Bíblia em Contos

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O Alicerce do Rei Davi

O dia amanheceu frio sobre Jerusalém, um vento cortante descia dos montes de Judá, carregando o cheiro de terra molhada e pedra. Davi, rei de Israel, sentiu esse frio nos ossos de um modo que nunca sentira antes. Não era o frio das campanhas militares, enfrentado com o ardor da juventude, mas um frio interior, profundo, que falava de ciclos que se fecham. Ele se apoiou na janela de seus aposentos, os olhos perdidos no monte Moriá, na eira de Ornã, o jebuseu. Aquele terreno irregular, com suas rochas expostas e os resquícios da eira, já não era um simples local de debulhar trigo. Aos olhos do rei, era um espaço vazio que gritava por preenchimento.

Há semanas, uma agitação diferente tomara o palácio. Não era o burburinho de guerra, mas um zumbido constante de atividade planejada. Davi chamara a si os mestres de obra, os ferreiros, os artífices em bronze e ferro. Seus servos viajavam até as fronteiras de Tiro e Sidom, portando riquezas dos tesouros reais. Em troca, chegavam, serpenteando pelas colinas, enormes toras de cedro do Líbano, retas e aromáticas, cujo cheiro impregnava o ar como um incenso antecipado.

Nessa manhã específica, Davi decidiu descer pessoalmente até o local. Caminhou com um passo mais lento, deliberado. Seus cabelos grisalhos eram visíveis sob o manto. Acompanhavam-no alguns de seus conselheiros mais antigos, homens que haviam lutado ao seu lado e que agora viam, com um misto de admiração e perplexidade, o guerreiro transformar-se em arquiteto de um sonho que não lhe pertencia por completo.

Ao chegar à eira, o rei não viu apenas terra batida. Viu alicerces. Viu colunas. Viu, na mente e no espírito, a Casa que ali deveria erguer-se. Não uma casa para um rei, mas para o Rei. A lembrança das palavras do profeta Natã ainda ecoava, às vezes como consolo, às vezes como uma ligeira pontada: não serias tu a construir uma casa para o meu Nome. A aceitação daquela liminação divina não apagara o desejo; antes, o transformara em algo mais nobre, mais dolorosamente altruísta.

— Chamem Salomão — sua voz soou rouca, mas firme, cortando o ruído do vento e do trabalho distante.

Enquanto aguardava o filho, Davi percorreu os depósitos que começavam a se formar nas cavernas naturais e nos armazéns provisórios construídos ao redor. Parou diante de pilhas de bronze que reluziam fracamente na luz difusa, tocando uma barra com a ponta dos dedos, fria e pesada. Era bronze em quantidade incalculável, destinado a colunas, ao mar de fundição, aos altares. Mais adiante, o ferro, escuro e severo, aguardando para se tornar gonzos, portas, ferragens. Pilhas de prata e ouro, cuidadosamente avaliadas e registradas pelos escribas, cintilavam em arcas de madeira. E as pedras. Grandes blocos de pedra lavrada, extraídos das cavernas da região, cortados sob medida, pesados, quadrados, perfeitos. O som do cinzel sobre a pedra era uma música constante, uma sinfonia de preparação.

Salomão chegou, jovem, seu rosto ainda liso, mas os olhos começando a carregar a gravidade que herda um filho destinado ao trono. Davi o fitou, e uma onda de emoção — amor, expectativa, uma ponta de saudade do futuro que não veria — apertou-lhe o peito.

— Senta-te comigo, meu filho — disse Davi, indicando um grande bloco de pedra que servia de banco.

O rei então começou a falar. Não foi um discurso régio, mas o derramamento de um coração de pai e de servo do Eterno. Falou do seu desejo, antigo e ardente, de construir uma casa para a Arca da Aliança, para que o Senhor, que havia andado com eles em tenda e tabernáculo, tivesse um lugar de descanso entre seu povo.

— Eu disse: ‘Vou construir uma casa de repouso para a arca da aliança do Senhor, e para o escabelo dos pés do nosso Deus’. Preparei com todas as minhas forças para a construção.

Ele fez uma pausa, os olhos marejados, mas sem vergonha das lágrimas.

— Porém, veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: ‘Tu derramaste muito sangue e lutaste grandes guerras; não construirás casa ao meu Nome. Eis que te nascerá um filho, que será homem de paz; e hei de dar-lhe paz de todos os seus inimigos ao redor; portanto, Salomão será o seu nome. A ele darei paz e sossego a Israel nos seus dias. Ele construirá uma casa ao meu Nome’.

Davi colocou uma mão pesada, calejada por espadas e harpas, no ombro do filho.

— Ele te edificará uma casa. Foi ele, o Senhor, quem me disse: ‘Teu filho Salomão é que construirá a minha casa e os meus átrios’. Portanto, meu filho, o Senhor seja contigo, para que prosperes e edifiques a casa do Senhor, teu Deus, como falou a teu respeito.

E então, o rei se transformou no administrador meticuloso. Começou a detalhar, com a precisão de quem sonhou cada prego, cada junta de madeira, a imensidão dos preparativos.

— Eis que, na minha aflição, preparei para a casa do Senhor cem mil talentos de ouro, e um milhão de talentos de prata; e de bronze e ferro, peso que se não calcula, porque é em abundância. Também madeira e pedras preparei, e tu aumentarás a quantidade.

Mas a ênfase não estava apenas na abundância. A sabedoria do velho rei mostrava-se no discernimento.

— Além disso, tens contigo trabalhadores em grande número: cortadores de pedra, artífices em pedra e madeira, e homens peritos em toda a espécie de obra. Do ouro, da prata, do bronze e do ferro não há conta. Levanta-te, pois, e mãos à obra! E o Senhor seja contigo!

Davi então deu a ordem final, a que daria autoridade e legitimidade divinas ao empreendimento.

— Ordenou também Davi a todos os chefes de Israel que ajudassem a Salomão, seu filho, dizendo: — Porventura, não está o Senhor, vosso Deus, convosco? E não vos deu ele repouso de todos os lados? Porque entregou na minha mão os habitantes da terra, e a terra foi subjugada diante do Senhor e diante do seu povo. Disponde, pois, agora o vosso coração e a vossa alma para buscardes ao Senhor, vosso Deus; e levantai-vos, e edificai o santuário do Senhor Deus, para que a arca da aliança do Senhor e os utensílios sagrados de Deus sejam trazidos a esta casa, que há de ser edificada ao nome do Senhor.

O vento parecia ter amainado enquanto o rei falava. As palavras pairavam no ar, mais tangíveis que o cheiro do cedro, mais sólidas que os blocos de pedra. Salomão ouvia, absorvendo não apenas as instruções, mas o peso da herança e a leveza da promessa. Não seria uma construção baseada apenas na força humana, mas na fidelidade de uma aliança.

Davi se levantou, um pouco trôpego. Seu trabalho ali estava feito. Não o trabalho de colocar a pedra fundamental, mas de lançar os alicerces na obediência, na provisão fiel e no coração do próximo rei. Ao afastar-se, lançou um último olhar à eira. Já não via um terreno vazio. Via o futuro. E, na aceitação tranquila de seu papel de preparador de caminhos, encontrou uma paz que nenhuma conquista militar lhe dera. O Templo surgiria das mãos de Salomão, mas seu alicerce invisível estava sendo assentado ali, naquele dia frio, pelas mãos trêmulas, mas resolutas, de um rei que aprendeu a servir até mesmo nos seus “nãos” divinos.

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