O sol da tardinha não aquecia; era um disco de cobre sujo pendurado sobre os montes de Samaria. Na varanda ampla de uma casa de pedra lavrada, com vista para os vales que já começavam a escurecer, Obedias esticou os braços e soltou um suspiro profundo de satisfação. O cheiro de carne assada ainda pairava no ar, misturado ao aroma doce do vinho derramado em libação sobre o altarzinho particular que ele mantinha no jardim. Dois bezerros cevados, um para ele e outro para os convidados, haviam virado fumaça e digestão. Ele arrotou baixinho, educadamente, e passou a mão sobre o tecido macio de seu manto novo.
Mais abaixo, nos degraus de pedra que levavam à fonte da cidade, uma mulher chamada Raquel tentava fazer a água parar de tremer nas palmas de suas mãos. Não era o vento. Eram seus próprios membros, finos como gravetos depois de três estações de colheitas minguadas. Seu filho mais novo, um menino de olhos muito grandes, encostava a cabeça em seu quadril, sem forças para chorar. Ela ouvira os cantos e as risadas que desciam das casas altas, o som das harpas, e sentira o cheiro da carne que não era para os seus. Seu estômago roncou, um som baixo e vergonhoso. Ela olhou para a água, escura agora no poço, e pensou que nem mesmo as fontes pareciam dar de beber com alegria.
Amós via tudo. Não de uma varanda, mas da soleira de uma porta estreita, no bairro dos artesãos. O cheiro da gordura queimada dos sacrifícios opulentos chegava até ele, mas trazia consigo outro cheiro, imaginário e mais forte: o de podridão. Era o cheiro dos tribunais onde o justo era vendido por um par de sandálias, dos celeiros transbordantes construídos sobre lágrimas secas, das festas religiosas que eram um estrondo de címbalos para ouvidos surdos. Ele fechou os olhos, e as palavras começaram a se formar não como poesia, mas como um peso no peito, uma pedra de moinho atada ao espírito.
Na manhã seguinte, o mercado estava agitado. Obedias caminhava entre as barracas, acompanhado de um escravo que carregava suas compras. Ele parou diante de um vendedor de tecidos, acariciando um rolo de linho fino do Egito. Foi então que ouviu uma voz. Não era alta, mas cortava o burburho como uma faca.
“Ouvi esta palavra, vós, vacas de Basã que estais no monte de Samaria!”
Obedias virou-se, irritado. Quem ousava? Viu um homem de semblante curtido pelo sol, vestes simples, mãos calejadas. Um criador de gado ou coletor de sicômoros do sul. Um intruso.
“Que insolência é esta?”, rosnou Obedias, mas a voz do homem, Amós, seguiu, pesada e clara, dirigindo-se a todos e a ninguém.
“Que oprimis os pobres, que esmagais os necessitados, que dizeis a vossos senhores: ‘Trazei, e bebamos!’… O Senhor Javé jurou pela sua santidade: Eis que vêm dias sobre vós em que vos levarão com ganchos e o que restar de vós, com anzóis de peixe.”
Uns riram, nervosos. Outros baixaram a cabeça e seguiram caminho. Obedias sentiu um calafrio, mas o afogou em indignação. Superstição de camponês. Ofereceria um sacrifício maior no próximo shabbat.
E os dias vieram. Primeiro, foi a esterilidade que chegou sorrateira. Nos campos que pertenciam a Obedias, a terra, antes generosa, pareceu fechar-se. O trigo brotou raquítico, as espigas nasciam vazias, apenas palha que estalava sob o sol. “Acaso”, dizia Amós nas praças, sua voz agora uma presença constante e incômoda, “não foi assim em Gaza e em Asdode? Eu retive de vós a chuva, quando ainda faltavam três meses para a ceifa; fiz chover sobre uma cidade e sobre a outra não; sobre um campo caía chuva, e o outro, sobre o qual não chovia, secava.”
Raquel e suas vizinhas peregrinavam de uma fonte a outra, seus cântaros cada vez mais leves. A fome, que antes era um fantasma nos bairros baixos, começou a subir as colinas. Obedias mandou comprar grãos da Fenícia, mas os preços eram extorsivos. Ele cortou luxos, vendeu uma joia. Ainda assim, o cheiro de carne assada tornou-se raro em sua varanda.
Depois, vieram os ventos quentes do leste. Eles sopraram por sete dias, trazendo consigo um pó fino e abrasivo que entranhava-se em tudo. As folhas das videiras e das figueiras, já debilitadas, murcharam e caíram como se queimadas. A praga da ferrugem consumiu os jardins. “Ferrugem nos vossas hortas e nas vossas vinhas”, a voz do profeta ecoava, lembrando a todos. “A vossa figueira e a vossa oliveira o gafanhoto devorou.” Ninguém ria mais. Os olhares para Amós eram de medo, ou de ódio surdo.
A peste chegou sem alarde. Primeiro nos animais. Os rebanhos nos vales começaram a definhar, tossindo sangue, tombando com os olhos vidrados. Depois, nos bairros apertados onde a miséria era morada antiga, a doença encontrou lar fértil. O lamento subiu de muitas casas. Raquel perdeu a filha mais velha, uma adolescente que há muito não ria. Ela a envolveu em um lençol puído, e suas lágrimas eram salgadas e escassas. “Mandei entre vós a peste, como fiz ao Egito”, a sentença pairou sobre a cidade como uma nuvem de gafanhotos mortos.
O pior, para a arrogância de Samaria, foi o golpe final. Um terremoto. Não foi o primeiro, mas foi o mais seletivo. Não abalou as fundações profundas dos palácios, construídos sobre a rocha. Mas desmoronou casas mal construídas com a pedra roubada dos salários não pagos. Soterrou os muros de celeiros erguidos com ganância. A fonte principal rachou, e a água diminuiu para um fio turvo. O pânico foi geral. Nos templos de Betel e de Gilgal, os sacerdotes ofereceram sacrifícios em dobro, queimaram incenso até a exaustão. Obedias, pálido, foi pessoalmente levar suas oferendas mais caras.
E Amós estava lá, de pé entre os escombros de uma casa, sua poeira misturada à poeira da cidade. E sua voz, agora cansada, grave como o rolar de pedras no abismo, declarou o que todos sabiam, mas não queriam ouvir:
“Fiz perecer a alguns de vós, como Deus pereceu a Sodoma e Gomorra; e fostes como um tição arrebatado do incêndio.”
Ele olhou para os sobreviventes atônitos, para os ricos cobertos de pó e medo, para os sacerdotes com as mãos manchadas de sangue ritual.
“Ainda não vos convertestes a mim”, disse, e a frase soou não como uma pergunta, mas como uma lápide. “Por isso, assim te farei, ó Israel; e porque isto te farei, prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus.”
O silêncio que se seguiu foi mais profundo que o ruído da queda. Era o silêncio do destino interceptado, da festa que terminara, do encontro marcado que não se pode adiar. Obedias sentiu, finalmente, não medo da perda, mas terror da Presença. Aquele Deus a quem ele ordenava sacrifícios como a um subalterno, vinha. E não vinha para a sua varanda perfumada. Vinha para encontrar-se com ele no meio dos escombros que ele, sem saber, ajudara a construir.
A tarde caía de novo sobre Samaria. Não havia cheiro de carne assada. Apenas poeira, lamento e uma palavra pesada no ar, esperando para se cumprir. E Amós, o homem das mãos calejadas, virou as costas para a cidade e começou a descer o caminho em direção ao vale, levando consigo apenas o eco do encontro que todos, ricos e pobres, agora temiam.




