O calor de Babilônia era diferente. Em Jerusalém, o ar carregava o cheiro da terra após a chuva, o incenso do templo, o suor do povo apressado nas ladeiras de pedra. Aqui, o ar era pesado, espesso, impregnado com o odor do rio Eufrates, da argila cozida ao sol e de uma multidão de línguas estranhas. Daniel sentiu o peso daquele ar ao descer do grupo de cativos, as algemas deixando marcas vermelhas e doloridas em seus pulsos. Não eram as correntes que mais o apertavam, mas o silêncio. O silêncio profundo que havia dentro dele desde que vira as muralhas de sua cidade desaparecerem no horizonte, engolidas pela poeira da marcha forçada.
Nabucodonosor, rei da Babilônia, não era um homem de pequenos gestos. Sua vitória deveria ser perpetuada não apenas em monumentos de tijolos esmaltados, mas na própria engrenagem do seu poder. Por ordem expressa do rei, Aspenaz, chefe dos eunucos do palácio, foi encarregado de selecionar jovens da linhagem real e da nobreza de Judá. Não serviam quaisquer jovens. Eram necessários os bem nascidos, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria, cultos e inteligentes, os que tivessem habilidade para servir no palácio real. Deviam ser ensinados na literatura e na língua dos caldeus.
Daniel foi um dos escolhidos. Seus olhos, ainda turvos pela dor do desterro, observaram o esplendor opressor do palácio. Os muros altíssimos não falavam de proteção, mas de posse. Os jardins suspensos, uma lenda verdejante contra o céu azul-acinzentado, eram um triunfo da vontade humana sobre a natureza – uma vontade que, ele percebia, não conhecia limites. Aspenaz, um homem de rosto impassível e olhos que pareciam calcular o valor de tudo e de todos, lhes atribuiu novos nomes. Era um ato de conquista final, apagar a identidade, a história, a ligação com o Deus de seus pais.
Daniel tornou-se Beltessazar. Hananias, Misael e Azarias receberam os nomes de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Os nomes hebraicos, que carregavam o significado e a memória do Eterno, foram soterrados sob invocações a deuses babilônicos: Bel, Marduque, Nego. À noite, no aposento que dividiam com outros jovens, eles sussurravam seus verdadeiros nomes, como um mantra de resistência.
O treinamento era intenso. Mestres caldeus os instruíam em matemática, astronomia, o complexo sistema de presságios e augúrios, a língua acádia escrita em caracteres cuneiformes sobre tabuletas de argila. Daniel aprendia. Sua mente, afiada pelas Escrituras e pela lei, absorvia o conhecimento novo com uma clareza que impressionava seus instrutores. Mas havia uma linha que seu espírito se recusava a transpor.
A porção diária da comida do rei e do vinho que ele bebia foi designada para sustentá-los. Era lógico, do ponto de vista de Aspenaz: eles deveriam ser nutridos, robustecidos, assimilados física e culturalmente. A mesa de Nabucodonosor era lendária, um símbolo de sua riqueza e poder. No entanto, para Daniel, aquele alimento representava muito mais do que nutrição. A lei mosaica, gravada em seu coração desde a infância, era explícita sobre os alimentos puros e impuros. Além disso, a comida da mesa real era primeiramente oferecida aos ídolos, consagrada a deuses falsos. Participar daquela refeição significaria uma contaminação ritual, uma conformação silenciosa com um sistema que negava tudo o que ele era e em quem acreditava.
Uma convicção firme se formou dentro dele. Não era um impulso rebelde, mas uma quieta e profunda decisão de fidelidade. Ele, no entanto, era prudente. Não fez discursos, não se revoltou abertamente. Em vez disso, procurou Aspenaz, num momento de relativa privacidade.
“Senhor Aspenaz,” disse Daniel, sua voz calma mas firme, “peço que meus companheiros e eu sejamos postos à prova por dez dias. Em vez da porção designada da comida e do vinho do rei, permita-nos comer apenas legumes e beber apenas água. Após esse período, compare nossa aparência com a dos jovens que comem a porção real e, então, decide conforme vires.”
Aspenaz ficou perturbado. Seus olhos estreitaram. Ele gostava de Daniel, via nele um potencial extraordinário, uma luz rara de inteligência e caráter. Mas a proposta era perigosa. “Temo o rei, meu senhor,” respondeu, sua voz um sussurro áspero. “Ele mesmo designou a comida e a bebida de vocês. Se ele vir vocês com pior aparência do que os outros jovens da mesma idade, vocês porão a minha cabeça em perigo diante do rei.”
Daniel manteve o olhar sereno. “Por dez dias apenas. E que se faça conforme o teu servo pede. Se ao final estivermos piores, aceitaremos a sentença.” Havia uma fé tão tranquila naquele pedido que, contra toda a lógica política e o medo instintivo, Aspenaz concordou. Talvez fosse a curiosidade de ver se aquela fé peculiar produzia algum resultado tangível.
Os dez dias que se seguiram foram de simplicidade austera. Enquanto os outros jovens se deliciavam com manjares temperados, carnes ricas e vinho forte, Daniel, Hananias, Misael e Azarias se alimentavam de uma dieta frugal de grãos, lentilhas, pepinos e água pura. O cheiro das iguarias reais era uma tentação constante, um lembrete do conforto e da aceitação que poderiam ter. Mas eles se fortaleceram uns aos outros, oravam em segredo, e mantinham seus corações voltados para um horizonte distante, para as colinas de Judá e para o Deus que, mesmo no exílio, eles acreditavam ouvir.
Ao final do décimo dia, Aspenaz os examinou com um olhar crítico e apreensivo. Percorreu seus rostos, observou a textura da pele, o brilho dos olhos, a postura. Depois, chamou os outros jovens que haviam comido da mesa do rei e os colocou lado a lado. O resultado era inegável, quase desconcertante. Daniel e seus amigos não apenas não estavam pálidos ou enfraquecidos. Suas faces pareciam mais sadias, com um vigor que faltava nos outros. Seus olhos tinham uma claridade, uma vivacidade que impressionava. Eles pareciam, sob todos os aspectos, mais bem nutridos e com melhor disposição do que todos os demais.
Aspenaz, homem do palácio, acostumado a presságios no fígado de carneiros e nos movimentos dos astros, viu ali um fato concreto e inexplicável por suas artes. Sem mais questionar, retirou a porção da comida e do vinho que lhes era destinada e passou a lhes dar legumes. A objeção silenciosa de Daniel havia vencido, não por confronto, mas por um testemunho visível.
Os anos de treinamento se passaram. Deus concedeu a Daniel, Hananias, Misael e Azarias conhecimento e inteligência em toda literatura e sabedoria. Aos quatro jovens, Ele deu um dom especial. Mas a Daniel, deu algo ainda mais singular: o entendimento de todos os tipos de visões e sonhos.
Quando finalmente se completou o tempo determinado pelo rei para que os jovens fossem trazidos à sua presença, Aspenaz os apresentou a Nabucodonosor. O rei conversou com todos eles, e não encontrou ninguém comparável a Daniel, Hananias, Misael e Azarias. Eles se tornaram seus servos pessoais. Em toda matéria que exigia sabedoria e discernimento, sobre as quais o rei os interrogava, ele os achou dez vezes mais competentes do que todos os magos e encantadores que havia em todo o seu reino.
Daniel permaneceu ali, nas entranhas do império que havia destruído sua casa. Vestia agora as roupas finas de um servidor real, respondia pelo nome babilônio que tentavam impor a ele. Mas, ao fechar os olhos à noite, no silêncio de seus aposentos, ele sabia que o sabor que permanecia em sua boca não era o dos manjares do rei, mas o simples sabor da fidelidade. E que seu verdadeiro nome, aquele que ecoava nos ouvidos do Deus a quem servia, ainda era Daniel – “Deus é meu juiz”. No exílio, sob um céu estrangeiro, aquele nome, e a firme quietude que o sustentava, eram seu último e mais precioso território.




