O sol da tarde pesava sobre a terra ressecada, um disco de bronze inclemente no céu sem nuvens. Um vento quente e preguiçoso agitava a poeira fina do caminho, envolvendo os três homens sentados diante daquele monte de ruína humana que outrora fora Jó. O cheiro era de cinzas, suor e desespero contido. Zofar, o naamatita, sentia as palavras fervilhando em seu peito como água em uma panela sobre as brasas. Os discursos anteriores de Bildade e Elifaz tinham deixado um gosto amargo de insuficiência no ar. Agora, era sua vez.
Ele ajustou o manto sobre os ombros, sentindo a lã áspera contra a pele. Seus dedos traçaram nervosamente o bordado desbotado. Não olhou para os olhos fundos e febris de Jó, que pareciam duas fontes secas cavadas num rosto outrora cheio. Olhou para o horizonte tremeluzente, onde o calor distorcia as formas das acácias esqueléticas.
“O meu pensamento me incita a responder”, começou, e sua voz soou mais áspera do que pretendera, carregada da poeira que todos respiravam. “E por isso faço pressa. Ouvi a repreensão que me envergonha, mas o espírito do meu entendimento me responde.”
Havia um tremor de ira justa em suas palavras, uma indignação que não era apenas por Jó, mas por uma ordem cósmica que parecia ter sido afrontada. Ele se inclinou para frente, e seus joelhos rangeram levemente.
“Sabes tu isto, desde a antiguidade, desde que o homem foi posto sobre a terra?” prosseguiu, e agora sua voz adquiria um tom profético, cantante, como se recitasse uma verdade ancestral que todos haviam esquecido. “Que o triunfo dos ímpios é breve, e a alegria do hipócrita, só por um instante?”
Uma nuvem de gafanhotos passou zumbindo ao longe, um som seco e ameaçador. Zofar aproveitou a pausa, deixando o silêncio se instalar. Via na mente a imagem que suas palavras deveriam pintar.
“Ainda que a sua altivez suba até os céus, e a sua cabeça chegue até as nuvens, como o seu próprio esterco, perecerá para sempre.” A imagem era brutal, escatológica, e ele a lançou sem adornos. “Os que o viam dirão: Onde está? Como um sonho voará, e não será achado; será dissipado como uma visão da noite.”
Elifaz assentiu gravemente. Bildade cruzou os braços, seu rosto um monumento de severidade. Jó não moveu um músculo.
Zofar se empolgou com o fluxo das palavras. Era como descrever o destino de um animal abatido. “Os olhos que o viam não o verão mais; nem o seu lugar o contemplará mais. Seus filhos terão de implorar aos pobres, e as suas mãos restituirão o seu bem. Os seus ossos, cheios de vigor juvenil, se deitarão com ele no pó.”
Ele fez uma pausa para respirar, sentindo o suor escorrer por suas têmporas. O calor era opressivo, mas a convicção o aquecia por dentro. Descreveu a doçura inicial da maldade, um sabor que se tornava veneno. “Ainda que o mal se lhe mostre doce na boca, ele o esconderá debaixo da língua, poupa-o e não o deixa, mas retém-o no seu paladar. O seu alimento se transforma nas suas entranhas; fel de áspides está dentro dele.”
As palavras saíam em torrente, imagens de violência e decomposição. Ele falou do homem ímpio sugando o mel do favo, só para descobrir que era fel. Falou da riqueza devorada, vomitada por um Deus irado. Falou de flechas de ferro e de bronze que lhe atravessariam o corpo, e das trevas que o aguardavam, tesouros que nunca usufruiria.
“Porque ele oprimiu e desamparou os pobres; roubou a casa que não edificou.” Zofar apontou, não para Jó, mas para o vazio à sua frente, como se visse o espectro do ímpio ali. “Não sentiu sossego na sua avareza; nada salvará do que tanto desejou. Nada lhe sobejou para que pudesse comer; portanto, o seu bem não durará.”
Sua voz começou a crescer, atingindo um clímax de terrível poesia. “Na plenitude da sua abastança, estará angustiado; toda a força da miséria virá sobre ele. Esteja ele para encher o seu estômago, Deus mandará sobre ele o furor da sua ira e fara chover sobre ele os seus dardos.”
A cena final que pintou era apocalíptica. “Fugirá das armas de ferro, e o arco de bronze o atravessará. A flecha o fará sair pelo corpo, e a lâmina reluzente sairá pelo seu fel. Tremores o assaltarão, terrores virão sobre ele.”
Ele descreveu o fogo não apagado, o vento leste devastador do deserto soprando sobre sua tenda, o céu sobre ele feito de bronze, a terra debaixo, de ferro. A chuva que se tornaria em enxofre ardente.
“Esta é a porção do homem ímpio da mão de Deus”, concluiu Zofar, sua voz baixando para um sussurro rouco e grave, “e a herança que Deus lhe reservou.”
O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que todos os discursos. O vento quente soprava, levantando um véu de pó que dançava entre os quatro homens. O cheiro de cinzas permanecia. Zofar sentou-se, exausto, como se tivesse carregado um fardo enorme e finalmente o houvesse depositado aos pés de Jó. Seu coração batia forte contra as costelas. Ele olhou, finalmente, para o rosto do amigo devastado, procurando um sinal de reconhecimento, de arrependimento, do início daquela restituição moral que sua terrível e bela profecia anunciava como possível, se apenas aquele homem quebrantado aceitasse a lógica implacável do universo.
Jó fitou o chão de terra batida. Um grilo começou a cantar, estridente, na sombra raquítica de uma pedra. A história não terminava ali, Zofar sabia. Apenas um capítulo de muitos naquele longo e agonizante debate sob um céu de bronze. Mas ele havia dito sua parte. A justiça, ainda que terrível, havia sido proclamada. O resto era com Jó, e, sobretudo, com Aquele cujos dardos de fogo e chuva de enxofre eram, afinal, os únicos instrumentos verdadeiros de uma ordem que os homens, em sua pequenez, mal podiam começar a entender.




