Bíblia em Contos

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O Silêncio Antes da Justiça

O sol da tarde derramava sobre Jerusalém uma luz espessa e dourada, a mesma que parecia ignorar os becos estreitos onde a sombra já se instalava, fria e úmida. Eliazer subiu, com um esforço que lhe doía os ossos, até a parte mais plana do telhado de sua casa modesta, na Cidade Baixa. Não era pela brisa, quase inexistente naquela tarde abafada. Era para ver, ou melhor, para tentar enxergar além do que seus olhos lhe mostravam. O coração, pesado como uma pedra de moinho, sussurrava palavras que a boca temia pronunciar.

“Até quando, Senhor?”, a pergunta não saiu em um grito, mas num sopro rouco que se perdeu no ar quente. “Até quando te esconderás no tempo da angústia?”. Ele via, todos os dias. Via o mercador astuto, Abias, que ajustava as balanças com dedos ágeis, enganando as viúvas que compravam farinha. Via os capangas de um certo oficial romano, cujo nome era sussurrado com medo, esmagando as barracas dos vendedores de azeitonas que se recusavam a pagar a “taxa de proteção”. Ouvia, à noite, quando o silêncio deveria reinar, os risos altos e obscenos vindo da taverna de Mical, o edomita, onde se planejavam, entre copos, mais algumas extorsões.

O ímpio, na arrogância de sua face, perseguia o pobre. Eliazer pensou no filho de Jônatas, o oleiro, levado para trabalhos forçados por uma dívida inventada. Acontecia como uma caçada silenciosa. O malvado se gloriava do desejo do seu coração; e o ganancioso, bendizendo-se, desprezava ao Senhor. Seu rosto era duro, impenetrável. Nos seus caminhos, em todos os tempos, os teus juízos estão longe dele. Era como se Deus estivesse a um mundo de distância, entrincheirado nos céus, enquanto na poeira das ruas a injustiça brotava e frutificava sem controle.

Eliazer fechou os olhos, e as imagens se tornaram mais nítidas. O ímpio, com o nariz arrebitado de desdém, dizia em seu coração: “Não serei abalado; nunca me verei na adversidade”. Sua boca estava cheia de maldição, de engano e de opressão; debaixo da sua língua, havia trabalho e iniquidade. Sentava-se nas emboscadas, nos lugares ocultos das portas da cidade, ou nas sombras dos armazéns do porto. Seus olhos, vivos como os de um chacal, espreitavam o inocente, o desavisado. Esperava, paciente como a própria morte.

E quando agia, era rápido e brutal. Puxava o necessitado para uma rede de dívidas, arrastava-o com um laço. Abatia-o, curvava-o, até que o pobre caísse em seu poder. Voltava a dizer em seu coração: “Deus esqueceu, virou o rosto, nunca verá isto”. Era essa certeza perversa, essa convicção de que não havia testemunha nos céus, que mais atormentava Eliazer. A fé vacilava diante de uma impunidade tão completa, tão escancarada.

Um cheiro forte de fumaça de carvão subiu até ele. Era a forja de Heber, o ferreiro, que trabalhava tarde, talvez fazendo alghas algemas ou ferramentas que, ele sabia, seriam usadas para fins duvidosos. O som ritmado da marreta parecia ecoar a batida monótona da opressão: *captura, oprime, esmaga*.

“Levanta-te, Senhor!”, a súplica agora fervia dentro de seu peito, uma brasa de indignação misturada com desespero. “Ó Deus, levanta a tua mão! Não te esqueças dos humildes.” Por que razão desprezaria o ímpio a Deus, dizendo no seu íntimo que tu não inquirirás? Mas tu viste, pois atentas para o trabalho e para a dor. Tu és a testemunha, mesmo quando o céu parece de bronze. Ao pobre, o órfão, o desamparado, tu os tomas sob a tua proteção. Tu és o ajudador do órfão.

O vento mudou, trazendo de repente um frescor do vale, e com ele um som distante: o cantochão suave dos levitas começando os preparativos no Templo. Era um fio de melodia no crepúsculo. Eliazer respirou fundo. A oração, que havia começado como um lamento despedaçado, foi ganhando forma e força em seu espírito. Ele não pedia mais por um milagre espetacular, por um raio do céu. Pedia por justiça. Quebra o braço do ímpio e do mal; descobre a sua maldade, até que nada mais dela se ache.

O Senhor é Rei eterno; as nações são expelidas da sua terra. A realidade terrena, tão sólida e cruel, não era a realidade última. Havia um trono. Havia um governo. O desejo dos mansos ouviste, Senhor; confortarás os seus corações. O juízo viria. Não talvez no tempo de Eliazer, mas certamente no tempo de Deus. Aos órfãos e oprimidos, ele traria justiça, para que o homem, que é da terra, já não inspire terror.

A luz dourada tinha se transformado em um rubor profundo no horizonte. As sombras nos becos agora eram totais, mas Eliazer não as via mais com o mesmo desespero. Havia uma firmeza nova em seus joelhos doloridos quando desceu a escada de volta para a sala principal, onde sua esposa acendia uma lamparina. O cheiro simples da sopa de lentilhas enchia o cômodo.

O salmo ainda ecoava nele, mas não mais como um grito no vão. Agora era uma afirmação, gravada a fogo em sua alma: “Tu, Senhor, ouviste o desejo dos humildes; tu lhes firmarás o coração, e os teus ouvidos estarão atentos. Para fazer justiça ao órfão e ao oprimido, a fim de que o homem, que é da terra, já não inspire terror.”

A noite cairia sobre Jerusalém, e com ela, os perigos não desapareceriam. Abias ainda ajustaria suas balanças. Os capangas ainda rondariam. Mas Eliazer se deitou na esteira com um peso diferente no peito. Não era mais o peso da angústia, mas o peso solene de uma verdade redescoberta: o esconderijo de Deus não era indiferença. Era o silêncio profundo que antecede o veredito. E aquele que é da terra, por mais terrível que pareça, um dia terá de prestar contas àquele cujo reino não tem fim. A justiça, ele agora sabia, era inevitável como o nascer do sol que pintaria o céu, algumas horas mais tarde, com novas cores.

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