Bíblia em Contos

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O Último Refúgio Negado

A poeira baixa de Mispa ainda carregava o cheiro de cinzas e derrota. O sol da tarde, amarelado e pesado, banhava o acampamento precário onde um resto de Judá se aglomerava, um povo reduzido a sombras. Johanan, filho de Careá, sentia o peso do olhar de todos sobre sua nuca. Ele havia reunido os chefes das tropas e os últimos do povo – camponeses, mulheres com os rostos marcados, crianças quietas demais – e agora todos esperavam. Mas não era a ele que olhavam, no fundo. Era para a figura idosa e um pouco curvada que se afastava, caminhando com lentidão solene em direção ao seu modesto aposento.

Jeremias. O nome ecoava como um badalo grave no silêncio da assembleia. O profeta que havia previsto a ruína, que havia carregado o jugo de madeira pelas ruas, que sobrevivera ao cativeiro e ao massacre. Em seus olhos, pensava Johanan, devia haver um reflexo do fogo que consumira o Templo. Uma parte dele queria apenas seguir em frente, tomar seus homens e as famílias e fugir para o Egito, longe da mão babilônica, longe da memória do estrondo das máquinas de cerco. Mas outra parte, uma voz teimosa e profunda, sussurrava que não se podia simplesmente ignorar um homem que conversava com o Eterno.

Foram dez dias. Dez dias de uma espera que arranhava os nervos. No acampamento, as conversas eram sussurradas e cheias de conjecturas. Uns diziam que Jeremias estava em êxtase, outros que hesitava, outros ainda que talvez Deus já não lhe falasse mais. Azarias, filho de Maaseias, um dos capitães, argumentava com voz firme que a decisão já estava tomada em seus corações. “Para que esperar? O Egito nos oferece pão e segurança. Aqui, somos alvos fáceis para a vingança de Baalis, o amonita, ou para algum capricho do vice-rei babilônio.” Johanan ouvia, assentia, mas não partia. Havia feito um juramento solene, diante de todos: “Que o SENHOR seja testemunha verdadeira e fiel contra nós se não fizermos segundo toda a palavra que o SENHOR, teu Deus, te enviar a nos dizer. Seja boa ou má, obedeceremos à voz do SENHOR, nosso Deus, a quem te enviamos, para que nos suceda bem, obedecendo à voz do SENHOR, nosso Deus.”

As palavras, na hora, soaram tão certas, tão piedosas. Agora, à espera, pareciam pesadas como pedras de moinho amarradas ao pescoço.

No décimo dia, ao crepúsculo, Jeremias saiu. Não houve trombeta, nem clamor. Ele simplesmente apareceu à entrada da praça onde o povo se ajuntava, seu rosto parecido mais do que nunca com uma figura esculpida em rocha pelo vento e pela dor. Um silêncio absoluto caiu, quebrado apenas pelo choro distante de um bebê. Johanan sentiu um frio na espinha.

A voz de Jeremias não era poderosa, mas cortava o ar quieto como uma lâmina fina.

“Assim disse o SENHOR, Deus de Israel, a quem me enviastes para apresentar a vossa súplica perante ele: Se ficardes nesta terra, então vos edificarei e não vos derrubarei; plantar-vos-ei e não vos arrancarei. Pois estou arrependido do mal que vos tenho feito.”

As palavras caíram como chuva em terra ressecada. *Ficar*. Aquela terra devastada, sob a sombra da Babilônia? Era o oposto de todo plano, de todo instinto de sobrevivência. Jeremias continuou, e o tom se aprofundou, tornou-se grave, quase urgente.

“Não temais o rei da Babilônia, a quem vós temeis. Não o temais, diz o SENHOR, porque eu sou convosco, para vos salvar e livrar da sua mão. Concederei misericórdia, e ele terá misericórdia de vós, e vos fará voltar para a vossa terra.”

Era um convite para uma fé absurda. Confiar no carrasco. Plantar vinhas nas cercanias de Jerusalém fumegante. Johanan viu Azarias cruzar os braços, seu rosto um muro de ceticismo.

Então, veio a outra face da mensagem. A voz de Jeremias, sem alterar seu volume, adquiriu uma qualidade profética terrível, aquela que todos reconheciam das antigas advertências não ouvidas.

“Mas, se disserdes: Não ficaremos nesta terra; não obedeceremos à voz do SENHOR, nosso Deus, dizendo: Não; mas iremos à terra do Egito, onde não veremos guerra, nem ouviremos o som de trombeta, nem teremos fome de pão; e ali ficaremos… Então, ouvi agora a palavra do SENHOR, ó resto de Judá: Assim disse o SENHOR dos Exércitos, Deus de Israel: Se vós firmardes o vosso rosto para entrar no Egito, e lá entrardes para habitar, então, a espada que vós temeis vos alcançará ali, na terra do Egito; e a fome que receais vos seguirá de perto no Egito; e ali morrereis.”

Era um quadro vívido, terrível. A segurança buscada se transformaria no próprio cadinho da destruição. O Egito, longe de ser um refúgio, seria seu túmulo coletivo. A idolatria que os havia condenado antes os engoliria ali. “E sereis por maldição, e por espanto, e por motejo, e por opróbrio entre todas as nações para onde eu vos levar.”

Jeremias fitou Johanan diretamente, e depois Azarias, e cada um dos capitães. Seus olhos eram dois poços de tristeza infinita.

“Pois vós vos enganastes a vós mesmos nas vossas próprias almas; porque fostes vós que me enviastes ao SENHOR, vosso Deus, dizendo: Ora por nós ao SENHOR, nosso Deus; e conforme tudo o que disser o SENHOR, nosso Deus, assim declara-no-lo, e o faremos. E eu vo-lo declarei hoje, mas não destes ouvidos à voz do SENHOR, vosso Deus, nem a tudo quanto ele me enviou a dizer-vos.”

A acusação final ecoou na praça. Eles já haviam decidido. A consulta fora uma farsa, um ritual vazio para buscar uma aprovação divina para um caminho já escolhido. Johanan sentiu um calor de vergonha subir-lhe ao rosto. Jeremias se virou e retornou à sua tenda, deixando o peso da palavra de Deus pairando no ar, tangível como a poeira do entardecer.

A noite caiu sobre Mispa. Em torno da fogueira, os líderes se reuniram. A palavra de Jeremias foi posta em julgamento, não por eles, mas por seu próprio medo.

“Ele está velho,” começou Azarias, sua voz contida. “Amargurado pela destruição. Vê lealdade onde há apenas submissão. Gedalias, o governador que os babilônios puseram, era seu amigo, e foi assassinado. Ele quer que fiquemos por causa de um morto.”

Outro capitão acrescentou: “O profeta Hananias, lembrais? Também falou em nome do SENHOR, e disse que o jugo seria quebrado. E morreu. Quem diz que Jeremias, agora, vê claro?”

Johanan ouvia, observando as chamas. A promessa de segurança, de paz, de pão no Egito era tão doce, tão concreta. A promessa de Deus era… ficar. Ficar e confiar. Confiar no inimigo. Era um salto no escuro muito maior do que a marcha para o sul, através do deserto, até os celeiros do Nilo.

“Fizemos um juramento,” murmurou Johanan, mas as palavras soaram fracas.

Azarias colocou uma mão firme em seu ombro. “Fizemos um juramento de obediência ao que fosse melhor para o povo. O profeta Baruque, o escriba de Jeremias, influencia-o. Dizem que ele sempre foi inclinado à submissão. Irmão, nós somos responsáveis por estas vidas. Podemos arriscá-las numa palavra etérea, ou levá-las a um lugar de fartura conhecida?”

A racionalização foi se assentando, camada após camada, sobre a palavra profética, até enterrá-la completamente. Ao amanhecer, a decisão estava tomada. Não como uma rebelião aberta, mas como um triste, firme consenso do coração decaído.

Quando Johanan e os capitães se aproximaram de Jeremias para dar a resposta, não houve confronto. Apenas uma declaração serena e falsa.

“Mentira é o que tu falas,” disseram eles. “O SENHOR, nosso Deus, não te enviou a dizer: Não entreis no Egito, para ali habitar. Mas Baruque, filho de Nerias, te incita contra nós, para nos entregar na mão dos caldeus, para nos matar ou para nos levar cativos para a Babilônia.”

Era mais fácil acusar o mensageiro de conspiração do que enfrentar a terrível simplicidade da mensagem. Johanan evitou os olhos do profeta. Pegaram todo o resto do povo, os homens, as mulheres, as crianças, e até Jeremias e Baruque, contra sua vontade, e partiram. Deixaram para trás a terra da promessa, o chão onde Deus dissera que os restauraria, e se puseram em marcha para o Egito.

Anos depois, nas margens do Nilo, em Tafnes, Johanan, agora grisalho e com o mesmo olhar desolado das mulheres que vira em Mispa, assistia sua filha pequena fazer uma oferenda de bolos à Rainha dos Céus, no altar que haviam construído no pátio. O cheiro do incenso egípcio era espesso e enjoativo. Lembrava-lhe, de forma aguda e dolorosa, o cheiro das cinzas de Jerusalém. A palavra de Jeremias, que eles haviam rejeitado com tanta convicção, ecoava em sua memória com uma clareza brutal, não como uma voz de ira, mas como a descrição exata e terrível do destino que eles mesmos escolheram. A segurança fora uma miragem. A espada e a fome os encontraram. E a última coisa que Johanan entendera, tarde demais, foi que ao rejeitar a palavra, não estavam desobedecendo a um homem velho e teimoso, mas virando as costas ao único refúgio que jamais poderia falhar. O silêncio de Deus, agora, era a única resposta.

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