Bíblia em Contos

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Bíblia

O Julgamento dos Montes de Israel

A palavra veio como um vento seco, aquele que sopra do leste, carregado de areia e do cheiro de coisas mortas. Não era mais apenas uma voz dentro de mim; era um peso no peito, uma claridade crua nos olhos que me fazia ver além das paredes de barro desta casa, além do rio que corta esta terra de exílio. Vi as montanhas de Israel.

Não as belas colinas de que cantam os salmos, não os altos outrora consagrados ao Santo. Vi-as como Ele as via: corpos inchados de pecado, ventres grávidos de ídolos. Cada serra, cada elevação do terreno, desde os cumes nevados do Hermom até as colinas arredondadas de Judá, estava cravejada de altares. Não eram monumentos discretos, mas chagas abertas na paisagem. Sobre todo monte alto e sob toda árvore frondosa, especialmente sob os carvalhos robustos, aqueles que vivem séculos e testemunham tudo em silêncio, eles se multiplicavam: os *bamot*, os lugares altos. A fumaça do incenso não era um aroma suave, mas um fedor que subia, uma mistura de canela e resina com o cheiro metálico do sangue de crianças oferecidas ao deus Moloque. Os *asherim*, postes sagrados para Asherah, erguiam-se como dedos ossudos apontando para um céu vazio, entalhados com obscenidades.

O peso no meu peito tornou-se insuportável. A voz, então, não veio aos ouvidos, mas dos própriso ossos.

“Filho do homem”, ecoou, e eu senti o chão tremer, não aqui, mas lá, naquelas montanhas profanadas. “Volta o teu rosto para os montes de Israel e profetiza contra eles.” A ordem era geográfica, era total. Não se dirigia a um rei, a um sacerdote apóstata. Dirigia-se à própria terra, cúmplice em seu relevo acidentado que escondia tanta abominação.

E eu profetizei. Minhas palavras, aqui no exílio, pareciam fracas, apenas sopros roucos na poeira babilônica. Mas lá, nas montanhas de Israel, elas ganharam corpo de catástrofe.

“Ouvi, montes de Israel”, gritei para o deserto à minha frente, mas vendo os picos rochosos. “Assim diz o SENHOR Deus aos montes e aos outeiros, às ravinas e aos vales: Eis que eu, sim eu, trarei a espada sobre vós, e destruirei os vossos altos.”

A sentença foi proferida. E no olhar que me foi concedido, vi o cumprimento. Não foi um exército organizado que chegou primeiro; foi um tremor. A terra, cansada de carregar tanta imundície, gemeu. As pedras dos altares, tão bem lavradas e assentadas, foram as primeiras a estremecer. Lascas de granito saltaram, derrubando os brazeiros de bronze. Os postes de Asherah, orgulhosamente plantados, inclinaram-se como bêbados e racharam com um estalo seco, feito de osso quebrado.

Então, a espada veio. Não como um relâmpago, mas como uma praga de gafanhotos metálicos. As legiões da Babilônia, o instrumento cego da ira divina, subiram por aqueles mesmos vales e colinas que haviam servido de refúgio para a idolatria. Não houve batalha épica, apenas uma colheita funesta. Os altares foram derrubados, não com reverência, mas com o ímpeto brutal de quem busca ouro entre as ruínas. Os ídolos, tão adorados, foram arrancados de seus nichos. Vi a imagem de Baal, um touro de rosto humano, ser arrastada com cordas por cavalos assírios. Seu rosto de pedra esborrachou-se contra uma rocha, e ninguém chorou. Os *sunstones*, os altares ao sol, foram virados de ponta-cabeça, suas faces lavradas para o oriente agora encarando a poeira do chão.

E o cheiro mudou. O incenso doce foi substituído pelo odor ácido da fumaça de incêndio. As cidades nos altos, aquelas que se julgavam inexpugnáveis pela elevação, foram engolidas por uma nuvem negra. Mas a ruína maior foi silenciosa. Era a dos cadáveres. A sentença foi terrivelmente específica: “Os seus mortos ficarão diante dos seus ídolos.” E assim foi. Nas clareiras onde antes se dançava em festivais ímpios, os corpos caíam, atravessados por lanças ou quebrados pela fuga desesperada. E ficavam ali, ao pé dos ídolos quebrados, uma comunhão macabra. A carne se decompunha sob o sol e as estrelas que eles haviam adorado, e os ossos branqueavam, salpicando a base de cada colina, cada monte alto. Ossos humanos, espalhados como gravetos secos, em volta dos altares.

Os vales, outrora cheios do murmúrio de ribeiros e do canto dos adoradores, ficaram entupidos de ossos. As colinas, antes recortadas contra o céu, agora pareciam bordadas de uma renda pálida e sinistra. E sobre tudo, um silêncio pesado desceu. Não o silêncio da paz, mas o da completa esterilização. “Farei a terra assolada e deserta”, e assim era. O grito das festas pagãs, o choro das vítimas sacrificais, o estalar do fogo nos altares… tudo se calou. Só restava o sibilar do vento cortando as fendas das rochas, passando pelos crânios vazios com um som flautado e fantasmal.

E então, o propósito daquela devastação minuciosa revelou-se, como um fio de ouro numa teia de destruição. “E sabereis que eu sou o SENHOR.” Esta era a mensagem cravada em cada rocha partida, em cada osso alvejado. Não foi dito para que se soubesse da força da Babilônia. Não foi para glorificar Nabucodonosor. Foi uma assinatura, gravada a fogo e a ferro. A terra devastada era um pergaminho, e a ruína, a caligrafia divina. Quando o povo que sobrevivesse, espalhado entre as nações, lembrasse da beleza dos montes de Israel e soubesse que agora não passavam de um cemitério a céu aberto, um frio na espinha os atingiria. E no meio do seu cativeiro, quando o coração orgulhoso finalmente se quebrasse como os ídolos de pedra, eles se lembrariam.

Lembrariam de como seus corações se desviaram para os ídolos mudos, e de como Aquele que verdadeiramente fala havia, por fim, falado. Não com palavras ocas, mas com o silêncio ensurdecedor de uma terra que morrera junto com seus falsos deuses. E nesse lembrar, talvez, houvesse um princípio de regresso. Não à terra imediatamente, mas a Ele. Porque o alvo final da espada não era o extermínio, mas o reconhecimento. “E sabereis que eu sou o SENHOR.” A sentença mais terrível e, ao mesmo tempo, a única esperança que restava, escrita com ossos sobre os montes outrora sagrados.

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