Era o fim de uma longa tarde, e o rei Lemuel, já com os cabelos tão brancos quanto a espuma do mar de Tiro, sentia o peso dos anos nos ossos. O ar no terraço do palácio era quente, carregado do cheiro doce de figos secos e da poeira que a brisa trazida do deserto levantava. Ele não escrevia mais com a firmeza de outrora; a mão, marcada por cicatrizes de batalhas e pelo tempo, tremia ligeiramente sobre o papiro. Mas o que ia registrar não era lei, nem decreto. Era uma memória. Ou melhor, um eco de memória, a voz suave e firme de sua mãe, que há muito repousava com seus pais.
Ele começou a escrever, as palavras do princípio do texto já gravadas em seu coração: “Palavras do rei Lemuel, de Massá, as quais lhe ensinou sua mãe.” Um sorriso cansado lhe tocou os lábios. Ela não era uma mulher de muitas palavras, sua mãe. Mas as que dizia, cravavam. Lembrou-se de quando era apenas um jovem príncipe, impulsivo e cheio de fogo. Ela o chamara à sua sala privada, onde o único luxo era um grande tear de madeira e o aroma persistente de ervas.
“Meu filho,” dissera ela, sem levantar os olhos do fio de linho que passava com precisão entre os fios da urdidura, “a que dedicarás tua força? A mulheres que destroem reis? A bebidas que apagam a razão?” Sua voz era calma, mas cada palavra era como um ponto firme no tecido. “Não. Abre tua boca em favor do que não tem voz, pelo direito de todos os desamparados. Sê rei, não apenas de nome.”
Lemuel suspirou, olhando para além das muralhas, onde a cidade começava a acender suas primeiras luzes. Ele tentara seguir aquele conselho. Mas agora, no crepúsculo de sua vida, o ensinamento que mais lhe queimava na alma era a outra parte, a descrição que ela tecera com palavras, muito antes de ele compreender seu significado pleno.
E então, sua pena começou a mover-se, descrevendo não uma mulher idealizada e distante, mas um retrato composto de mil cenas reais, uma mulher que era, ele agora entendia, o próprio retrato de sua mãe.
“Uma esposa virtuosa, quem a achará?” escreveu. E imediatamente, sua mente o transportou. O valor não era em pedras preciosas, mas na confiança absoluta que seu pai depositava nela, saindo para os negócios da cidade com o coração em paz, sabendo que o lar, os bens, a própria honra da família estavam em mãos mais capazes que as suas. Ela lhe fazia o bem, e não o mal, todos os dias da sua vida.
A pena corria, e com ela vinham as imagens. Ela buscando lã e linho com olhos de conhecedora, apalpando os tecidos, regateando com firmeza e bom humor. Não era uma compradora passiva; suas mãos trabalhavam com prazer. Lemuel fechou os olhos e viu, claro como se fosse ontem, as mãos de sua mãe, ágeis e fortes, no tear. O *clac, clac* do batente era a trilha sonora de sua infância. Mas ela não se limitava ao tear. Era como uma nau mercante que traz de longe as suas provisões. Lembrou-se de um inverno particularmente rigoroso, quando ela, sabendo de uma remessa de lã finíssima vinda de Damasco, organizara ela mesma uma pequira caravana para encontrá-la no meio do caminho, garantindo o melhor preço e a qualidade que ninguém mais na cidade teria.
Levantava-se quando ainda era noite escura. A casa, sob seu comando, não despertava ao acaso. Havia um ritmo, uma sinfonia doméstica. As criadas recebiam ordens precisas. Ele via, em sua memória, a mesa da cozinha ao amanhecer: pães ainda quentes, uma mistura de farelos e trigo nobre para as servas, e para a família, pão fino. Tudo planejado. Tudo com propósito.
Ela olhava para um campo e não via apenas terra; via potencial. Com o que economizava, comprava uma vinha. Não por capricho, mas com cálculo. As mãos que manejavam o fuso e a roca eram as mesmas que, cingidas de força, firmavam os braços na roda do oleiro ou inspecionavam as videiras. Não havia dicotomia entre o doméstico e o comercial; era tudo parte da boa administração da vida que Deus lhe confiara.
A pena parou por um momento. Lemuel olhou para suas próprias mãos, mãos que brandiram espadas e assinaram tratados. E então lembrou-se: sua túnica mais fina, a que usava nas audiências importantes, era obra das mãos de sua mãe. O linho era fresco no verão, quente no inverno. As vestes de escarlate não eram apenas um símbolo de realeza; eram um testemunho de seu labor e cuidado. Seu próprio pai, nas assembleias dos anciãos à porta da cidade, era respeitado não apenas por sua sabedoria, mas porque sua vida familiar era um alicerce visível e sólido. A honra dele começava no tear da esposa.
Ela fazia vestes de linho fino e as vendia. Fornecia cintos aos mercadores. Fornecia a ele, rei, a base de um reino estável: um lar que não era um fardo, mas um centro de produção e sabedoria. A força e a dignidade eram suas vestes. E, olhando para o futuro — um futuro que ele, Lemuel, agora habitava — ela podia rir dos dias por vir. Não por leviandade, mas por confiança. A sabedoria estava em sua língua. A lei da bondade, na sua boca. Ele nunca a ouvira espalhar boatos ou oprimir uma serva com palavras ásperas. Suas instruções eram claras, às vezes duras, mas sempre justas.
Não era uma mulher ociosa. Os filhos, ele e seus irmãos, cresceram vendo-a vigilante. As lâmpadas da casa não se apagavam à noite enquanto houvesse trabalho a fazer, seja costurando uma barra, seja preparando provisões para uma viagem. Suas mãos se estendiam ao pobre, ao necessitado. Lembrou-se de uma seca, e de sua mãe organizando a distribuição de mantimentos dos seus próprios celeiros, sem alarde, sem buscar glória.
Para a sua própria casa, não temia a neve. Porque todos estavam vestidos com mantas duplas que ela mesma tecera. As próprias cortinas de sua cama eram de linho fino e púrpura — trabalho seu, orgulho da família.
Seu marido, seu pai, era conhecido na porta da cidade, onde se assentava com os outros anciãos. Mas todos sabiam que parte daquela autoridade serena vinha da mulher que mantinha seu castelo em ordem, produtiva e pacífica.
Fazia cobertas de tapeçaria; suas vestes eram de seda e púrpura. Não por vaidade frívola, mas porque o fruto do seu trabalho lhe permitia essa beleza. Era uma rainha sem título, cuja influência se estendia muito além das paredes do seu lar.
Finalmente, Lemuel chegou ao fim do retrato. “Abre a sua boca com sabedoria, e o ensino da bondade está na sua língua.” Ele a ouvira tantas vezes. E agora, a última linha: “Enganosa é a graça, e vã é a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa será louvada.”
A pena descansou. O texto estava completo. Não era um manual. Era um memorial. Um elogio fúnebre escrito décadas antes da partida. Ele olhou para o papiro, a tinta ainda brilhante à luz do fim da tarde. A “mulher virtuosa” não era um mito. Era uma memória viva, cheirava a lã tingida, a pão fresco, a terra molhada da vinha. Tinha o rosto cansado e sábio de sua mãe, mãos calejadas e um coração que temia a Deus.
O rei deixou o terraço e entrou no palácio. No grande salão, sua própria esposa, já idosa também, supervisionava a arrumação para a refeição da noite. Seus movimentos eram tranquilos, eficientes. Seus olhos encontraram os dele e um sorriso de entendimento silencioso passou entre eles. O círculo se completava. O ensino não morrera. Estava ali, naquela mulher, na administração da casa, no respeito silencioso dos servos, no legado que passariam aos seus filhos.
E Lemuel entendeu que o maior elogio não estava escrito no papiro, mas vivido no tear contínuo da vida comum, fio a fio, ponto a ponto, sob o olhar daquele que dá a verdadeira sabedoria. O cântico de sua mãe, afinal, ainda não tinha terminado.




