ruído. O propósito de tudo, de todos, é se juntar aquele canto.

E quando voltei a mim, no meu aposento simples, o silêncio era ensurdecedor. Mas dentro dele, bem no fundo, ainda conseguia ouvir o trovão. E sabia que, em algum lugar além do véu, a adoração nunca cessou. Ainda não cessa.

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