A aldeia de Sitim cheirava a cinza e desesperança. O sol, implacável, batia no chão rachado do vale, e as videiras que outrora deram uvas doces agora produziam frutos pequenos e azedos, como lágrimas verdes. Eliab, velho demais para o arado, mas não para a memória, sentava-se à sombra minguada de uma figueira e seus olhos percorriam a linha do horizonte onde a poeira dos mensageiros assírios ainda parecia pairar. Seu neto, Joás, brincava com ossinhos de cabra no chão, ignorante da maldição que os adultos sussurravam à noite.
“Vovô, por que não vamos mais ao monte para oferecer o primeiro trigo?”
Eliab fechou os olhos. A pergunta do menino era uma faca torcida na carne antiga de sua fé. Lembrou-se dos altares no alto dos morros, dos jardins de Adônis, das panelas de carne suína que fervilhavam em festas à deusa da fertilidade. Lembrou-se do cheiro do incenso oferecido a Gavdos, o deus do destino, misturado ao fumo das fogueiras sagradas. O povo buscava resposta na fumaça, esquecendo-se do fogo que não se apaga. E, nas cavernas, onde a luz não chegava, consulavam os mortos, sussurrando perguntas ao vácuo gelado. “Eis que estou aqui, eis que estou aqui”, bradara o SENHOR através do profeta, enquanto eles corriam atrás de ecos.
A voz do Eterno, na boca do homem de Deus, tornara-se um rugido distante naquele vale. “Povo que provoca a minha ira diante da minha face continuamente… que sacrifica em jardins e queima incenso sobre tijolos.” Eliab repetia mentalmente as palavras, e elas tinham o sabor das uvas de Sodoma em sua boca: amargas, enganosas. A terra respondia à infidelidade. As casas de Sitim guardavam não bênçãos, mas vergonha. Os celeiros, vazios; os poços, com água salobra. Os jovens sonhavam com as cidades fenícias, com seus deuses de braços abertos e promessas fáceis. A aliança virara um peso, um velho contrato esquecido em um baú.
Mas havia outra memória, teimosa como a raiz de um carvalho brotando de uma fenda na rocha. A mesma voz que julgava, também prometia. Enquanto a maioria do povo seria deixada à sua própria escolha amarga – “medirei na sua própria medida a sua obra anterior” –, Eliab agarrava-se a uma frase como a um galho sobre um abismo: “Assim diz o SENHOR: Como quando se acha mosto num cacho de uvas, e se diz: ‘Não o destruas, pois há bênção nele’, assim farei por amor dos meus servos, para não os destruir a todos.”
Servos. Havia outros, ele sabia. Gente como Ana, a viúva que, ao invés de seguir as procissões noturnas, tecia mantos para os órfãos em silêncio, seu tear fazendo um ritmo constante de oração. Como o jovem Levi, que se recusara a aprender os encantamentos caldeus e passava noites copiando os feitos de Davi em peles de cabra. Eles eram o cacho preservado. Eles eram os que buscavam, não nos tijolos, mas no silêncio; não nos jardins, mas no coração contrito.
Uma tarde, um vento incomum desceu do norte, carregando não a poeira do deserto, mas o cheiro fresco de terra molhada. Eliab levantou a cabeça, suas juntas doloridas protestando. O céu, de um azão profundo, começou a se encher de nuvens brancas, macias como velo. A primeira gota caiu em sua testa, e ele acreditou que era suor, até que outra caiu, e outra. Era uma chuva miúda e persistente, a chuva da primavera tardia, a chuva da promessa.
Naquela noite, sentado à porta de sua casa de pedra, Eliab falou a Joás. Não com a voz áspera do juízo, mas com o tom baixo e cantante das histórias antigas. “Ouça, meu filho. O SENHOR fará novos céus e nova terra. E a história de agora, esta de fome e vergonha, será esquecida, apagada da memória.” O menino encostou a cabeça em seu joelho, os olhos arregalados refletindo a chama do pavio.
“Como será, vovô?”
“Será… como a manhã depois da noite mais longa”, Eliab começou, as palavras tecendo uma tapeçaria diante deles. “Em Jerusalém, haverá alegria, e no seu povo, regozijo. Não se ouvirá mais o choro de criança que vive apenas um dia, nem o lamento do velho cujos anos não se completam. Pois o menino de cem anos morrerá, mas como alguém que mal começou a viver; e quem não alcançar cem anos será considerado amaldiçoado apenas por ter partido cedo demais da festa.”
Joás sorriu, imaginando velhos tão fortes quanto carvalhos. “E vamos construir casas e morar nelas? Plantar vinhas e comer do fruto?”
“Mais que isso”, disse Eliab, e sua voz ganhou uma força que há anos não tinha. “Plantarão e outros não colherão; edificarão e não serão desalojados. O trabalho de suas mãos não será em vão. Serão como a árvore plantada junto às águas. E os lobos e os cordeiros pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi. E não causarão dano nem destruição em todo o meu santo monte.”
A imagem era tão vívida que ambos quase podiam ouvir o balido tranquilo das ovelhas ao lado do suspiro do predo, agora domesticado pela harmonia do mundo refeito. Eliab pegou a mão pequena do neto. “Antes que clamem, eu responderei; ainda estando eles falando, eu os ouvirei.”
O menino cochilou, e o velho ficou olhando as estrelas que perfuravam o véu da noite. A promessa não era um mero consolo. Era uma semente plantada no solo arrasado da história, uma certeza que fazia a atual desolação parecer um parêntese passageiro. Os montes de incenso ainda fumegariam por um tempo, os nomes dos deuses estrangeiros ainda serão invocados. Mas para os servos – para os que, como um fio de ouro numa roupa rasgada, permaneciam fiéis – havia um novo nome sendo preparado. Um nome que a boca pronunciaria com doçura, como o primeiro gole de água de uma fonte pura.
O amanhecer encontrou Eliab ainda sentado, seus ossos dormentes, mas seu espírito leve. Joás acordou e correu para fora. “Vovô! A figueira! Olha!”
Nos galhos ressequidos da velha árvore, precisamente no ramo sob o qual o velho se assentava para lembrar e esperar, brotavam dezenas de folhas novas, tenras e de um verde tão vibrante que pareciam feitas de luz. Era apenas um broto. Mas para aquele que espera contra toda esperança, um broto é a confirmação de que a raiz está viva. E a raiz era santa. E o tronco que dela nasceria cobriria a terra.




