O sol da tarde batia na pedra clara do pátio do templo, mas o calor que subia não era apenas do dia. Era um calor pesado, de multidão, de animais inquietos, de brasas que não se apagavam. O ar cheirava a incenso doce, sim, mas por baixo dele vinha o fedor acre do sangue seco nos cantos, da urina dos cordeiros, da ansiedade humana. Azarias, um levita de rosto marcado pela rotina, observava de longe o vai e vem. As filas eram longas. Homens de roupas finas, mulheres com véus bordados, camponeses com as túnicas empoeiradas – todos traziam algo. Um cordeiro branco, uma cesta de grãos, uma vasilha com azeite. As mãos estendiam as ofertas, os sacerdotes as recebiam com gestos rápidos, quase mecânicos. O altar de bronze cuspia fumaça continuamente, uma coluna cinzenta que subia reta para um céu de um azul impiedoso. Era um espetáculo de devoção. E, no peito de Azarias, uma náusea quieta se instalava.
Ele se lembrava dos cânticos da manhã, das harpas, das vozes que ecoavam nos átrios. “Venham, adoremos!”. Mas os olhos dele, velhos de ver, capturavam outros detalhes. O mercador Efraim, que acabara de vender um tecido por um preço extorquido a uma viúva, agora depositava sua oferta com uma expressão de profunda satisfação. A mão que apertava o pescoço do cordeiro era a mesma que, horas antes, tinha fechado o punho em uma discussão de negócios, ameaçando um devedor. A mulher de Simeão, que falava mal das vizinhas na fonte, agora derramava azeite com uma piedade teatral. O culto fluía, o ritual era perfeito. A fumaça subia. E Azarias pensou, com um amargor que lhe parecia profano, que aquela fumaça devia ter um gosto horrível. Devia ser acre, pesada, grudenta. Não era o suave aroma que agrada. Era a fumaça de algo queimado por obrigação, não por amor.
Sua mente vagou para a cidade além dos muros do templo. Para as ruas estreitas de Jerusalém. Lá, o cheiro era outro. Era de lixo apodrecendo nos becos, de desespero mudo. Lá, os órfãos que deviam ser defendidos pelos juízes choravam encostados em portões que não se abriam. Lá, as viúvas que a Lei mandava proteger vendiam os últimos fios de lã por um punhado de farinha. Os magistrados, os mesmos que ele via aqui de tempos em tempos, trazendo seus sacrifícios caros, eram rápidos em aceitar subornos e lentos como lesmas em fazer justiça. A cidade, outrora chamada de “cidade do Grande Rei”, parecia uma corpo bonito por fora, com vestes ricas, mas por dentro, os ossos estavam podres, corroídos por um mal silencioso.
Ele fechou os olhos por um instante, e as palavras antigas, terríveis, que um profeta solitário gritara nas praças, voltaram a ele com a força de uma onda suja. Palavras que o sumo sacerdote considerava inconvenientes, exageradas. “Ouçam, ó céus! Escute, ó terra!” Era um grito que vinha do trono do próprio Santo. E o que Ele dizia? Que aquela nação, escolhida, tinha se tornado um filho rebelde, pesado, que não conhece, não entende. Que o boi conhece seu dono, e o jumento conhece o dono da manjedoura, mas Israel não conhece, o meu povo não entende.
Azarias abriu os olhos. A cerimônia continuava. Um sacerdote mais jovem, animado, chamava o povo para uma nova ladainha. “Povo escolhido! Povo santo!” Azarias engoliu seco. Santo? A doença começava na sola dos pés e ia até o alto da cabeça. Feridas abertas, inchaços purulentos, machucados não tratados. Era essa a imagem. Não a de um povo santo, mas de um homem espancado, deixado à beira do caminho, e que ainda assim arrastava seu corpo dilacerado até o templo para cumprir tabela. Para que? Para oferecer mais sangue de carneiro? Mais gordura de novilhos? Para queimar mais novilhos, mais cordeiros, mais bodes sem fim?
Um tremor percorreu suas mãos envelhecidas. Ele sabia o que vinha depois naquelas palavras proféticas. O Santo de Israel estava cansado. Cansado daquela cacofonia de orações vazias. As festas de lua nova, os sábados solenes, as convocações sagradas – Ele as detestava. Tinham-se tornado um fardo para Ele, uma chatice. E as mãos estendidas em oração? Estavam cheias de sangue. Sangue de injustiça. Sangue do pobre esmagado.
O que restava então? O ritual não adiantava. A pompa era um insulto. O profeta dizia que era para lavarem-se, purificarem-se, tirar a maldade de diante dos olhos. Parar de fazer o mal. Aprender a fazer o bem. Procurar a justiça. Ajudar o oprimido. Fazer justiça ao órfão. Defender a causa da viúva.
Era tão simples. Tão brutalmente simples. Não era uma nova lista de sacrifícios. Era uma reviravolta completa da vida. Era sair dali, daquele pátio fumacento, e entrar nas ruas sujas para mudá-las. Era trocar a gordura queimada pelo pão compartilhado. Trocar o incenso pelo abrigo dado.
O sol começava a se pôr, tingindo a fumaça do altar de um laranja sujo. As cerimônias do entardecer começariam em breve. Mais cânticos, mais harpas, mais sacrifícios. Azarias olhou para o Santo dos Santos, invisível atrás do véu. Ele se imaginou, por um instante de terror e esperança, ouvindo não o som das trombetas, mas uma voz baixa, firme, vinda da eternidade. Uma voz que não gritava mais, mas que convidava, num sussurro que cortava mais que todos os gritos: “Venham, vamos discutir isso. Embora os seus pecados sejam como escarlate, eles podem ficar brancos como a neve; embora sejam vermelhos como o carmesim, podem tornar-se como a lã.”
Era um convite para um julgamento, sim, mas também para uma transformação. A escolha estava posta. Continuar aquele teatro de fumaça e sangue, ou aceitar a lavagem profunda, dolorosa, que só Ele podia dar. A cidade doente podia ser curada. O filho rebelde podia voltar.
Azarias respirou fundo. O cheiro do templo ainda estava lá, mas agora ele percebia, sob o fedor, um traço quase imperceptível de algo novo. Como o cheiro da terra depois da primeira chuva, muito, muito distante. Ele se virou e começou a caminhar, não em direção aos outros sacerdotes para os rituais noturnos, mas para o portão. Havia um órfão, filho de um oleiro que ele conhecera, que precisava de um lugar para dormir. A noite caía sobre Jerusalém. A fumaça do altar, finalmente, começava a se dissipar no céu escuro.




