Bíblia em Contos

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Bíblia

A Fundação na Rocha

A chuva fina caía sobre Cafarnaum, um manto cinzento que amenizava o calor do dia e fazia o cheiro de terra molhada subir das vielas de pedra. Na casa de Simão, o barulho das gotas no telhado de madeira era um sussurro constante, quase abafando o burburinho que vinha de dentro. A sala, normalmente espaçosa, estava abarrotada. Corpos se apertavam uns contra os outros, rostos expectantes voltados para o homem sentado perto da janela aberta.

Ele falava há algum tempo, e sua voz, embora não elevada, carregava uma estranha autoridade que silenciava até o rangido mais teimoso do assoalho. Seus olhos percorriam a multidão, encontrando os de um jovem pescador com as mãos calejadas, os de uma mãe com uma criança no colo, os de um fariseu que observava de sobrancelhas franzidas, tentando decifrar cada palavra.

“Não julguem,” disse ele, e a frase pairou no ar úmido. “Para não serem julgados. Pois, da mesma forma que julgarem, vocês também serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês.”

Na segunda fila, Mateus, o coletor de impostos, baixou os olhos para suas próprias mãos, limpas e suaves, tão diferentes das daqueles homens do mar. Ele sentiu o peso de olhares que conhecia bem – de desdém, de acusação. A palavra “juiz” ecoou em sua mente, não como um verbo, mas como uma identidade que lhe haviam colocado. E agora, aquele Rabi dizia que a condenação que ele lançava sobre os outros era a mesma que acabaria por esmagá-lo. Era uma justiça circular e terrível.

O homem perto da janela fez uma pausa, e seus dedos traçaram um gesto suave no ar, como se estivesse removendo um cisco. “Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está no seu próprio olho? Como pode dizer ao seu irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu?”

Um sorriso contido surgiu nos lábios de alguns. A imagem era absurda, quase cômica: um homem com uma trave de telhado saindo do rosto, tentando, com solenidade ridícula, realizar uma cirurgia delicada no outro. Era uma hipérbole que atingia em cheio o orgulho farisaico, aquele que se especializava em catar os mínimos erros alheios enquanto seus próprios vícios monumentais passavam despercebidos. O fariseu que observava corou levemente, seu dedo polegar esfregando o indicador com nervosismo.

“Hipócrita!” a voz continuou, firme, mas sem ira. “Tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.”

A conversa então tomou um rumo que soou, a princípio, estranho. Ele falou sobre não dar coisas sagradas aos cães, nem atirar pérolas aos porcos. Um comerciante rico, sentado num tamborete, assentiu com compreensão. Ele entendia de valor. Pérolas eram para colecionadores, não para animais que as pisariam e, irritados, se voltariam contra quem as jogou. Era um aviso sobre discernimento, sobre não esbanjar a verdade profunda onde ela só seria rejeitada e profanada. Mateus pensou nas vezes em que tentara, de forma desastrada, justificar seu trabalho aos antigos amigos, só para ser recebido com cuspes e insultos.

Então, como quem oferece um conforto imenso após uma advertência severa, a voz se suavizou. “Peçam, e lhes será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta lhes será aberta. Pois todo o que pede, recebe; o que busca, encontra; e àquele que bate, a porta será aberta.”

A promessa era tão simples, tão direta, que parecia boa demais para ser verdade. Uma mulher com o rosto marcado pela preocupação fitou o Rabi com uma centelha de esperança nos olhos. Pedir? Buscar? Bater? Ela tinha batido tanto nas portas da vida, e elas só pareciam ter se fechado com mais força.

“Qual de vocês, se seu filho pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou se pedir peixe, lhe dará uma cobra?” O Rabi olhou para as crianças presentes, que ouviam atentas. “Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar coisas boas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem!”

Não era uma garantia de caprichos atendidos. Era a revelação de um caráter. A bondade fundamental do Pai celeste, comparada – e grandemente superior – à bondade imperfeita, mas real, de um pai terreno. A sala pareceu respirar aliviada.

Mas o alívio durou pouco. O tom mudou novamente, para algo solene e urgente. “Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram.”

A imagem era clara e desconcertante. A porta larga era convidativa, popular, fácil. Seguir a multidão, as opiniões convencionais, os apetites mais baixos. O caminho estreito, porém, exigia esforço, deliberação, desapego. Talvez até solidão. Mateus olhou para sua túnica fina, lembrando-se do caminho amplo e confortável do lucro fácil. O caminho apertado parecia pedregoso e íngreme.

Então vieram os avisos mais graves, que fizeram até os mais desatentos se estremecerem. “Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores.” O Rabi falava de árvores e seus frutos. Uma árvore boa não podia dar frutos ruins, nem uma árvore ruim dar frutos bons. Toda árvore que não desse bom fruto seria cortada e lançada ao fogo. A questão não era a aparência, a eloquência ou as vestes piedosas. Era o fruto. As ações. O caráter revelado na vida comum. O fariseu apertou os lábios. Suas ações eram meticulosas, mas que frutos eles realmente produziam? Aprovação social? Superioridade?

E então veio o fecho, a conclusão que atou todos os ensinamentos num nó de consequência inescapável. “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: ‘Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!’”

O silêncio foi total. Até a chuva pareceu parar por um instante. Era uma declaração chocante. Profecia, exorcismo, milagres – as credenciais máximas de um homem de Deus – rejeitadas com um “nunca os conheci”. A religião como espetáculo, como poder, como realização pessoal, era exposta como uma fraude colossal. O que importava era o fazer. A obediência. A vontade do Pai.

E para finalizar, a história. Duas casas. Dois construtores. A mesma aparência, talvez. O mesmo sol brilhando sobre os telhados. A diferença era invisível, escondida nas fundações. Um homem construiu sobre a rocha. Outro, sobre a areia. O Rabi descreveu a tempestade com uma vividez que fez todos olharem instintivamente para a chuva que caía lá fora. Os ventos uivaram, as torrentes bateram, a casa na areia desabou com um estrondo terrível. A casa na rocha permaneceu.

“Portanto,” e sua voz ressoou com a força final de um martelo batendo na estaca, “quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha.”

A reunião terminou. As pessoas começaram a se levantar, lentamente, como quem acorda de um sonho intenso. Uns sussurravam, outros estavam quietos, introspectivos. O fariseu saiu rapidamente, o rosto um músculo contraído. A mulher preocupada segurava sua criança com um novo vigor. Mateus ficou sentado, olhando as mãos vazias sobre os joelhos.

Lá fora, a chuva diminuíra para uma garoa. Ele saiu e começou a andar em direção ao lago, sem destino certo. As palavras ecoavam: “praticar”, “ouvir e fazer”, “fundamento”. Ele passou por uma área onde novas casas estavam sendo erguidas. Viu os trabalhadores cavando fundo, até encontrar a camada sólida de pedra abaixo da superfície de terra e areia. Era um trabalho árduo, sujo, não visto por ninguém depois que a casa estivesse pronta. Mas era tudo.

Mateus parou à beira do mar de Galileia, suas águas cinzentas e agitadas pelo vento. A casa de sua vida até ali estava construída sobre a areia movediça do dinheiro, da conveniência, do respeitoability vazio. Cada palavra do Rabi fora como a enxurrada batendo contra aquela frágil estrutura. Ele sentiu o estrondo interno, o desmoronar silencioso de tudo o que achava ser solidez.

E então, no meio daquele desastre íntimo, ele lembrou da promessa. “Batam, e a porta lhes será aberta.” A porta estreita. Difícil de encontrar, mais difícil ainda de atravessar. Ele não tinha pérolas para oferecer, só ciscos e vigas. Mas o Pai, aquele que dava coisas boas, conhecia o coração.

A chuva parou completamente. Um raio de sol fraco furou as nuvens, iluminando a superfície das águas. Mateus respirou fundo. O caminho à sua frente não era amplo, nem convidativo. Era apenas um trilho na margem, pedregoso e úmido. Mas pela primeira vez, ele sentiu que talvez estivesse olhando, não para o fim de tudo, mas para o começo de algo sólido. Algo que uma tempestade, por maior que fosse, não conseguiria derrubar.

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