Bíblia em Contos

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O Despertar da Fúria Divina

A geada da madrugada cobria o chão de barro batido do pátio da prisão, e Ezequiel sentia o frio subir pelas canelas, mesmo enrolado no manto gasto. O exílio babilônico era isso: um frio que ia além da pele, um cheiro permanente de fumaça distante e pó. Aquela manhã, porém, o peso no espírito era diferente. Não era a dor usual pela lembrança de Sião, mas uma pressão surda, como o baque grave de um tambor distante ecoando nas entranhas da terra.

Ele se recostou contra a parede de tijolos crus, e os olhos, velhos de tanto ver e não ver, perderam o foco do muro à frente. O céu, de um cinza baço e leitoso, pareceu rasgar-se. Não foi uma visão clara de início, mas uma sensação avassaladora de movimento vindo dos confins. Um cheiro de metal, de cavalos suados e de óleo de armaduras enferrujadas invadiu suas narinas. E então, as formas começaram a se coagular a partir da névoa do seu próprio espírito.

Vinham das extremidades, das partes remotas do norte, uma aglomeração que não era um exército, mas a própria ideia de invasão feita carne e ferro. E ele soube, não por palavras, mas por um conhecimento gravado na alma, que aquela era a figura de Gogue, da terra de Magogue, príncipe-chefe de Meseque e Tubal. Um nome que ecoava como uma pedra atirada num abismo, sem rosto definido na memória de seu povo, mas com um peso ancestral de caos.

A visão se aprofundou. Ele via as terras altas, ásperas e frias, onde esse povo se aninhava. Homens cujas faces eram mapas de cicatrizes, vestidos com peles de animais que não existiam nos campos da Judeia. Carros de guerra não como os ágeis carros egípcios, mas pesados, desajeitados, feitos para atropelar e despedaçar, com rodas cravejadas de cravos de ferro. E os escudos… grandes como portas, pintados com símbolos que evocavam dentes e garras. Persia, Cuxe e Pute estavam com eles, uma confederação estranha e forçada, como feras diferentes acorrentadas à mesma carroça de pilhagem. Gômer e todas as suas tropas, a casa de Togarma, do extremo norte – uma miríade de línguas guturais, de olhos claros como gelo sob elmos que refletiam um céu sem sol.

O coração de Ezequiel batia em uníssono com um som surdo que agora ele identificava: o rumor de incontáveis passos. Eles se moviam, não com a estratégia de um general, mas com a força bruta e irresistível de um deslizamento de terras. Subiam montanhas, atravessavam vales, e seus olhos, coletivamente, estavam fixos num alvo. Não nas fortalezas da Assíria ou nos tesouros do Egito. Mas numa terra pequena, estreita, que aparecia na visão como um oásis de quietude. Uma terra de colinas e vinhas, de aldeias sem muros, de um povo que havia voltado do cativeiro e vivia em segurança relativa, confiante. Israel.

E então, a percepção mais terrível veio à mente do profeta, como um sussurro vindo do próprio Trono: *Não era por força ou vontade deles. Era um laço no meu queixo.* A fúria que os impelia, a cobiça que luzia em seus olhos – “Subirei contra uma terra de vilas sem muros, virei contra um povo tranquilo que habita seguro, todos eles habitando sem muros e não tendo ferrolhos nem portas” – tudo isso era uma isca. O pensamento ímpio de saquear e roubar, de levar prata e ouro, gado e bens, um grande despojo… esse pensamento havia sido permitido. Mais que permitido, havia sido colocado como uma ideia cintilante na mente daquele príncipe do norte. Era a presa que atraía o predador.

Ezequiel sentiu um calafrio que não era do frio da cela. Era o temor reverente diante da soberania absoluta. A horda avançava, e na visão ele já a via descer como uma tempestade sobre as montanhas de Israel. O chão tremia. O ar ficava irrespirável, carregado do bafo das bestas e do rancor dos homens. Era o fim. Tudo que havia sido reconstruído seria reduzido a cinzas.

Mas justamente quando o desespero chegava ao auge, no momento em que as primeiras lanças da vanguarda pareciam tocar os vinhedos nos arredores de Zerafá, a visão mudou. O céu, que era plúmbeo, tornou-se abruptamente negro de fúria – não a fúria dos homens, mas a de Yahweh. Um ribombar, diferente de qualquer trovão, sacudiu os alicerces da própria visão. “Na minha indignação, no meu furor, hei de falar”, ecoou uma Voz que não era som, mas um abalo na realidade. Haveria grande tremor sobre o solo de Israel. Os peixes do mar, as aves do céu, os animais do campo e todo réptil que se arrasta sobre a terra tremeriam diante da Minha presença. As montanhas seriam derrubadas, os penhascos desmoronariam, e todo muro cairia por terra.

Ezequiel viu, então, o contra-ataque divino. Não era um exército de anjos com espadas flamejantes (embora eles estivessem lá, nas bordas da visão). Era o próprio cosmos se voltando contra os invasores. A confusão se instalava nas fileiras de Gogue. No furor da batalha, cada homem voltaria sua espada contra seu companheiro. Pestilência e sangue os alcançariam. Uma chuva torrencial, saraiva, fogo e enxofre cairiam sobre eles e sobre suas muitas tropas. E ele, Gogue, o príncipe chefe de tantos nomes sombrios, cairia sobre os montes de Israel. Seu corpo e os de sua multidão serviriam de pasto às aves de rapina e às feras. Leões do Carmelo e abutres do vale do Jordão se fartariam. A terra de Israel levaria sete meses para enterrar todos os mortos, para purificar-se. Os aldeões, ao acharem um osso humano, colocariam uma marca ao lado, até que os sepultadores o recolhessem. A madeira de suas armas, suas lanças e escudos, serviriam para acender fogueiras durante sete anos. O povo da terra não precisaria cortar lenha nas florestas.

A visão se dissipou como fumaça levada por um vento súbito. Ezequiel arfou, de volta à fria realidade da cela. O cheiro de metal e morte foi substituído pelo odor mofado da prisão. O silêncio era profundo. Mas algo havia mudado. O frio já não o penetrava da mesma maneira.

Ele se levantou, os ossos rangendo, e buscou o rolo de papiro e o tinteiro. Suas mãos, calejadas, tremiam ligeiramente, mas não de medo. Era a descarga do que tinha testemunhado. Molhou a pena. A história precisava ser registrada. Não era um alerta para um inimigo específico da sua época – os babilônios sorrariam diante da descrição daqueles bárbaros do norte. Era uma proclamação sobre a natureza do próprio Deus. Um lembrete eterno, gravado na pele da história, de que a soberania d’Aquele que reina sobre Sião é absoluta. As nações, por mais formidáveis que pareçam, rugem e se agitam dentro dos limites que Ele mesmo traça. Sua fúria, quando desperta, não é vingança cega, mas a necessária e terrível limpeza que precede a plena manifestação da Sua glória.

Ezequiel começou a escrever, e as palavras, em hebraico, fluíam com a solenidade de um cântico fúnebre e a certeza de um hino de vitória. “Veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Filho do homem, dirige o teu rosto contra Gogue, da terra de Magogue…” A pena arranhava o papiro, cada letra um testemunho silencioso naquele canto do exílio, de que o Senhor da História guarda o Seu povo. E que os planos mais ferozes dos homens, no fim, servem apenas para revelar, de maneira inescapável e tremenda, a grandeza do Seu Nome.

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