Bíblia em Contos

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Bíblia

O Fogo e o Cativeiro

O ar dentro do templo parecia mais pesado naqueles dias, um silêncio espesso carregado de poeira de incenso queimado e expectativa murcha. Jeoaquim, sentado no trono que seu pai Josias deixara manchado de nobreza, não olhava para o Santo dos Santos. Seus olhos estavam fixos nas mãos, onde um rolo de pergaminho, trazido pelo barulhento profeta Uriah, era apenas um incômodo. As palavras de Jeremias ecoavam em sua cabeça como um zumbido irritante de inseto. “Arrependei-vos”, diziam. “Convertei-vos”. Ele rangia os dentes. Converter-se ao quê? À pobreza? À submissão? O rugido de Nabucodonosor, aquele novo abutre dos vales do Eufrates, era um rumor distante, mas crescente. Em vez de arrependimento, Jeoaquim escolheu a navalha. Rasgou o rolo, pedaço por pedaço, e atirou os fragmentos nas brasas de um braseiro que aquecia seus aposentos. A luz dançante das chamas consumiu as palavras “aliança” e “misericórdia” primeiro. O cheiro que subiu não era de madeira, mas de pele de carneiro queimada e tinta de carvão. Foi um ato íntimo, quase banal. Um homem destruindo um aviso porque não suportava seu tom. O profeta fugiu, escondendo-se como um rato perseguido. O rei, porém, sentiu um vazio frio depois do calor do fogo. O silêncio no templo, então, não era mais apenas espesso; era vazio.

Joacaz, seu irmão, teve um reinado tão breve que mal se fixou na memória das pedras da cidade. Três meses. Tempo suficiente para o Faraó Neco, passando como uma nuvem venenosa, decidir que ele tinha o cheiro errado. Foi levado para o Egito, corrente nos pulsos, e Jerusalém viu outro filho de Josias, Eliaquim, ser colocado no trono. Nabucodonosor, agora um abutre pousado, deu-lhe um novo nome: Jeoaquim. Era um ato de posse, como marcar gado. Por onze anos, Jeoaquim serviu. Serviu com o rosto cerrado e o coração em fúria contida. Pagou tributo em ouro saído dos cofres do templo, ouro que deixava marcas de arranhão nos sacos de linho. Mas, no décimo-primeiro ano, algo estalou dentro dele. Um resto do sangue de Josias, talvez, ou apenas o cansaço eterno de se curvar. Rebelou-se. Foi um erro calculado ou um impulso desesperado? As crônicas não dizem. O que veio depois foram grilhões de bronze, pesados e gelados, e a visão das muralhas de sua cidade, cada vez menores, de dentro de uma jaula sobre rodas, rumo à Babilônia. Ele morreu sem ver a terra de Canaã outra vez, e seu corpo, dizem, foi arrastado para fora dos portões de Jerusalém sem cerimônia, como o de um jumento.

Seu filho, Joaquim, de dezoito anos, herdou o trono e o desastre. Herdou os olhares de pânico dos ministros, os cofres mais vazios, a sombra imensa da águia babilônica pairando. Reinou três meses e dez dias. Tempo suficiente para saber o sabor do medo puro. Nabucodonosor não veio pessoalmente desta vez. Enviou seus generais, e o cerco não foi um evento épico, mas uma sufocação lenta. A fome começou nas vielas, entre os mais pobres. Depois, o rumor de que o próprio rei, a rainha-mãe, os eunucos, todos os que tinham sangue real ou serviço no palácio, seriam tirados dali. A rendição foi silenciosa. Não houve batalha final. Apenas o rangido dos portões sendo abertos e a entrada da hoste estrangeira, metódica e limpa, como cirurgiões cortando um tumor. Joaquim viu os tesouros da casa do Senhor serem carregados, peça por peça. Os utensílios de ouro que Salomão fizera, agora amassados e empilhados como sucata. Foi a primeira leva. Ele próprio foi um item do saque, marchando com seus olhos fixos no chão de terra batida, a caminho do exílio. Em seu lugar, Nabucodonosor colocou um tio, Matanias, e mudou-lhe o nome para Zedequias.

Zedequias. O último. Vinte e um anos, um homem de olhos hesitantes e coração dividido. Era jovem quando viu seu sobrinho ser levado. Talvez tenha pensado: “Comigo será diferente”. O profeta Jeremias estava ali ainda, uma figura desbotada e teimosa, sussurrando a mesma mensagem cansada: “Submete-te ao jugo do rei de Babilônia. Vive.” Mas os príncipes que restavam, homens de sangue quente e memória curta, sussurravam ao outro ouvido. Falavam de aliança com o Egito, daquela velha e traiçoeira esperança. Falavam de revolta. Zedequias ouvia um, depois o outro. Seu reinado foi uma longa agonia de indecisão. Ele enviava mensagens secretas a Jeremias, pedindo orações, enquanto seus próprios decretos violavam a lei mosaica. A injustiça corria pelas ruas como esgoto aberto. Os sacerdotes seguiam os ritos, mas seus corações estavam longe. O povo profanava o templo com idolatrias mesquinhas, buscando favores de deuses de madeira enquanto cuspiam no Deus de Abraão. Era uma afronta diária, constante, um cheiro de podridão espiritual que se infiltrava até nas pedras sagradas.

E então, Zedequias fez sua escolha. Rompeu o juramento feito no nome de Iahweh. Rebelou-se. Foi a gota que transbordou o vaso da ira, paciente por gerações. Nabucodonosor, desta vez, não enviou generais. Veio ele mesmo. Todo o exército da Babilônia se levantou como uma praga de gafanhotos de aço e couro, e cercou Jerusalém. Foi um cerco para entrar nos anais do horror. Por dezoito meses, a cidade agonizou. A fome deixou de ser uma sombra e tornou-se uma presença física, esquelética, nos olhos das crianças. Mulheres cozinhavam seus próprios filhos para comer. Não havia mais pranto, apenas um silêncio seco de desespero consumado.

No nono dia do quarto mês, quando as forças já não eram humanas, mas residuais, os caldeus arrombaram as muralhas. A cidade foi violada. Zedequias, vendo o fim, fugiu de noite com alguns soldados leais. Correram como ratos pelo caminho que levava à Arabá. Mas a fuga foi curta. Foram alcançados nas planícies perto de Jericó. O que se seguiu foi meticuloso e cruel. Zedequias foi levado preso até Ribla, à presença de Nabucodonosor. Primeiro, obrigaram-no a assistir. Mataram seus filhos, um após o outro, diante de seus olhos. O sangue deles, o último sangue de Davi, jorrou no chão estrangeiro. Depois, quando sua mente já estava em frangalhos, vazaram seus olhos. O último que viu foi a morte de sua linhagem. Em grilhões de bronze, cego e quebrado, foi arrastado para a Babilônia.

Um mês depois, o capitão da guarda babilônia, Nebuzaradã, entrou em Jerusalém. Sua tarefa não era de conquista, mas de conclusão. Queimou a casa do Senhor. As chamas lamberam a madeira de cedro entalhada com querubins, consumiram os véus de púrpura e azul, derreteram o que restava de ouro. O fogo crepitou alto, uma pira funerária visível por milhas. Depois, queimou a casa do rei, e todas as casas importantes. As muralhas, orgulho de séculos, foram desmanteladas, pedra por pedra, até que Jerusalém não fosse mais uma fortaleza, mas um monte de entulho fumegante. Os que sobraram da espada, os mais pobres e frágeis, foram levados cativos. Só alguns vinhateiros e lavradores foram deixados para trás, fantasmas em uma terra fantasma.

E assim a terra caiu em um sábado. Setenta anos de descanso forçado, para compensar todos os anos de sábado que Israel ignorara, profanara. A promessa desprezada tornou-se juízo consumado. O templo era cinzas. O trono, esfacelado. A linhagem de Davi, aparentemente extinta. O povo caminhava, em correntes, pelas estradas empoeiradas que levavam ao rio dos lamentos. Tudo parecia terminado.

Mas nas crônicas dos reis da Pérsia, um nome diferente começou a ser escrito. Ciro. E os profetas, mesmo no exílio, sussurravam sobre um remanescente. Sobre um Deus cuja ira, por mais completa que fosse, nunca era a última palavra. As cinzas de Jerusalém ainda estavam quentes, e já havia, no coração do exílio e nos rolos dos profetas, uma semente minúscula e teimosa de volta.

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